JOSÉ LANNES
(1895-1956)
De
José Lannes
VANA
Rio de Janeiro: 1920
106 p.
[Conservamos a ortografia original dos poemas]
IN EXTREMIS
Deixa, meu pobre amor, esta pobre cabeça
ah! pela ultima vez! repousar em teu braço!
antes que em breve, apóz este horrível traspasso,
do nada na algidez para sempre adormeça...
La fóra tomba a noite horrendamente espessa...
Ah! deixa-me sonhar no teu morno regaço!
E o beijo derradeiro e o derradeiro abraço
da-me antes que tambem na minha alma anoiteça!
Dize mais uma vez do teu amor, Querida!
Dize assim a chorar... e a chorar de tal sorte
que no instante final da eterna despedida
a dôr de te perder seja muito mais forte
do que a immensa afflicção de abandonar a vida
e o pavor de afundar no mysterio da morte...
PHANTAMAGORIA
Vejo-te sempre assim no meu sonho incessante
a destacar na noite o vulto esguio e lesto.
Todo de branco vens, com a mesma veste ondeante,
o mesmo riso, o mesmo olhar, o mesmo gesto.
O mysterio sem fim que turva o teu semblante
aggrava-se ainda mais quando attenção lhe presto.
E deslisas por mim com um phantasma errante,
derramando por tudo o teu desdem funesto.
Nada, porém, de ti, me amedronta ou me assombra.
E em vão busco saber si o mysterio se aclara,
si és uma alma defunta ou animada sombra.
Quando um dia morrer, meu goso mais profundo
será tornar-me espectro e estar contigo, para
contigo rir tambem das miserias do mundo.
Página publicada em novembro de 2010
|