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Sobre Antonio Miranda
 
 


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 
Foto: Janet Gomes

MÁRCIO CATUNDA

 

  Márcio Catunda Ferreira Gomes nasceu em 22/05/1957, em For­taleza, Ceará. Formou-se em Direito pela Universidade Federal do Ceará, em 1979 e em Diplomacia, pelo Instituto Rio Branco, de Brasília, em 1985, ingressando na carreira diplomática. Cursou a Faculdade de Letras (CEUB), de Brasília, de 1986 a 1989. De 1991 a 1994, residiu e trabalhou em Lima, Peru, como secretário da carreira diplomática, na Embaixada do Brasil. De 1994 a 1997, de­sempenhou a função de Cônsul Adjunto no Consulado Geral do Brasil em Genebra, Suíça. De 1998 a 2000, serviu na Embaixada do Brasil em Sófia, na Bulgária, onde exerceu a função de Conselheiro Comissionado.  

Escreveu e produziu as seguintes obras literárias e/ou musicais: Poemas de Hoje, 1976 (com Natalício Barroso Filho), Fortaleza, CE; Incendiário de Mitos, poesia. 1980, Fortaleza, CE; Navio Espacial, poesia, 1981, Fortaleza, CE; Estórias do Desde a Pérfida Perfeição, contos e poesia, 1982, Fortaleza, CE; O Evangelho da Iluminação, poesia, 1983, Fortaleza, CE; A Quintessência do Enigma, poesia, 1986, Brasília, DF; Purificações, poesia, 198­Rio de Janeiro, RJ; O Encantador de Estrelas, poesia, 1990, Brasília, DF; Sortilégio Marítimo, poesia, 1991, São Paulo, SP; Los Pilares del Esplendor, poesia, 1992, Lima, Peru; Llave Maestra, poesia, 1994, Lima, Peru (com três poetas peruanos); A Essência da Espiritualidade ensaios, 1994, Lima, Peru; Poèmes Ecologiques, poesia, 1996, Bellegarde, França; Ânima Lírica, CD de poemas musicados, 1997, Genebra, Suíça; Anthologie Sonore, CD de poemas recitados em três idiomas, 1997, Genebra, Suíça; Mário Gomes, Poeta, Santo e Bandido, biografia, 1997, São Paulo, SP; Rosas de Fogo, poesia, 1998, Rio de Janeiro, RJ; Água Lustral, poesia, 1998, Rio de Janeiro, RJ; Estância Cearense, antologia poética, 1999, Fortaleza, CE; À Sombra das Horas, antologia (poemas traduzidos em búlgaro), 1999, Sófia,  Bulgária; Na Trilha dos Eleitos, ensaios, (volume 1), 1999, Rio de Janeiro, RJ; No Chão do Destino, poesia, 1999, Vitória, ES; Crescente, poemas musicados, 1999, Sófia, Bulgária; London Gardens and Other Journeys, poesia, 2000, Sófia, Bulgária; Verbo Imaginário, antologia (CD com poemas lidos pelo autor), 2000, Sófia, Bulgária;  Noites Claras, poemas musicados em CD, 2001, Sófia, Bulgária; Na Tribo dos Eleitos, ensaios (volume II), 2001, Campinas, SP; Mística Beleza (poemas musicados), 2003, Brasília, DF.

 

”Márcio Catunda é autor de uma obra literária invejável, que vai da poesia ao conto e da pesquisa memorialista ao ensaismo. Por vezes se exercita numa linha místico-filosófica, segundo sua natureza sensível” ou “se propõe ao questionamento sócio-político de denúncia social” nos informa José Alcides Pinto.

 

Veja também o ensaio:  JOSÉ INÁCIO VIEIRA DE MELO, ENTRE A ESTRADA E A ESTRELA por Márcio Catunda

 

Ver também o E-BOOK: http://issuu.com/antoniomiranda/docs/marcio_catunda/1 


CATUNDA, MárcioEternidade humana.  Brasília, DF: Thesaurus, 2018. 126 p.  ISBN 978-85-409-0428-6      Ex. bibl. Antonio Miranda

 

" O conceito tradicional do "verso" quase chega a desaparecer quando se trata de temas extraídos da biografia, da história, do mito e da própria literatura, como acontece no belo livro de Márcio Catunda. A força diegética do tema parece sobredeterminar o sentido do discurso, levando-o na direção da narrativa em prosa, embora a serviço da dicção poética."  (...) "O livro de Márcio Catunda faz uma chamada geral dos heróis da humanidade e os reúne — não numa plataforma diacrônica nem em grupos temáticos da religião, da arte ou da literatura —, criando-se a ideia de um "caos" cultural numa leitura apressada, mas trata-se na verdade da "cosmovisão" de um grande leitor e poeta."  (...) A obra poética de Márcio Catunda é uma das mais ricas da atualidade."  GILBERTO MENDONÇA TELES

 

MNEMOSINE, A DEUSA A MEMÓRIA

Vem do tempo primordial dos deuses
a titânide Menomosine, mãe das musas,
que se materializa nos aminoácidos
da constelação cerebral.
Filha de Urano e da fecunda Gaia,
é ela a fonte que jorra em Labadeia,
em cujo manancial Hesíodo bebeu
para cantar a estirpe dos sempiternos imortais.
Senhora das colinas de Eleutério,
cujas águas curam todas as dores,
ela vem na irradiação da lua,
isenta das foices de Cronos.
Arquétipo dos códigos vitais,
desvela-se na experiência instantânea,
acendendo fragmentos cognitivos
de sua recôndita onisciência.
Adivinhadora da verdade do oráculo,
instrutora da palavra de louvor,
vence a morte com o seu milagroso intermédio.
Ressuscita o passado,
alumbra o presente e evidencia o futuro.
Plena de vibrações cósmicas positivas,
ela compõe, nas aras do ar,
a memória astral
que acumulamos em sucessivas vidas.

 

ITINERÁRIOS DE MATSUO BASHÔ,
O PEREGRINO MESTRE DO HAICAI

         Aos quarenta anos, Bashô partiu de sua choupana em
Ueno e nunca mais teve residência fixa.
         Foi a Kyoto ver as pétalas que o vento lança no lago Biwa.
Peregrinou ao Monte Yoshino, ao sul de Nara, para contemplar
as cerejeiras florescidas.
         Envolto em solidão e desamparo, cruzou perigosos
precipícios. Caminhou, longamente, às margens do rio Oi.
         Pernoitou, insone, na Casa dos Caquis Caídos.
         As noites frias embranqueciam-lhe o cabelo.
         Partiu de Edo a Honshu, pelas margens dos pântanos,
com o companheiro Sora.
         Em Fukushima, dormiu numa tapera e desmaiou de dor,
depois de uma noite em claro, picado por mosquitos e pulgas.
         Recordou longamente a lua que se deixou ver no porto
de Tsuruga. Rastejou, nas rochas da encosta íngreme, até o
Pavilhão da Luz do Templo Chusonji, onde escutou, à noite
toda, o vento esvoaçar nos salgueiros.
         Estações, vilarejos e santuários surgiam no transbordamento
das visões e no relevo da ilhas superpostas.
         Se morresse nas estradas, seria por vontade do Céu.
         Ao longo de dez anos de extenuantes aventuras,
forjou-se o semblante do Velho Mendigo. Um peregrino que
renunciava ao mundo material e insistia em seu itinerário nômade,
cultivando a impermanência de tudo.

 

CRUZ E SOUSA, O CISNE NEGRO

Quando morreo o seu ex-patrão e pai adotivo,
Marechal Guilherme Xavier de Sousa,
o menino João da Cruz e Sousa,
nascido no Desterro e filho de ex-escravos,
deixou o Ateneu Provincial
para lutar pela sobrevivência.
Nem caixeira de secos e molhados
deixava-o ser a sociedade opressora.
Cresceu, sublimando pesadelos.
A elite branca sulista desdenhava do rapaz,
de feições esculpidas em ônix,
que recitava no teatro Santa Isabel
e se tomava de amores pelas louras.
O Dr. Gama Rosa, Presidente da Província,
nomeou Cruz e Sousa Promotor Público.
Os fidalgos preconceituosos não consentiram
que tomasse posse do cargo.
O populacho enxovalhou o poeta
nas ruas de Laguna.
Embora se tornasse
Redator-Chefe do jornal O Moleque,
Cruz e Sousa não recebia convites
para as festas elegante,
porque era um crioulo, um filho d´África.
Arrastou, pelo Rio de Janeiro,
o flagelo do seu estigma.
Fechavam-lhe as portas as castas prepotentes.
O poeta Emiliano Perneta
arranjou-lhe um emprego
cujos parcos cobres
não permitiam frequentar os ambientes burgueses.
O abolicionista José do Patrocinio
o demitiu do periódico Cidade do Rio,
do qual era o Diretor.
O autor de Missal e Broquéis foi trabalhar
como Arquivista da Estrada de Ferro Central.
Viu-se perseguido por um chefe energúmeno.
O Grande Assinalado debatia-se
no conflito com as hordas brutas:
era um lótus que brilhava em meio ao estrume.
Imprecou contra as mentiras da sociedade hipócrita.
Sorriu a céus e mundos,
no altar violeta do sofrimento.
Viu, nos astros, almas claras.
Os nevados lírios do silêncio foram seus lenitivos.
O vasto mar de luz, seu jardim de nardos.
Com Nestor Victor,
atento à Voz das infinitas vibrações,
cantou, em uníssono,
o dolente alvoroço dos dias.
Depois que Gavita, a Vênus Núbia,
mãe de crianças famintas,
enlouqueceu de desespero,
o Cisne Negro sucumbiu aos mortais horrores.
A dor, companheira fiel, o coroava de espinhos,
enquanto ele, pária alçado ao pedestal
dos apóstolos de Cristo,
Escrevia um poema sideral,
da brancura de pérola.

 

CATUNDA, Marcio. Estigma.  Jaboatão,  PE:  Editora Guararapes EGM, 2015.   27 p. Inclui poema “Estigma” e textos sobre o poeta por Jáder de Carvalho, Artur Eduardo Benevides, Francisco Carvalho, José Alcides Pinto e Antonio Seffrin. Edição artesanal, tiragem limitada. [ MÁRCIO CATUNDA ] Ex. bib. Antonio Miranda.

VER O E-BOOK: https://issuu.com/antoniomiranda/docs/marcio_catunda


 

CATUNDA, Márcio.  Escombros e reconstruções.  Brasília: Thesaurus, 2012.  118 p.  Arte da capa: Thiago Sarandy.  ISBN 978-85-409-0094-3 

 

ELEGIA PARA JOSÉ ALCIDES PINTO

Quando foi que rodopiaste ria catástrofe,
exorcista, dervixe dos dragões?
Quando nos demos o último abraço,
forjador de diabruras?
Místico desesperado,
quanto aprendi contigo!
Tua irreverência, tua marginalidade,
teu dom de transmitir sentimento.
Demónio iluminado,
o látego das horas te fustigava!
É que a vida te desafiava como uma trincheira.
O dispensário, o manicômio, as harpias,
tudo te obrigava a renunciar.
No entanto, insistias no ofício martirizante.
Nenhum discípulo esteve, como eu,
agrilhoado à terra em declínio.
Nenhum riu tanto contigo dos puritanos cínicos;
nem zombou da glória conquistada com festins,
nem abominou tanto os relógios de ponto
e a deslealdade.
Andei na tua trilha de eleito,
amolador de punhais.
A fatalidade foi a tua última travessura.
Peripécia trágica, na angústia do momento final.
Quanta vez me falaste da terrível abjeção!
Onde quer que estejas,
espera: irei à tua procura!

 

OFÍCIO DE DESCALABROS

 

Interpretar as próprias comédias

com os olhos entornados.

Caminhar entre os cordeiros de Deus

tangidos pelos demónios.

Aceitar ser a saudade do que fui.

Submeter-me ao meu livre-arbítrio,

sem fazer caso das cabeças das Hidras.

A fumaça dissuade o masoquismo.

Vivo as madrugadas da minha sorte.

Ninguém sabe o que há por trás

da máscara do arlequim.

No teatro da egolatria,

ninguém se condoí do fantoche

que entre as mãos opressoras

dos doutores da lei se ache.

E eu, que não sou competitivo,

que tenho a ver com essa bazófia?

Ainda não aprendi a surfar sobre o tsunamí.

Tenho medo de que o paraquedas não abra.

 

09 de dezembro de 2010.

 



Extraído de:
2011 CALENDÁRIO   poetas antologia
Jaboatão dos Guararapes, PE: Editora Guararapes EGM, 2010.
Editor: Edson Guedes de Morais

 

/ Caixa de cartão duro com 12 conjuntos de poemas, um para cada mês do ano. Os poetas incluídos pelo mês de seu aniversário. Inclui efígie e um poema de cada poeta, escolhidos entre os clássicos e os contemporâneos do Brasil, e alguns de Portugal. Produção artesanal.

Poemas inéditos

 

 

DA ESTRELA À LAPA

 

50 minutos de ruas estreitas que os motoristas atravancam,

depois do enleio dos carros e semáforos letárgicos,

o Rato aparece como um pátio,

uma estalagem por onde se passa vorazmente,

até que a cúpula da Estrela assoma sobre a floração das copas,

guardada por Pedro Álvares Cabral,

alçado como Netuno,

diante das primícias do Jardim.

Galharda postura que abraça os pináculos.

Como se defendesse a fé e natureza

em plena avenida cheia de psicopatas

que buzinam pra que eu avance o sinal.

Impossível meditar sobre a clepsidra do Camilo Pessanha.

Dobra-se a orelha do retrovisor lateral

e o resto é deslizar na ladeira estreita, sutilmente.

Três imagens emergem depois do perigoso périplo:

o Rato, largo conventual e purpúreo,  

a Estrela, icone soberano

e o Cabral arrebatado, desfraldando a bandeirona

como se desbravasse, em frente à basílica, o litoral do Brasil.

 

 

 


31 DE DEZEMBRO DE 2005

 

O último dia do ano deveria ser um dia como outro qualquer.

Sem temores, sem sobressaltos.

Mas entristeci de pensar.

A canallha assovia, a sirene passa

e eu me deito sobre os meus 48 anos.

Da varanda vejo o Tejo.

A noite abriu-se como por encanto.

Há bulício nas casas e nas ruas.

Holofotes e estrelas anunciam

e eu desentristeço de expectativa.

Os barcos são candeias na fragrância das águas.

A meia noite acende os formidáveis fogos.

As auras fosfóreas produzem súbita aurora.

É já manhã na face lisa do Tejo.

 

 

 


LICENCA POÉTICA

 

Perplexo estou no rumor da hora,

espreitando os caprichos do tempo.

Pratiquei longamente a disciplina dos austeros

e hoje me permito a digressão.

Vislumbro o tumulto suburbano:

é a expressão do meu canto humaníssimo.

Meu sonho de poesia.  Se mergulho profundamente em mim,

compreendo a dimensão da vida. A arte de viver em plenitude.

Minha ânsia é ver todos os espíritos em luz,

todos os viventos com o direito à felicidade,

todos conscientes da necessidade de viver em paz

e entender o mistério e decifrar as dádivas do vento.

Pertenco a todas as criaturas, a todos os minerais e vegetais,

sou um fruto sazonado em sentimento,

sou a energia e o artefato da natureza.

Alegria de ver a vida fluindo

nos meninos que jogam futebol no quintal,

nas aves canoras, na música que vibra na casa,

no clarão solar que acende o chão.

Permito-me a glória deste momento,

ciente da verdade que ele ensina.

Ser o milagre – ânima semovente e andar em confianca.

Transformar-me sempre na experiência vindoura

e manter-me aliado de mim. Servir sem distinguir a quem,

na certeza do objetivo superior. Compreender-me e compreeende o semelhante

como a planta compreende o céu, como a nuvem compreende os rios.

Este é o meu conforto e minha causa: coexistir o santo e o poeta e tudo resultará em serenidade.

Permanecer calmo ante o enigma, saber que o destino engendra sempre o bem

e dar gracas ao Mestre por esta licenca poética,

este momento único, a exuberância nectárea desta consciência,

esta translúcida realidade, aceitacão de mim mesmo,

imersão em reveladora magnitude.

 

 

 


HINO À PAZ

 

Triste é ver da guerra o rancor sangrento.

Irmãos matando irmãos nos conflitos da miséria humana.

Hei de aprender que a paz comeca em minha casa.

Como manifestar-me contra a violência,

se ainda sou capaz de agredir meu semelhante?

Um dia seremos todos verdadeiremante pacíficos,

todos amigos pelo coracao,

vivendo a igualdade espiritual 

e o reconhecimento da verdade superior,

a lei que nos ensina harmonia.

Um dia serei essencialmente fraternos,

porque me arrependo dos meus gestos insensatos.

Mas sou o que no presente se gratifica pela sensacão.

Sou o que aprende o sentimento mais claro.

Duro é viver em desavenca.

Que a concórdia se estabeleca na personalidade humana,

que todas as virtudes nos defendam

e que um ideal estético seja o nosso pavilhão.

Um dia as nacões se visitarão em irmandades,

sem armas e sem orgulho e não teremos mais a tristeza dos confrontos.

A guerra será uma recordacão triste

e o comércio será sem concorrência,

mas com o objetivo único da substitência confortável de todos.

Há de haver trabalho bem remunerado

e oportunidade e instrucao para todos.

Eu canto o advento do novo mundo e da nova vida,

mas nao tenho a pretensao de ser profeta.

Sou apenas um admirador de Jesus

e creio na força de sua palavra,

na sua orientacão de pastor do rebanho a que pertenco.

Confio na mensagem que recebemos do divino ser:

O homem é uma dádiva do Criador

e havemos de reconhecer juntos esta lei maior.

A vida só tem sentido se caminhamos juntos.

A paz é uma ordem da consciência. 

 

 

 


MEU CONSTRANGIMENTO

 

Os navios cintilam como palácios.

Lua sobre o arco de rutilâncias.

Noite clara diante do mar

e o meu constrangimento.

Ando tão magoado

que o mar parece a extensão das minhas lágrimas.

Brisa de aroma benevolente.

Música de enlevo como outrora.

Idílios clarividentes em todo o litoral

e o meu constrangimento.

A noite toda meditei sobre a morte.

A noite toda passei lendo amarguras.

Água translúcida sob a névoa.

Jardim romântico

e o meu constrangimento.

Vertigem de esplendor

e o meu constrangimento.

Meu constrangimento é uma lição de labirinto,

ácido que corrói a cartilagem dos prazeres.

Meu constrangimento diante das constelações.

Meu constrangimento, implacável,

coroa de espinho no horizonte de angústia.

Febre de amor, tormento de deleitável contrição.

Assombro em cada gesto do vento. 

 

 

 


NOITE ETÉREA EM FORTALEZA

 

Noite etérea em Fortaleza,

ex-cidade dos meus encantos,

hoje recanto dos meus sonhos nostálgicos.

Cadê o rapaz que se apaixonava nos bares da beira-mar?

Sou eu esse que lamenta o existido,

o que se engana com a perspectiva do tempo.

Sou o que só no passado vê plenitude.

A hora presente é a ficção do segredo.

Só no futuro existe vida?

Imagem de esperança, visão martirizada pelo mistério.

Noite etérea que conheces o axioma cósmico,

o diálogo contigo é monólogo,

é o reflexo do meu enlevo angustiado. 

 

 

 

 

PARTILHA

 

Na partilha de direitos e deveres,

a polícia tem o dever de não massacrar o indigente

e este tem o direito de dormir nos bancos de cimento,

sem ser incomodado.

O marginal não se perturba com os barulhos da noite

e o burguês não precisa temer o inofensivo vagabundo.

Eis o pacto social.

Até o momento em que algum insatisfeito o rompe:

a violência como argumento. 

 

 

 


CÓDIGO URBANO

 

A todo cidadão se assegura o direito de dormir nas ruas.

Sujo, fedendo, doente de miséria,

A todo cidadão se assegura o direito a se degradar,

cair no chão em qualquer esquina,

na pedra no frio na lama,

até que a morte o conduza a algum espaço mais baixo.

Dormir na calçada é um direito humano,

mas vender muamba em frente às lojas é delito. 

A Prefeitura leva tudo

e baixa a porrada em quem vier pela frente. 

 

 

 

 

O VERDADEIRAMENTE ABOMINÁVEL

 

Tem-se o verdadeiramente abominável,

o histriônico de mau gosto, arrogante e degenerado.

O mais desprezível das mentes atrofiadas.

Gatunos fingidos, a escória, a ralé

que cultua a imundície,

a insalubridade como bandeira.

Não posso referir-me a eles sem o termo canalhas.

Sem hipérboles: são canalhas a golpes de patifaria.

Caminhar na chuva nessa espelunca,

molhando, em meio à buzinação.

A agonia insana dos sujeitos,

competindo por um palmo de espaço.

Tem-se o modelo mais perfeito do egoísmo humano.

As camionetas como balas disparadas

entre monturos de porcaria expostos aos elementos.

Andar a pé é um sonho.

Difícil é ter aonde ir.

Os esgotos jorrando,

o lixo fedendo em toda parte.

Esforço-me pra detestar um pouco menos o desrespeito à ordem,

a venalidade e a sandice.

Com a cabeça coberta de cinzas,

defender essa chusma de delinqüentes?

Sair por aí carregando a bandeira de ladrões,

nefastos e depravados?

Ser cego em Granada?

Mais difícil é ser inteligente na Ilha dos Patifes. 

 

(Enviados por e-mail pelo autor em fevereiro de 2006) 

 

 



EM DESESPERO PELA LIBERDADE

 

Uns sentem raiva de viver e explodem o corpo em mil pedaços.

Estilhaços se estraçalham levando junto os opressores.

Uns, armas empunhadas, vivem a serviço da crueldade.

Outros, metidos numa dinamite, renunciam à vida.

Aos remanescentes legam nuvens de fogo e destroços.

A morte como resposta aos desmandos,

ao opróbrio tenebroso.

Defender-se com a própria vida

e exterminá-la sem medo da dilaceração.

Antes morrer que submeter-se à escravidão.

A viver fustigado por metralhadoras, as ruas vigiadas,

as portas invadidas, a cara onipresente do inimigo à espreita,

o metal dos fuzis reluzindo ao sol,

antes morrer mil vezes despedaçado,

mil vezes o golpe inominável contra si mesmo

em defesa do suicida, sobreviver morrendo

em desespero pela liberdade.

 

Extraído do livro Sintaxe do Tempo . Fortaleza: Imprece,

2005. 90 p.

 

CATUNDA, MárcioVerbo imaginário  (Antologia poética).  Sofia, Romênia: Roumena Publishers, 2000.  64 p.  ISBN  954-8997-03-7  Inclui um CD. Apresentação na contracapa por Rumen Stoyanov.  Col. A.M.  (EE)

 

ENTRE O CONJUNTO NACIONAL E O CONIC

 

Pasce o gado humano entre o Conjunto Nacional e o Conic.

Passa gente de todo espectro: mendigos, operários,

burocratas tangidos pelo ruído agoniado dos carros.

Toda sorte de gente a passar na passarela,

no impasse ou na parcialidade em que a vida se transforma,

vida: matéria-prima do tempo, pasto de transitoriedade.

Nunca mais as mesmas pessoas passarão

e os que passam deixam rastros de nada.

Restam imagens, vultos, espectros entre dois mundos,

os polos da cidade.

No desvão entre o Conjunto Nacional e o Conic,

os que vão sob a redoma celeste passam, passageiros do instante.

Passam deixando-me na retina o retrato do Brasil:

o sanfoneiro cego, a mulher de peitos balouçantes,

o aleijadinho desengonçado que se desvia dos transeuntes,

os vendedores de miudezas oferecendo mangas,

bonecos de pano, discos piratas.

O sujeito do boné tatuando a coxa de uma cabrocha.

O outro que lambe um picolé.

As miríades de coisas ínfimas espalhadas na calçada.

Tudo ao preço de um real.

"Melhore a sua imagem" , diz o que oferece antenas de televisão.

E outras vozes: "12 linhas, 13 agulhas,

refresco de catuaba, milho verde,

pastel, churrasquinho, calcinha, camisinha", etc.

   De repente, um grito... Olha o rapa!

a negrada arruma a trouxa e se desabala no rumo da Rodoviária.

O policial esgalgo urubuserva tudo, especialmente as mulatas,

(as brasileiras partes tingidas de sol).

De Ceilândia, de Taguatinga, de Samambaia,

desfila um brasil de passo inconsciente,

que passivamente expõe etnias e castas,

neste elo que conecta os extremos de Brasília.

Diante de mim, os obeliscos do Legislativo,

a sequência dos Ministérios simetricamente perfilados.

Diante de mim, em um minuto passam as duas mil caras do Brasil,

da casa grande à sensala, da favela ao shoping,

  do latifúndio à sarjeta,

a cor morena denunciando as proezas do avô lusitano.

"Dá uma esmola fi-da-mãe-de-Deus",

pede a mulher com o pequenino ao colo...

Com ar solene, a legião distribui minúsculos papéis

como se revelasse mistérios.


 


De
VERTENTES

Coletânea de poemas e fortuna crítica.
[Poemas de] Elaine Pauvolid, Marcia Carvalho,
Márcio Catunda, Ricardo Alfaya, Tanussi Cardoso.
Rio de Janeiro: Fivestar, 2009.  195 p.

ISBN  978-85-62038-02-0

 

MEDITAÇÕES LÍRICAS
(Fragmento final da 5a. Parte)

 

Eu lia um livro que o tempo me tomou das mãos.

Recuperei-o depois e era um tesouro, um vento,

natureza que se ofertou.

 

Adentrei os pórticos da infância:

era tristeza, era desterro,

a plenitude violentada e o sonho infamado.

Quis o mundo e me perdi no invisível.

Caí no pesadelo de suportar os dias irreais.

Dar razão a todos, renunciar-me, perder ilusões.

Negar esperanças, arrastar ergástulos de mim.

Recostar-me à margem dos precipícios,

vencer-me os tremores místicos,

curvando os ombros e envelhecendo...

Ah, vida feita de resignar-se...

Poeta, lembra-te de Zoroastro

e acende a chama na planície do coração!

A poesia é divina

e cada poeta é grande em sua dicção.

A inspiração não escolhe a quem,

mas antes vem o mérito e o dom da recompensa.

Vejo os verdes montes cobertos de ternura

e recolho os madrigais da ventura.

Poeta sou e de ânimo celeste coroei-me a fronte.

Não por mim mesmo, mas pela fonte do dia.

Pela luz das serenas alturas,

pela estrela rútila das madrugadas.

É por ela que venho colhendo alvoradas.

 

Ontem, alma embargada de travos de amargura,

pesavam-me turvos pensamentos.

Infenso à ínfima psicosfera,

carpia as mágoas do sentir.

Nas minhas incoerências refletiam ecos da dor do que fui.

Angústias, neurastenias,

lástimas que chorei sem lágrimas.

Noite na aura e o torpor dos remorsos,

erosão borbulhando, toldando as águas íntimas,

redemoinhos revirando o pó das emoções.

Hoje, um fabuloso fluxo de energia lançou-me a outro polo.

Estabeleceu-se um turbilhão de memórias em mim.

Índio que me tornei no meio do tempo.

Como as coisas do mundo me decepcionam!

Só na contemplação entendo o colosso da vida.

Estranho como a vida se faz urgente, de súbito!

 

Pelas teias do arrebol,

quis-me a fortuna iludir.

O poente esconde o Sol,

mas é de aurora o porvir.

 

Errante no tempo andei,

em sonhos mirabolantes,

por paraísos distantes,

feliz; de mim mesmo, rei,

 

Onde um salgueiro gemia

em solidão fui sentar.

Tarde cinza, brisa fria,

me perdi no meu sonhar.

 

O mundo começou aqui,

nesse momento de outrora.

Tudo quanto senti,

revive o luar de agora.

 

O lugar de tal virtude

é o tempo de sempre amar.

Mergulho de plenitude,

tempo de eterno voar.

 

No abismo da noite acesa,

um anjo me conduziu.

Libertou minha alma presa,

seu olhar me seduziu. 

 

 

 

QUADRIGRAFIAS: Elaine Pauvolid, Márcio Catunda, Ricardo Alfaya, Tanussi Cardoso. Rio de Janeiro: Uapê, 2015.  212 p.  14X21 cm.  ISBN 978-85-8154-017-7  Ex. bibl. Antonio Miranda


      
O VIAJANTE LI PO

        Reclinou-se no leito da natureza
        e inaugurou em si o mundo imperecível.
        À sombra noturna,
        as flores riram de sua solidão.
        A Lua o acompanhava,
        clareando a relva de fios de seda esmeralda.
        Caminhando ao vento,
        contemplou as flores,
        até perceber o encanto inusitado.
        No caminho à ermida do asceta Ju Si,
        a erva ondulava
        e as tulipas deixavam cair pétalas.
        Só de ver os nenúfares,
        esqueceu toda tristeza.
        Buscava o elixir dos taoistas
        para dialogar como vento
        e perpetuar o êxtase.

 

        REVELAÇÕES
       
        I

        Lua auspiciosa anoitece.
        As árvores ainda estão claras.
        O céu admira a si mesmo,
        no espelho da água.

        II

        Contemplo o abismo azul
        e me deixo conduzir
        pelo enigma vaporoso.

        III

        Resta acreditar no voo da luz,
        ainda que os sobressaltos prevaleçam,
        e não haja mais
        que um vórtice de sombras,
        escorrendo na espiral do dia.
   

       

CATUNDA, MárcioCrescente.   Sofia: Bulgaria:  2000.  Poemas: Márcio Catunda. Voz: Juliana Areias. Teclado e arranjos: Christian Boyadjiev.  Gravação: Boris Chakarov – Studio Rose Music. Capa: Momtchil Stoyonov.  Produção: Márcio Catunda.  Capa: inclui os textos das músicas e ilustrações, e um CD.  ISBN 954-452-046-X.  “Márcio Catunda” Ex. bibl. Antonio Miranda

 

CATUNDA, Márcio.  Viagens introspectivas.  Fortaleza, CE: Expressão Gráfica e Editora, 2016.  112 p.  13x21 cm  ISBN 978-85-420-0771-8   “Márcio Catunda”  Ex. bibl. Antonio Miranda

          Levito na inevitável leveza
          do minuto que passa.
          Respiro o perfume insofismável do ar.
          Levo nas mãos a escritura dos meus sonhos.

 

          A BANDEIRA CONTRÁRIA

          Livro-me de dogmas
          no overnight da sarjeta.
          Há créditos para estimar-me o risco?
          Gasto o que é de graça
          e me aventuro, sem obrigações.
          Aduanas não são donas dos meus pés.
          Abandono a horda que me aborda a bordo.
          Desgarro-me das forças
          que me arrastam ao redil.
          Dos agressivos fujo, desarmado,
          e desfraldo a bandeira contrária.
          A sociedade espalha gases letais.
          Tudo atenta contra o meu bem-estar,
          até os mosquitos.
          Mas eu me sinto tão sem limites,
          que imagino, sem ânsias,
          o voo infinito do tempo.

 

          MOTE LIMONADA COM MEL

                    (Sugerido por Jarbas Júnior)

          Despreza o falso afã do sacrifício.
          A forja da vaidade molda o fútil.
          A pressa te conduz ao precipício.
          Abdica da perspicácia inútil!
          O tempo dissolverá teu negócio,
          Enche tuas arcas de precioso ócio.
          como faz com as ruínas ao léu...
          Enche tuas arcas de precioso ócio.
          A relva há de cobrir o teu mausoléu.
          Como as aves que habitam o rochedo,
          abriga-te do opulento escarcéu<
          da vã inquietação que engendra o medo.
          Vê como a pretensão do mandarim
          é conversa vulgar de botequim
          Não vale uma limonada com mel!

                    Argel, 29/03/2014.

 

Extraído de :

 

A CIGARRA – Revista Literária.  ANO 15 – No. 32 – Fevereiro 1998.  Santo André, SP.

         

Foto: Ronaldo Nunes Linhares, Madri, Espanha, 2013.

 

 

 

Página ampliada e republicada em julho de 2010, a partir de um exemplar de obra enviado por Luiz Otávio Oliani, poeta e assessor de Imprensa da editora, com a devida autorização para a divulgação dos textos. Ampliada e republicada em agosto de 2015.

 


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