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JÚLIO SALUSSE
 (1878-1948)

 

 

Júlio Mário Salusse nasceu em Bom Jardim, RJ, e morreu no Rio de Janeiro. Poeta.

 

Obras: Necrose Azul (poesia, 1895), Sombras (1896).

 

 

CISNES

 

A vida, manso lago azul algumas

Vezes, algumas vezes mar fremente,

Tem sido para nós constantemente

Um lago azul sem ondas, sem espumas.

 

Sobre ele, quando, desfazendo as brumas

Matinais, rompe um sol vermelho e quente,

Nós dois vagamos indolentemente,

Como dois cisnes de alvacentas plumas.

 

Um dia um cisne morrerá, por certo:

Quando chegar esse momento incerto,

No lago, onde talvez a água se tisne,

 

Que o cisne vivo, cheio de saudade,

Nunca mais cante, nem sozinho nade,

Nem nade nunca ao lado de outro cisne!

 

 

SONETO

 

A minha vida é a planta que as procelas

sacudiram, torcendo-lhe a raiz...

 Tive ambições e a mais ardente delas

foi a da glória - e a glória não me quis!   

 

  Vi, como sombras, poéticas donzelas,

sombras que se apagaram, como o giz...

Os sonhos meus eram batéis sem velas!

Perdi-os todos. Fui, talvez, feliz!   

 

sempre o destino olhei com tédio e medo,

pois vim ao mundo muito tarde ou cedo...

 Rosas plantei e a flor do mal colhi!   

 

Ainda que pudesse, eu não quisera

 voltar à mocidade, à primavera

 de um tempo que passou, mas não vivi!

 

 

SONETO

 

— Vi passar num corcel a toda a brida,

nuvens de poeira erguendo pela estrada,

 um gigante, impassível como o nada,

indiferente a tudo - à morte e à vida!

 

Tão bela, como a Bela Adormecida,

 tinha nos braços uma loura fada:

lindos cabelos de ilusão dourada,

 pálidas faces de ilusão perdida..

 

 

 

 Assombrado, gritei para o gigante:

"Quem és tu? Essa deusa é tua amante?"

E o Cavaleiro, o Tempo, respondeu:   

 

— "Eu sou tudo e sou nada nos espaços,

e esta Mulher que levo nos meus braços

é a tua Mocidade que morreu!"

 

 

 

Página publicada em abril de 2009


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