VICTOR LEONARDI
Nasceu em Araras (SP), em 1942. Morou na Bahia, formou-se em Direito em São José dos Campos (2004), e doutorado em Economia pela Universidade Federal Fluminense (2007). Atualmente é Professor Adjunto da Universidade Federal Fluminense. Viajou pela América Latina e pelos Estados Unidos, viveu seis anos na Europa, fez pós-graduação na Universidade de Paris, foi professor na Universidade de Brasília (UnB), na Unicamp etc., é consultor do Museu Amazônico, de Manaus, roteirista de vídeo e cinema e tem uns dez livros publicados de ensaios, poesia e ficção. Destaque, entre os seus vários livros, o de aforismos ― Jazz em Jerusalém, que se vale do acervo cultural para mostrar que a ação humana é transformadora e que o finito pode durar sempre um pouco mais.
Livro de poesia: Livro das verdes horas (1999), pela editora Massao Ohno (SP).
Página virtual do autor: Victor Leonardi.
O PRINCÍPIO SEM PRINCÍPIO
A poesia nunca é maldita
Mesmo quando o poeta come ópio
Ou é um marido complacente
Ou se chama Gregório de Matos.
A lei da magia sempre foi a lei da oposição.
Words, Words, Words, continua dizendo Hamlet
Enquanto nós batalhamos (por escrito) pelo equilíbrio
Pela construção da vida
De forma muitos vezes maldita.
Quase sempre maldita.
O CONHECIMENTO DAS COISAS QUE SÃO
Sempre que o vento é forte, em Brasília, as águas do lago se agitam
E a poeira vermelha se levanta, em redemoinho, como se quisesse dançar.
As águas não quiseram se agitar, elas simplesmente se agitaram.
O vento também não quis ventar, ou a poeira dançar
Isso tudo aconteceu independentemente deles.
Assim também as minhas imagens poéticas, que nunca me pedem licença para surgir.
Elas sobem à tona e acontecem, sozinhas, independentemente de meus sentidos.
E no entanto elas aconteceram de mim. Fora de minha personalidade
Mas dentro de uma individualidade mais vasta, que até hoje eu não sei qual é
Assim como a poeira vermelha nunca pensou em deifnir a sua natureza.
OS SILÊNCIOS DO LIVRO
Uma parreira quando cresce, na primavera, não tem
/nenhum objetivo utilitário. Ou esotérico.
Não é Ísis, nem Maya, nem Porta do Santuário Oculto.
É simplesmente parreira.
E no entanto vai crescendo, concentrada em seu silêncio
Com as raízes na terra
E a cara voltada para o ar: para a água da chuva
E o fogo do Sol.
Dessa plena posse de si mesma nascem os cachos de uva
Que Homero citou duzentas vezes na Ilíada
E que Noé (depois da fermentação) gostava tanto.
Noé lavrador embriagou-se com o vinho de sua vinha
E se pôs nu dentro da tenda, como diz o Gênesis.
A parreira continuou lá, unidade vida, pessoa sem ser humana
Sem nunca ter sido personagem:
Guardando silêncio sobre os seus desejos e projetos
(eu antes não aceitava, mas hoje admiro esses silêncios)
Para não poluí-los com as nossas preocupações.
NA CURVA DO CAMINHO
Um belo dia
A esperança foi-se embora
Do povoado da serra.
Foi vestida de luto.
Noite preta, fundo de praça
Por toda parte um cheiro antigo
De telhados-musgos
Coloniais.
Só ficaram as roupas
Amarelas
Nas molduras dos retratos.
― São onde e meia, falta pouco!
Na curva do caminho
Eu venho chegando.
Sozinho.
Procurando algum semelhante:
Pelo menos um
Nem que seja apenas um.
Página preparada por Salomão Sousa e publicada em fevereiro de 2009
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