ANDRÉ DlCK
Poeta, nasceu em Porto Alegre (RS), em 1976. E formado em Letras pela Unisinos e mestrando em Literatura Comparada na UFRGS. Publicou poemas em diversas revistas, como Medusa, Babel, Sibila e Sebastião. Tem o livro inédito— Grafias.
NUM QUADRO DE EDWARD HOPPER
a vida destrói
um sol
quase esquecido
numa tela
de hopper:
o posto de gasolina
abandonado,
onde um senhor,
talvez o dono,
em seu ócio,
rega a grama
com sua bomba
de petróleo.
QUANDO
quando acordar
passa a ser
mais do que
um sol à janela,
cego de nadas:
um claro vazio
fios onde mais
se alternam vozes -
ramais de telefone,
passos para trás,
carros enfileirados,
sinaleiras vermelhas,
como as maças
sobre a mesa:
um tempo, aqui
ou ali, o mesmo
da véspera,
disposto a tudo,
mesmo a comentar
ruídos ou murmúrios.
LUZ
a cidade
traduz néons
devagar:
dálias, o cheiro,
embora
haja o prédio
fumaça em torno,
perfume através
e além —
pétala inteira,
luz acesa.
ALGUMA PALAVRA
alguma palavra,
fragmento, saudade,
cheiro que,
quando a porta
se fecha, apenas
deixa de sê-lo,
a não ser —
enquanto existe —
costuma durar,
ficando, às vezes,
na roupa, no cabelo,
na manga da camisa
como cheiro de cigarro
tem a pretensão
de existir.
Poemas extraídos de NA VIRADA DO SÉCULO: poesia de invenção no Brasil, organização de Claudio Daniel e Frederico Barbosa. São Paulo: Landy, 2002. 348 p. ISBN 85-87731-63-7
De
PAPÉIS DE PAREDE
Rio de Janeiro: 7 Letras; FUNALFA, 2004.
ISBN 85-7577-119-1
Referência Especial do
Prêmio Cidade de Juiz de Fora – Literatura 2003.
MANHÃ
De repente, o azul
agora se oferece
à luz de uma manhã,
deste átimo breve
na falha do que se ganha,
no espaço da palavra
entre lacunas, encurralada,
apenas destoa, se perde.
BIOGRAFIA
Nada que possa
situar com planejamento
o encontro ligeiro
da primeira biografia
com um novo enredo.
Não que a chame
de contenção ou
que o perceba como solução
para tal desencontro
e desmoronamento.
DESCRIÇÃO
Do outro lado da rua
mal se adianta seu sorriso
(magenta, sem luminosidade)
entre a paisagem do vazio
e do seu rosto
agora se cala
contrito
buscando um anagrama
para a palavra
solidão
a tentativa de fechar os olhos
e imaginar um campo:
a composição
que os estudiosos
da salinha ao lado
chamariam écloga
RELÓGIO
minguado — o tempo
no relógio revela
o tempo de espera
para que você
ainda resta e
pode ser aproveitado
ou jogado fora
sem peso na consciência
Página publicada em agosto de 2009; ampliada e republicada em agosto de 2009
Página publicada em janeiro de 2009
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