YOLANDA JORDÃO
“Completa em sua condição humana, Yolanda Jordão vê o mundo e o corta, coma aguda faca da palavra, para mostrar-nos a sua essência de desamparada beleza e para prevenir-nos, com experiente inteligência, espírito lúdico e sutil ironia, das enganosas formas que muitas vezes o recobrem.” Da orelha do livro:
RETRATO OBLÍQUO
Rio de Janeiro: Livraria José Olympio Editora, 1973
AQUARELA
Têmpera parca
xilogravura
o pincel marca
simples rasura
Desenho ensaia
rara figura
platéia vaia
e desfigura
De pincelagem
em pincelagem
quebra-se a imagem
do personagem
Desfeito o tema
ato se encerra
a vida é pena
fora da tela.
EVOCANDO
Pagam-se hipotecas ao tempo
no polir das sílabas
para novos significados
Destilam-se vivências
assegurando identidade
na oficina do espírito
Afiam-se lâminas
inoxidáveis de memória
que se empilham à noite
casualmente
na fonte retroativa
do calendário às avessas
Colhem-se vozes velhas
ecoadas em carícia
através um vento lírico
Despejam-se imagens
predestinadas a cair
no ângulo esgarçado
do derradeiro limbo
Trocam-se passaportes
obrigatoriamente
isentos de assinatura
regulamento ou carimbo
AOS GRITOS
À força de acumular
máscaras aprazíveis
arrebatam-se os diques
uma tarde sem mais
Que a alma se ensope
do jorro desta acidez
da caudal de um ódio
figurado em descrença
Que à tona a impureza
salte livre e desnuda
na violência da queda
do incontrolável jogo
Aos berros e solavancos
em borbotões soltada
inunde as selva
outrora veladas
De
Yolanda Jordão
AUTOLOGIA
Rio de Janeiro: Edições Antares;
Brasília: Instituto Nacional do Livro, 1983.
173 p.
DESARMONIA
A palavra a ser pletora
há de se armar abraçada
a toda consanguínea família
dos entrechos vibráteis dados:
— nunca esquecer a entrada
na hora exata de soltar o canto.
De cada palavra usada
há um punhado de brotos
esperdiçados
sem fresta delgada
que possam desabrochar.
Se acaso o ouvinte
atentar somente no som
vibrado naquele instante
— da nota seca, de um só teor —
áspera ela chegará trinando mal.
Quantas notas conterá um acorde,
afastado das vibrações espúrias,
para ligar em conjunto
o tanto que os dedos alcançam?
EXECUÇÃO
Um olho de terra e outro de algas
as mãos de árvores e os pés de ervas.
Ficaremos presos na voz da raiz
do coração em primeira escolha.
Depois extirparemos a roupa de nossos sinais.
lavaremos as mãos no sangue assim
fazendo um fogo da cor de água morta
que vai nos devorar para nos liberar enfim
Página publicada em janeiro de 2009; ampliada e republicada em julho de 2010.
|