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NOEL ROSA

 

 

Tentando concentrar as observações (...) num único texto de Noel, vejamos de que maneira o “antiliterário”, as expressões corriqueiras, o humor, as soluções imprevistas e outros efeitos, estão presentes neste poeta tanto quanto nos modernistas.”   AFFONSO ROMANO DE SANT´ANNA

 

 

CONVERSA DE BOTEQUIM

 

Seu garçom faça o favor de me trazer depressa

uma boa média que não seja requentada

um pão bem quente com manteiga à beça

um guardanapo e um copo d´água bem gelada.

Feche a porta da direita com muito cuidado

que não estou disposto a ficar exposto ao sol.

Vá perguntar ao seu freguês do lado

qual o resultado do futebol.

 

Se você ficar limpando a mesa

não levanto nem pago a despesa

vá pedir ao seu patrão

uma caneta, um tinteiro, um envelope e um cartão.

 

Não se esqueça de me dar palito

e um cigarro pra espantar mosquito.

Vá dizer ao charuteiro

que me empreste uma revista, um cinzeiro e um isqueiro.

 

Telefone ao menos uma vez

para 34-4333

e ordene ao seu Osório

que me mande um guarda-chuva aqui pro nosso escritório.

 

Seu garçom me empreste algum dinheiro

que eu deixei o meu com o bicheiro

vá dizer ao seu gerente

que pendure esta despesa no cabide ali em frente...

 

 

“Os versos correm livremente numa interação com a música dando uma sensação de improviso e naturalidade. (...) A linguagem é  mais prosaica possível. (...)

Igualmente, no Modernismo, os poetas redescobriram a língua que se falava no país, abrasileiram a sintaxe, a semântica e o vocabulário na tentativa de se alcançar aquilo que se chamou “língua brasileira” — conforme as muitas tentativas de Mário de Andrade, principalmente. Descobriu-se a ineficácia do conceito de  “palavra poética”. O poético nascia do contexto, da maneira de se empregar esse ou aquele termo, no estranhamento que o poema trazia ao seu leitor.” (...) “utiliza-se de um efeito ainda mais raro rimando números com palavras (...)”

 

“O Modernismo, por sua vez, fez pouco caso da rima e desprezou a métrica, revelando outro tipo de musicalidade. / O sentido da liberação e espontaneidade da construção musical e textual em Noel Rosa levou-o a assumir certos riscos e experiências muito de acordo como o exercício lúdico de qualquer criador. Cite-se o samba do “Gago”.

 

 

GAGO APAIXONADO

 

Mu-mu-mulher, em mim fi-fizeste um estrago

Eu de nervoso estou-tou fi-ficando gago

Não po-posso com a cru-crueldade da saudade

Que que mal-maldade, vi-vivo sem afago

 

Tem tem pe-pena deste mo-moribundo

Que que já virou va-va-va-va-ga-gabundo

Só só só só por ter so-so-sofri-frido

Tu tu tu tu tu tu tu tu

Tu tens um co-coração fi-fi-fingido

 

Mu-mu-mulher, em mim fi-fizeste um estrago

Eu de nervoso estou-tou fi-ficando gago

Não po-posso com a cru-crueldade da saudade

Que que mal-maldade, vi-vivo sem afago

 

Teu teu co-coração me entregaste

De-de-pois-pois de mim tu to-toma-maste

Tu-tua falsi-si-sidade é pro-profunda

Tu tu tu tu tu tu tu tu

Tu vais fi-fi-ficar corcunda!

 

 

AFFONSO ROMANO DE SANT´ANNA, in Música popular e moderna poesia brasileira. Petrópolis: Vozes, 1978. 

 

 

A.b. Surdo - Marcha Maluca

 

Nasci na Praia do Vizinho, 86

Vai fazer um mês

(Vai fazer um mês)

Que minha tia me emprestou cinco mil réis

Pra comprar pastéis

(Pra comprar pastéis)

 

É futurismo, menina,

É futurismo, menina,

Pois não é marcha

Nem aqui nem lá na China

 

Depois mudei-me para a Praia do Cajú

Para descansar

(Para descansar)

No cemitério toda gente pra viver

Tem que falecer

(Tem que falecer)

 

Seu Dromedário é um poeta de juízo

É uma coisa louca

(É uma coisa louca)

Pois só faz versos quando a lua vem saindo

Lá do céu da boca

(Lá do céu da boca)

 

 

 

Página publicada em junho de 2008




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