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CARLOS BESEN
O poeta nasceu em Porto Alegre em 1980 e reside na capital gaúcha, onde se graduou em Filosofia pela UFRGS. Pos-graduando, vem colaborando em várias revistas impressas e eletrônicas e mantêm seus próprio blogs.
O poema que ora publicado sai na revista LITERATURA – Revista do Escritor Brasileiro, n. 31, jan/abril 2006, editada por nosso colaborador e amigo Nilto Maciel.
Veja outros poemas do autor em: http://www.germinaliteratura.com.br/cbesen.htm
A FORÇA DO DESARVORAR
I
Não saio de casa sozinho.
II
Espirro, respiro, meu nariz se debruça
sobre o cheiro chegando pelos ombros da cortina.
As narinas janelam no quarto fechado.
III
Desato a falar, minha garganta se abre fonte.
A boca deságua. Mastigo verde,
e as gengivas entendem o líquido como gelo,
o sólido como pedra, o gasoso como fogo.
Meus dentes de estante desenham búzios e absurdos.
IV
Escuto o que despista,
e minhas orelhas se inclinam como se o ruído indecifrado
também fosse balbucio divino (ou sua balbúrdia).
Ouvir já é estar ajoelhado.
V
Encubro-me de mim, meus cabelos escoam neve,
espuma de cílios.
A cabeça: uma genealogia de cavalos.
VI
Ao ler, jogo como jogo os olhos para trás,
faço das pupilas crânios da luz,
afasto os braços como se orvalhasse galhos.
Palavras são brancas como pérola, repetem a névoa.
VII
A visão me adoça para o escuro,
leio preto e branco nas fotografias.
VIII
Engordo feito fruta,
me acresço horizontal,
me constituo paisagem.
IX
A barriga protege um joão-de-barro,
meu pai.
A barriga é um bairro.
X
Tardo como quem seca, não me desloco
sem que os pés produzam diária uma suja biografia.
A lentidão já é alento,
o pólen do sangue se alfabetiza para a seiva.
XI
Carregado de vida, encurvo,
fico próximo dos lábios da grama.
A precária velhice dos ossos
não fratura a condição de semente.
XII
Minhas unhas crescem como se os dedos se renovassem.
As unhas são pá, escavo.
XIII
Sem esperança, me espero árvore.
Despojado, despertenço:
meu corpo me expulsa de casa.
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