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Sobre Antonio Miranda
 
 


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


VIVIANE MOSÉ

 

http://solnaboca.blogspot.com/

 

VIVIANE MOSÉ

 

É capixaba e vive no Rio desde 1992. É psicóloga e psicanalista, especialista em “Elaboração e implementação de políticas públicas” pela Universidade Federal do Espírito Santo. Mestra e doutora em filosofia pelo Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da Universidade Federal do Rio de Janeiro. É autora do livro Stela do Patrocínio -Reino dos bichos e dos animais é o meu nome, publicado pela Azougue Editorial e indicado ao prêmio Jabuti de 2002, na categoria psicologia e educação. Organizou, junto com Chaim Katz e Daniel Kupermam o livro Beleza, feiúra e psicanálise (Contracapa, 2004). Participou da coletânea de artigos filosóficos, Assim Falou Nietzsche (Sette Letras, UFOP, 1999). Publicou em 2005, sua tese de doutorado, Nietzsche e a grande política da linguagem, pela editora Civilização Brasileira. Escreveu e apresentou, em 2005 e 2006, o quadro Ser ou não ser, no Fantástico, onde trazia temas de filosofia para uma linguagem cotidiana.

 

Como poeta, publicou seu primeiro livro individual em Vitória, ES, Escritos, (Ímã e UFES, 1990). Publicou, no Rio, Toda Palavra, (1997), e Pensamento Chão ( 2001), ambos reeditados pela Record em 2006 e 2007. E Desato (Record, 2006). Participou em 1999 do livro Imagem Escrita (Graal, 1999), coletânea de artistas plásticos e poetas, em parceria com o artista plástico Daniel Senise. É autora dos textos poéticos da personagem Camila no filme Nome Próprio de Murilo Salles, (2008). Tem alguns de seus poemas musicados, é parceira da cantora Mart’nália em duas músicas, “Contradição” e “Você não me balança mais”, que foram gravadas por ela e por Emílio Santiago, em seu último disco. 

 

Viviane escreve com o quê? Com o pé, marcando o compasso que vem de uma antiga melodia, geratriz da poesia. Com o ouvido, tirando de cada palavra, todos os tons. Com a boca, soprando sobre a palavra, um sentido único. Com o ventre, gestando o verbo no profundo, antes de dá-lo à luz. Com a mão, moldando maneira, sua forma última no papel. Com o sexo, regando as frases com o melhor de seu mel. / Pouco importa. Viviane escreve como os raros. Sua prosa passa por Rosa. Seu verso é feito do mesmo barro de Manoel. Viviane vibra cada sílaba. Seu ritmo é fêmeo, sem ser afeminado. É doce, sem ser melado. É duro, sem ser porrada. Viviane se recusa ao óbvio, ao fácil, à rima besta de um acalanto. Sua melodia plena, vem mais da imbatível respiração daqueles que cantam como falam, que dizem como olham, simples e mágicos como seus personagens plantados no chão. Viviane tem um caso com as palavras. na medida do impossível, um caso muito bem resolvido.”   CHACAL

 

“A escritora utiliza o método filosófico de descascar as camadas da linguagem, como a esfoliar um leque ou folhear a nudez. "Eu tenho muitas coisas, quero dizer, tenho muitas camadas./ Uma camada de livros, outra de sapatos./ Tem a camada de plantas. E toalhas de rosto./ Tenho camadas de nomes e coisas que vejo." A racionalidade, quando exacerbada, aguda-se em penetração investigativa e poética, fotografando a esmo tudo o que a cerca, valorizando detalhes até então despercebidos. O acúmulo não permite enxergar o conjunto, assim o refazendo. Tão claro, que resulta distorcido. O que importa é a falta de foco. Ao relacionar gratuidades, produz maravilhamentos como "minha pessoa é muito mais fraca do que meus pés". “Viviane Mosé é uma grande poeta. Não precisa mais explicar sua poesia.

FABRICIO CARPINEJAR

 

Vida/tempo

 

Quem tem olhos pra ver o tempo?

Soprando sulcos na pele soprando sulcos na pele

Soprando sulcos?

 

O tempo andou riscando meu rosto

Com uma navalha fina.

Sem raiva nem rancor

                            O tempo riscou meu rosto com calma.

 

Eu parei de lutar contra o tempo. Ando exercendo instante.

Acho que ganhei presença.

 

Acho que a vida anda passando a mão em mim. Acho que a vida anda passando.

Acho que a vida anda. Em mim a vida anda. Acho que há vida em mim. A vida em mim anda passando. Acho que a vida anda passando a mão em mim

 

                            Por falar em sexo quem anda me comendo

É o tempo.  Na verdade faz tempo, mas eu escondia

 

Porque ele me pegava à força, e por trás. 

Um dia resolvi encará-lo de frente e disse:  Tempo, se você tem que me comer  Que seja com o meu consentimento.  E me olhando nos olhos.  Acho que ganhei o tempo.  De lá pra cá ele tem sido bom comigo. Dizem que ando até remoçando

 

 

Receita pra lavar palavra suja

 

Mergulhar a palavra suja em água sanitária,

Depois de dois dias de molho, quarar ao sol do meio dia.

Algumas palavras quando alvejadas ao sol

adquirem consistência de certeza,

por exemplo a palavra vida.

Existem outras e a palavra amor é uma delas

que são muito encardidas e desgastadas pelo uso,

o que recomenda esfregar e bater insistentemente na pedra,

depois enxaguar em água corrente.

São poucas as que ainda permanecem sujas

depois de submetidas a esses cuidados

mas existem aquelas.

Dizem que limão e sal tiram as manchas mais difíceis e nada.

Todas as tentativas de lavar a piedade foram sempre em vão.

Mas nunca vi palavra tão suja

como a palavra perda.

Perda e morte na medida em que são alvejadas,

soltam um líquido corrosivo

—que atende pelo nome de amargura—

capaz de esvaziar o vigor da língua.

Nesse caso o aconselhado é mantê-las sempre de molho

em um amaciante de boa qualidade.

Agora se o que você quer

é somente aliviar as palavras do uso diário,

pode usar simplesmente sabão em pó e máquina de lavar.

O perigo aqui é misturar palavras que mancham

no contato umas com as outras.

A culpa, por exemplo, mancha tudo que encontra

e deve ser sempre clareada sozinha.

Uma mistura pouco aconselhada é amizade e desejo,

já que desejo sendo uma palavra intensa, quase agressiva,

pode, o que não é inevitável,

esgarçar a força delicada da palavra amizade.

Já a palavra força cai bem em qualquer mistura.

Outro cuidado importante é não lavar demais as palavras

sob o risco de perderem o sentido.

A sujeirinha cotidiana quando não é excessiva

produz uma oleosidade que conserva a cor

e a intensidade dos sons.

Muito valioso na arte de lavar palavras

é saber reconhecer uma palavra limpa.

Para isso conviva com a palavra durante alguns dias.

Deixe que se misture em seus gestos

que passeie pelas expressões dos seus sentidos.

Á noite, permita que se deite,

não a seu lado, mas sobre seu corpo.

Enquanto você dorme

a palavra plantada em sua carne

prolifera em toda sua possibilidade.

Se puder suportar a convivência

até não mais perceber a presença dela,

então você tem uma palavra limpa.

Uma palavra limpa é uma palavra possível.

 

 

Toda Palavra

 

Procuro uma palavra que me salve

Pode ser uma palavra verbo

Uma palavra vespa, uma palavra casta.

Pode ser uma palavra dura. Sem carinho.

Ou palavra muda,

molhada de suor no esforço da terra não lavrada.

Não ligo se ela vem suja, mal lavada.

Procuro uma coisa qualquer que saia soada do nada.

Eu imploro pelos verbos que tanto humilhei

e reconsidero minha posição em relação aos adjetivos.

Penso em quanta fadiga me dava

o excesso de frases desalinhadas em meu ouvido.

Hoje imploro uma fala escrita,

não pode ser cantada.

Preciso de uma palavra letra

grifada grafia no papel.

Uma palavra como um porto

um mar um prado

um campo minado um contorno

carrossel cavalo pente quebrado véu

 mariscos muralhas manivelas navalhas.

Eu preciso do escarcéu soletrado

Preciso daquilo que havia negado

E mesmo tendo medo de algumas palavras

preciso da palavra medo como preciso da palavra morte

que é uma palavra triste.

Toda palavra deve ser anunciada e ouvida.  

Nunca mais o desprezo por coisas mal ditas.

Toda palavra é bem dita e bem vinda.

 

 

Rios

 

Rios, quando ainda são rios,

Conservam vegetação nas margens.

Córregos são águas geralmente claras

Que correm rasas entre as pedras.

 

Algumas vezes árvores chegam a cobrir um rio por inteiro:

Suas copas vão tecendo um véu verde sobre as águas

(em geral muito limpas) que correm.

 

 As margens de um rio são plantas e terra molhada.

Terra e água em convivência pacífica.

Que não é lama, é terra e água,

Em sua diferença.

 

O leito se sabe leito daquele fluxo líquido inserido no chão. 

Eu poderia chorar de coisas assim:

Corre um rio de minha boca corre um rio de minhas mãos.

Dos meus olhos corre um rio.

 

Na verdade sofro de excessos, que me dão certo vocabulário

Como derramar, escorrer, atravessar.

Tenho a impressão de que tudo vaza em sobras.

Tenho dificuldade em caber.  

 

Pra caber mais derramo por nada derramo sem motivo.

Vou acalmar meu excesso pensei

Ministrando doses diárias de barcos ancorados ao sol,

Rodeados por pequenos pássaros em busca de restos de peixe.

 

Águas se lançando sobre as pedras e um vento que parece vivo,

Como se tivesse a intenção de às vezes fazer agrados

Em minha pele.

 

Meu rosto tem muita simpatia por ventos,

Reconhece certos humores próprios a vento.

Gosto de coisas que se movem.

 

Por isso aprecio rios e não sou tanto assim apegada a mares.

E árvores.

Se bem que tenho enorme ternura por bois

Fincados no pasto como palavras no papel.

 

Palavras são estacas fincadas ao chão.

Pedras onde piso nessa imensa correnteza que atravesso.

 

 

Prosa Patética

 

Nunca fui de ter inveja, mas de uns tempos pra cá tenho tido.

As mãos dadas dos amantes tem me tirado o sono.

Ontem, desejei com toda força ser a moça do supermercado.

Aquela que fala do namorado com tanta ternura.

Mesmo das brigas ando tendo inveja.

Meu vizinho gritando com a mulher, na casa cheia de crianças,

Sempre querendo, querendo.

Me disseram que solidão é sina e é pra sempre.

Confesso que gosto do espaço que é ser sozinho.

Essa extensão, largura, páramo, planura, planície, região.

No entanto, a soma das horas acorda sempre a lembrança

Do hálito quente do outro. A voz, o viço.

Hoje andei como louca, quis gritar com a solidão,

Expulsar de mim essa Nossa Senhora ciumenta.

Madona sedenta de versos. Mas tive medo.

Medo de que ao sair levasse a imensidão onde me deito.

Ausência de espelhos que dissolve a falta, a fraqueza, a preguiça.

E me faz vento, pedra, desembocadura, abotoadura e silêncio.

Tive medo de perder o estado de verso e vácuo,

Onde tudo é grave e único. E me mantive quieta e muda.

E mais do que nunca tive inveja.

Invejei quem tem vida reta, quem não é poeta

Nem pensa essas coisas. Quem simplesmente ama e é amado.

E lê jornal domingo. Come pudim de leite e doce de abóbora.

A mulher que engravida porque gosta de criança.

Pra mim tudo encerra a gravidade prolixa das palavras: madrugada, mãe, Ônibus, olhos, desabrocham em camadas de sentido,

E ressoam como gongos ou sinos de igreja em meus ouvidos.

Escorro entre palavras, como quem navega um barco sem remo.

Um fluxo de líquidos. Um côncavo silêncio.

Clarice diz que sua função é cuidar do mundo.

E eu, que não sou Clarice nem nada, fui mal forjada,

Não tenho bons modos nem berço.

Que escrevo num tempo onde tudo já foi falado, cantado, escrito.

O que o silêncio pode me dizer que já não tenha sido dito?

Eu, cuja única função é lavar palavra suja,

Neste fim de século sem certezas?

Eu quero que a solidão me esqueça.

 

Desato

 

 

É preciso fritar o arroz bastante antes de jogar água fervendo.

E não pode mexer jamais depois de a água ser posta.

O alho deve fritar no óleo junto com o arroz.

 

Coisas que eu sei e que não. Eu sei muitas coisas.

Faxina por exemplo. Sei limpar uma casa de tal modo

Que não sobra um canto que não tenha sido tocado

Por minhas mãos.

Depois vou sujando. Com muito gosto.

Deixo peças na sala e louças sujas na pia.

Não na mesma hora mas um pouco

Bastante depois volto limpando.

Assim me faço.

Nos objetos que me acompanham.

 

Gosto de andar nas ruas e comprar coisas

Que vão se arrumando em torno de mim.

Tenho muitas coisas, quero dizer, tenho muitas camadas.

Uma camada de livros outra de sapatos.

Tem a camada de plantas. E toalhas de rosto.

Tenho camadas de cosméticos e de adereços.

Uma camada de nomes e de coisas que vejo.

Tudo ordenado ao meu redor. Em forma de corpo.

Um corpo que me sustenta quando o meu próprio me falta.

 

Cadeiras são meus ossos. Sapatos são meus braços.

Torneiras em meus poros. Paredes como roupas de inverno.

(Quando toca música em minha casa sai do umbigo)

 

Descanso recostada nas paredes da casa

Que me guardam como um abraço.

Me abraço quando me derramo na sala.

E na cozinha. Em geral adormeço no quarto.

 

Tudo em minha casa tem existência.

Todas as coisas significo.

Com os olhos. Ou com as mãos.

Minha casa tem silêncios

Que ás vezes ouço. Em meu corpo

Tem silêncios maiores ainda.

Que às vezes ouço. E faço poemas.

Faço poemas dos silêncios que ouço.

 

 

Tudo o que vejo

 

Era tarde nas janelas da sala,

Um gosto de tarde que eu queria lamber.

Tenho vontade de lamber as coisas que gosto,

Mesmo as que não gosto costumo lamber sem querer.

Às vezes com a língua mesmo.

Molhada e escorrida.

Outras vezes uso a língua da palavra,

Quando tem cheiros ruins

Ou asperezas estranhas ao paladar de minha pessoa,

Ou por nada mesmo por gosto

Passo a língua nas coisas que vejo

E passo as coisas que vejo pra língua.

 

 

Página publicada em agosto de 2008

 




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