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Sobre Antonio Miranda
 
 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 




RITA MOUTINHO

 

Maria Rita Rodrigo Octavio Moutinho, poeta e pesquisadora carioca, nascida em 1951, tem seis livros de poesia e um de ensaios: A hora quieta (1975), A trança (1982), Uma ou duas luas (plaqueta), 1987, Vocabulário: um homem (1995), Romanceiro dos amores (1999), Soneto do amores mortos (2006). Foi editora de pesquisa da Enciclopédia da literatura brasileira.

 

“Através de uma lírica culta, Rita, sem querer voltar ao passado, também não se vende aos modismos do não-gênero, mal de muitos poetas contemporâneos que tentam superar o já superado, prendendo-se a um procedimento inócuo. O livro [Sonetos de amores mortos] trata da elaboração do luto dos amores passados e a construção da memória dessas histórias. (...) Com este livro, Rita Moutinho mostra que entrou para a turma dos raros que dominam a arte do soneto “cravando-lhes a cunha da modernidade” como bem observou Ivan Junqueira na orelha do livro”;  ELAINE PAUVOLID

 

“Em Sonetos dos amores mortos, novo livro de poemas de Rita Moutinho, o amor está vivo. A despeito do lamento, o ódio, da despedida, da saudade, da memória, do luto, dos frutos que atravessam cada um dos dez blocos afetivo-temáticos da coletânea, a força que se afirma é esta — o amor — a partir da qual os demais sentimentos e a própria vida surgiriam: “A arte de amar nos nasce espontaneamente / é uma fonte que brota em nosso corpo ermo.” IGOR FAGUNDES

 

“O livro Sonetos dos amores mortos, de Rita Moutinho, traz consigo, e para nós,

o choque, a ferida sangrando dos amores desgarrados, perdidos, ou extraviados, no dia a dia, no corp~ a corpo, da aventura humana. O vigor da linguagem sabe, com raro apuro verbal, dizer as formas da perda ou do luto.

A alta temperatura afetiva organiza o tenso convívio das palavras: o desacordo e o acordo. O que o tempo desfez a linguagem refaz, porque só ela é capaz de guardar o tesouro escondido, e recuperar a sua voz silenciada. EDUARDO PORTELLA

 

“Em Rita Moutinho, particularmente nestes estupendos Sonetos dos amores mortos, percebe-se que a intensidade do sentimento lírico, aqui e acolá atravessada pela mais cortante ironia, se articula de modo admirável ao trabalho com as formas fixas do verso e do poema, gerando um conjunto coeso que transforma a cinza do amor na cintilação e na brasa perpetuamente renasci da do poético.” ANTONIO CARLOS SECCHIN

 

 

 

SONETOS

DOS AMORES

MORTOS

 

 

Soneto pós-moderno do adeus definitivo

 

A névoa do silêncio é tão intensa

que sinto o triz do adeus definitivo.

Minhas palavras morrem na sentença:

— Morri, adeus, não salve meu arquivo!

 

Deletar a saudade, tua presença,

é pôr no coração vácuo afetivo.

A razão corrobora e inda me imprensa:

— Morreu, adeus, o morto cinge o vivo!

 

Se não há par, irei salvar-me como?

Vivente, eu me formato como morta

e ponho uma redoma em torno à dor.

 

Emprestado do breu o luto eu tomo

e faço uma incisão em minha aorta.

Teclas líricas morrem. Adeus, amor!

 

 

Soneto da despedida felliniana

 

Aos poucos a esperança entra no beco

e dá com um pare dão inexorável.

Tento britar o fim que há no concreto,

nenhuma fresta se abre nesse entrave.

 

Olho o céu. Sob os astros, vejo um teto

de nuvens carregadas e negra ave

a dizer "nunca mais" em tom severo,

uma sentença breada que me abate.

 

.......................................................

 

Carrego na bagagem rosas, cardos,

alegres beija-flores, vis abutres,

estivais cobres, chumbos invernados.

 

Embarco com o passado e com Schubert.

Silva uma nênia, já la nave va.

Cinzas do amor mergulham no alto-mar.

 

 

Soneto do fim de caso com mágoas e ódio

 

Tu me disseste pluma, docemente,

quando o sumo do caso inda ebulia,

que tinhas de serrar nossa corrente.

Meu meio aro de ferro, em avaria,

não sangrou, continuou férreo e imantado.

E havia a sina: tanto adeus falido

e tanto reencontro emocionado ...

Mas era cova funda o concluído.

O ferro enferrujado por sal e águas,

que viam os calendários a se esvair,

deu tétano, fechou a glote, e as mágoas

e o ódio eram os adjetivos no exaurir.

         Por pressão dela tive árduo final.  

         Antes houvera um crime passional!

 

 

Soneto do martírio dos motivos poeticamente superado

 

o relacionamento acaba e, então,

nas ramificações de urdido arbusto,

se escondem os motivos da cisão,

e a mente encontra a luz com muito custo.

 

Não me cura o consolo da razão,

ao elemento terra não me ajusto.

Que a dor em fogo, ardendo na emoção,

poética explique o fim do amor augusto.

 

Éramos algodões-doces, mas desfiamos

na boca de um acaso corrosivo

que dissolveu o açúcar do encanto.

 

Não lamentar, louvar! Amar? Amamos!

Que fique na memória o mel festivo,

mais pungente o sorriso do que o pranto!

 

 

Soneto amargo para dia de desespero

 

Um lobo uiva na lua do meu peito,

uma cruz me aprisiona com seus pregos,

uma insônia revolve a paz do leito,

uma pena de cacto esvai teu espectro

num poema com visco, contrafeito,

numa rima que ecoa, em outra sem eco,

numa imagem que trunca o fluir perfeito,

num metro em que não cabe o meu flagelo.

É que hoje tua memória é ave implume,

a frustração um soco numa nuvem,

a nostalgia é fruto oco de sumo.

É que hoje o teu vazio é um mar mudo,

a solidão uma forca com algoz negro,

a saudade uma face sem espelho.

 

Extraídos de SONETOS DOS AMORES MORTOS. Rio de Janeiro: Lacerda Editores, 2006. 139 p.  ISBN 85-7384-117-6

 

 

 

                   ROMANCEIRO

                   DOS AMANTES

 

 

SONETO DOS DESENLACES

 

São cristais com clivagem os casamentos.

Sabemos sem restauro as alianças

que foram de ouro em dilatado tempo

e hoje são doridas dissonâncias.

 

Urge rarefazer ares sem esto,

e juntos, amparados, na balança

pesamos o bolor dos desalentos,

cogitamos no abrir nossas ventanas.

 

***

 

Nosso encontro fundava os desenlaces,

mas não nos prometíamos: apenas,

assemelhados com a alma azul das aves,

 

azulávamos nuvens dos combates

como éramos: sensíveis tais avencas

com raízes/hastes na eternidade.

 

 

SONETO DO EQUINÓCIO ADIADO

 

Hoje o silêncio corta o fio do equador

e incomunicáveis os pólos orbitam

desgarrados da esfera terrestre. O calor

e a ardência tropical, mudos, se gelificam.

 

No equinócio, dia e noite — assim como o amor —

se equivalem e por isso se presentificam

o equilíbrio, a medida-anel do cobertor

e do corpo gelado quando se unificam.

 

Estamos na distância e no incomunicável

por motivos que nem os astros nos explicam.

Medo? Será o medo que faz dissociável

 

a junção dos amantes que se estigmatizam?

A nódoa do pecado no imo é implacável.

E, súbito, equinócio e harmonia se adiam.

 


SONETO DO PODER MORRER

 

Mais uma vez os olhos se fitaram,

e as íris se abriram para a luz.

Nossas palavras, níveas de vis máscaras,

eram de novo o raio que seduz.

 

O que me dizes pluga o lume da alma,

o que te digo deixa os freios nus.

Ai como este romance me aclara

o enigma de Bentinho e Capitu!

 

Só quem viveu uma história misteriosa

com sabor de realismo que é fantástico

há de saber que dentro dos emboras,

 

viaja-se no pêlo nu dos ácidos,

incorpora-se a dor de cravo e rosa

e escreve-se: "Vivi!", com
o epitáfio.

 

 

Extraídos de ROMANCEIRO DOS AMORES. Rio de Janeiro: Lacerda Editores, 1999.57 p.  ISBN 85-7384-052-8



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