OLGA SAVARY
Nasceu em Belém do Pará, em 1933. Escritora, poeta, contista, novelista, crítica e ensaísta, tradutora, jornalista. Muitos de seus vinte livros mereceram prêmios, inclusive o Jabuti da Câmara Brasileira do Livro, foram objeto de teses, adaptações e musicada por compositores eruditos e da MPB, em discos e CD. Reside no Rio de Janeiro.
“Olga Savary é senhora de uma gleba fecunda no território da poesia brasileira viva que ninguém aí se nutre deve desconhecer.” Antônio Houaiss
“Acostumada à concisão, sua poesia exercita, com formas breves, com metros curtos, a permanência — qualidade, aliás, que lhe permitiu dominar a estrutura do haicai, talvez avessa às peculiaridades do idioma. Ao estrear numa década violenta da história política do País, Olga Savary atravessou-a com a delicadeza da linha-d´água no papel, sem se permitir a poesia engajada: ela é, de fato, poeta dos elementos, das formas naturais, das pequenas elegias.” Felipe Fortuna
TEXTOS EM PORTUGUÊS / TEXTOS EM ESPAÑOL / EN ITALIANO
Olga Savary é um nome nacional, reconhecido e cultuado. Não a conheço pessoalmente. Conversamos por telefone, longamente, e a voz dela fluía com brilho e vivacidade. Acompanho os livros dela, as antologias, os prefácios, à distância... Agora tive a surpresa de encontrar um exemplar do livro ALTAONDA, com as belas ilustrações do Calasans Neto (que também ilustrou o Jorge Amada de Tieta do Agreste) em primorosa edição do Massao Ohno, de 1970. Edição de mil exemplares, esgotada. Compartilho com os amigos estes dois poemas do livro, rogando a complacência da autora, ao tempo em que a reverenciamos por seu talento. Antonio Miranda
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MAPA DE ESPERANÇA
Vinha pisando sobre toda a praia,
o sangue quieto — ou quase quieto —,
os pensamentos leves como espumas
e os cabelos soltos como nuvens.
Trágica como princesa de elegia,
meu estandarte é o desespero,
minha bandeira, indecisão.
Ainda assim, alegria, te festejo.
Arraial do Cabo
1971
LIMITE
Ausente e lassa, queria
estar pisando
a areia fina de Arraial do Cabo,
a areia grossa de Amaralina,
em Goiás Velho urdir a tarde
com Bernardo Elis e Cora Coralina,
farejar
cheiro de candeia por toda Ouro Preto...
mas estou presa à molduras de todos os meus retratos.
Goiás Velho
maio 1972
UMA CENA
Vês acordada como em sonho
o sonho mau tal fosse belo
— o belo horror do real
que nem consciência nítida
ou lúcida, clara, exata,
não como é visto sol a pino
ou através da água,
como quem vê dentro do mar
ou através de um vidro fosco,
mais, no fundo de um espelho,
não o que mostra a imagem
mas aquele que a deforma
inteiro fora de foco.
OUTRA CENA
Sentada estavas quando ele entrou
seguido de uma princesa ou uma serpente.
Só sabes que teu rosto não mudou
mas em turvo mudou-se o transparente
riso de antes, pesados os gestos.
Viraste uma mulher que acordada
e de frente vê um sonho mau
se sonho e distante já nem sente
e que já não amando é como se amasse
e, perdido o amor, é como se o tecesse.
(do livro Éden Hades, 1994)
NOME
Tu, em tudo presença,
vibrar de asa,
eu, que nem nome tenho,
jamais nua de água,
tu, felicidade do corpo
embasado em brasa,
eu, sequer lembrança,
mero eco na sala,
tu, veneno curare
— e eu é que me chamo naja?
(do livro Éden Hades, 1994)
ÁGUA ÁGUA
Menina sublunar, afogada,
que voz de prata te embala
toda desfolhada?
Tendo como um só adorno
o anel de seus vestidos
ela própria é quem se encanta
numa canção de acalanto
presa ainda na garganta.
(do livro Espelho provisório, 1970)
PÁSSARO
A noite não é tua
mas nos dias
—curtos demais para o vôo —
amadureces como um fruto.
Tuas asas seguem as estações.
É tua a curvatura da terra.
Pássaro, metáfora de poeta.
(do livro Sumidouro, 1977)
VIDA
Palavras, antes esquecê-las
lambendo todo o sal do mar
uma única pedra.
(do livro 100 hai-kais, 1986)
ENTRE ERÓTICA E MÍSTICA
As palavras,
Poesia, não só combato.
Durmo com elas.
(do livro 100 hai-kais, 1986)
Extraídos de 41 POETAS DO RIO, org. Moacyr Félix.
Rio de Janeiro: FUNARTE, 1998. 514 p.
De
LINHA-D´ÁGUA
Prefácio de Felipe Fortuna
Desenhos de Kazuo Wakabayashi
São Paulo: Massao Ohono; Hipocampo, 1987.
DO QUE SE FALA
Em minha poesia
não é só natureza a natureza.
Ao dizer mar
não é só de mar que estou falando.
Falo do falo; o mais, pretexto
quando é à água que me rendo
no mais alto ponto do orgasmo,
no auge mais auge a que chegar se eu pude
em honra da água — mas água do corpo —
quando é à água a se alude.
MAÍUA*
Velame e quilha, proa e popa,
as velas deflagradas e da amurada
vê-se a romper as águas o madeirame.
Amo esta incerteza com que me sagras
e o belo horror do abismo: amor,
sempre o terror do ter, não tendo.
* (do tupi) bicho do fundo do rio, boto encantado.
YRUÁIA*
Par abissal
num mar em fúria
eis-nos tangidos:
navio alado.
Amo este começo de água
lá onde és roxo
e não te escondes, te dás
sem te entregares nunca
(mas se não te entregas,
então quando?)
Amo este início de água,
água onde começas
quando em ti levanta
este levante de pássaros.
*(do tupi): canal que não seca.
SIGNO
Há tanto tempo que me entendo tua,
exilada do meu elemento de origem: ar,
não mais terra, o meu de escolha,
mas água, teu elemento, aquele
que é do amor e do amar.
Se a outro pertencia, pertenço agora a este
signo: da liquidez, do aguaceiro. E a ele
me entrego, desaguada, sem medir margens,
unindo a toda esta água do teu signo
minha água primitiva e desatada.
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OLGA SAVARY
De
SUMIDOURO
Desenhos de Aldemir Martins
São Paulo: Massao Ohno; João Farkas editores, 1977
TERRA
em golfadas envolvo-me toda
apagando as marcas individuais
devora-me até que eu
não respire mais.
Rio, dezembro 1974
SEXTILHA CAMONIANA
Daqui dou o viver já por vivido.
Quero estar quieta, sozinha agora,
igual a uma cobra de cabeça chata,
ficar sentada sobre os meus joelhos
como alguém coagulado em outra margem.
Daqui dou o viver já por vivido.
Rio, 1973
CERNE
Nada a ver com a fonte
mas com a sede
Nada a ver com o repasto
mas com a fome
Nada a ver com o plantio
mas com a semente
Recife – Olinda, 11 setembro 1974
De
Olga Savary
EDEN HADES
Poesia
Capa de Guita Charifker
São Paulo: Massao Ohno, 1994.
Autora de muitos livros e antologias, Olga é também pioneira no que hoje convencionamos intitular Creative Commons... Em 1994 ela já abria seus poemas à difusão: "Permitida a reprodução dos poemas contidos neste livro desde que citados autor e fonte."
UMA CENA
Vês acordada como em sonho
o sonho mau tal fosse belo
— o belo horror do real
que nem consciência nítida
ou lúcida, clara, exata —,
não como é visto sol a pino
e sim através do fogo
ou através da água,
como quem vê dentro do mar
ou através de um vidro fosco,
mais, no fundo de um espelho,
não o que mostra a imagem
mas aquele que a deforma
inteiro fora de foco.
TEXTOS EM ESPAÑOL
TRADUCCIÓN Y NOTA INTRODUCTORIA DE
ADOVALDO FERNANDES SAMPAIO
Olga Savary nacipó em Belém, Pará, Brasil, em 1933. Hija única de padre ruso y madre brasileña, estúdio em Belém, Fortaleza (Ceará) y em Rio de Janeiro. Publicó muhcos poemas em diários y revistas de Rio, Belém y Belo Horizonte, entre 1951 y 1955, firmados bajo el seudónimo de Olenka. Es considerada uno de los tres nombres femeninos más importantes de la moderna poesía brasileña. Circuída de niebla y de desvelo, su poesía se nos aparece como un vasto amanecer urbano pó cuyas desiertas esquinas se entrecruzasen, sonâmbulos, los fantasmas del símbolo y de la realidad, que no se presenta como elemento decorativo sino integrada a la vida del poema. Olga se detiene en búsqueda de lo íntimo personal, desmenuzando las propias raíces. La vigilancia com el delírio que poderosamente las invade. Embriaguez que no se resiste a la exactitud del rostro de una verdad siempre elusiva y que se expresa, tensa, serenamente, en imágenes de tiempo perdido u olvidado. Libros: Espelho Provisório (1970), Sumidouro (1977), Altaonda (1979) y Linha d´Água (1979). Excelente traductora de Pablo Neruda.
INÚTIL
Si fueras estrella
yo sería ese pedazo de cielo
que te sustenta.
Si fueras alga
yo sería esa despaciosa ola
que te acaricia muy despacio.
Si fueras un vago sonido
o tono em el fin de la tarde
yo sería esse no imaginado viento
que te desencadena.
Mas por qué pensar en ello
si te busco y no sé quién eres
si me esperas e ignoras quién soy.
EL DESEO ABSOLUTO
Crear el amado
sin la injusticia de la forma
sin el egoísmo del nombre.
NOMBRE
No eran lirios los lírios
caídos en la arena, caídos
en la arena lLila de la noche
casi noche.
No eran lirios, no eran
como tu sombra, yo sé,
pero eran mucho más lírios
que los lirios. Por eso
ellos serán llamados lirios.
Extraído de la obra
VOCES FEMENINAS DE LA POESÍA BRASILEÑA
Goiânia: Editora Oriente, s.d.
Página republicada em junho de 2008
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