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Sobre Antonio Miranda
 
 


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 



HELENA PARENTE CUNHA 

 

Nasceu em Salvador (BA), em 1930. Poeta, ficcionista, tradutora, professora universitária, pesquisadora, ensaísta e crítica literária. Em 1954, com bolsa de estudos da CAPES, especializou-se em Língua, Literatura e Cultura Italiana em Perúgia (na Itália). Seus primeiros escritos foram publicados no Suplemento Literário do jornal Estado de São Paulo, na revista Tempo Brasileiro, na Revista Brasileira da Língua e Literatura, entre outros. Em 1956, deu inicio aos seus trabalhos de tradutora de obras da língua italiana. Trabalha, desde 1968, na Faculdade de Letras da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

 

Estreou, em 1960, com o livro de poemas Corpo do gozo, premiado no Concurso de Poesia da Secretaria de Educação e Cultura da Guanabara, em 1965. Outros livros de poesias da escritora: Corpo no cerco, editora Tempo Brasileiro, 1978, com apresentação de Cassiano Ricardo; Maramar, editora Tempo Brasileiro, 1980; O outro lado do dia, editora Tempo Brasileiro, 1995; e Além de estar, editora Imago, 2000 (reúne seus livros de poesia anteriores, além de trazer material inédito). A poesia de Helena Parente Cunha tem o mérito de iniciar no país um avanço em relação ao Concretismo — experiência que iria desaguar no movimento neobarroco, principalmente com o poema “Além de estar”.   

Salomão Sousa

 

 

ALÉM DE ESTAR

 

vesti-me com a luz pendida

nas espumas que mais brancas

 

nas ondas que mais ondas

descontei o meu ficar

 

nas pedras depois das pedras

meu deixar-me por deixar

 

nos azuis de mais que azul

meu estar-me além de estar

 

CREPUSCULAR

 

perpendicular

ao caminho

insisto

andar

 

circunscrita

na hora

duro

o percurso

 

horizontal

cheguei

para

me crepuscular

 

 

BLOQUEIO

 

onde sopra agora o vento

que levava o que eu dizia?

 

onde se perderam os nomes

que tantas coisas tiveram?

 

onde ficaram as coisas

chamadas em minha voz?

 

e minha voz

como assim subtraída?

 

gosto de pedra

na saliva em minha língua

 

as palavras me emparedam

onde houvera minha boca

 

 

RETRATO

de agora a mil horas
o meu retrato
ainda estará aqui

quem aparece
onde pareço?

pouso de passagem
na fotografia

atrás do quadro
que me contorna
desapareço

quem comparece
na própria face?

poso de novo
(me encontra pronta
cada hora que mil)

de agora a mil horas
quem perece
no meu retrato

 

 

 

 

 

RAMALHO, Christina.  Dois ensaios sobre poesia: Fênix e harpia: Faces míticas da poesia e da poética de Ivan Junqueira; Desejo de tulipas: O eu em expansão na poesia de Helena Parente Cunha.  Santa Cruz do Sul, RS: EDUNISC, 2007.  136 p.  ISBN 978-85-7578-180-7   O primeiro ensaio já fora publicado anteriormente pela Academia Brasileira de Letras.  Col. A.M.

 

 

     “(...) falar da poesia de Helena Parente Cunha é desvelar uma voz muito peculiar, direcionada para a descoberta do ser e do mundo por meio do encontro com a palavra-verso, em sua dimensão formal e simbólica, a traduzir ora um intimismo discreto ora uma alteridade imanente, ambos conduzidos pela concisão e contenção líricas e pelo experimentalismo que definem a lide lírica da escritora.

     Brota da poesia de Helena um moto ascendente, ainda que fruto paradoxal de uma tensão entre retroação e transgressão, que parece direcionar um ente aprisionado num corpo onde não cabe o Ser desejado. Daí a pulsão pelo movimento - ora retroativo, quando a memória constrói o sentido, ora transgressor, quando as emanações da exterioridade incitam ao alumbramento que a circunscrição no corpo físico parece impedir - e a busca pelo instrumento de navegação que permitirá que o silêncio da existência contida se rompa e desabroche: a palavra poética.

     (...) Assim, da poesia de Helena Parente Cunha, emergem signos de deslocamento e imobilidade, numa tensão antitética quebrada paulatinamente durante a própria evolução de seu fazer poético, que, liberto das injunções às quais são submetidos o ser/ente e a criação, alcança, gradativamente, a capacidade de se evolar, perdendo a carnadura plástica (do corpo em frente ao muro) para ganhar a volatidade musical (dos cantares espalhados por recantos plurais) do Ser. Daí a amplitude gradativa dos espaços por onde o Eu-Lírico circula (o quarto e o muro que

cercam, o mar que amplia horizontes, o outro lado que revela o desconhecido, os cantos e cantares que reafirmam a voz conquistada) e a tensão constante entre palavra e silêncio, num jogo dialético à moda hegeliana, da qual irromperá o Ser-síntese que se sabe e que pode, portanto, saber o mundo e os outros, e, consequentemente, ver-se na relação especular com o outro e com o mundo.”  CHRISTINA RAMALHO                                                   

 

O CAMINHO DE LONGE

 

Ao sair

coloquei novamente sobre os ombros

 

o meu nome

e atravessei o portão.

 

Olhei para trás

sem querer assumir a distância.

 

Mas em frente

eu estava

- longe –


 

PERTO

 

Daqui

desta janela ocidental

da minha rua das laranjeiras

entre os cabelos assustados

dos dois coqueiros frente ao meu prédio

daqui

junto ao convite maternal das mangueiras

daqui

deste instante brasileiro

que se move aberto

pela minha janela carioca

daqui

da minha verde verdade tropical

eu vejo

sim eu vejo

daqui

a limpidez dos cedros

e a serenidade inequívoca dos pinheiros

plantados no outro lado do dia.

 

 

BUSCA (2)

 

Buscando definições

viajei dentro de espelhos

e pelo fundo do mar

e pela borda do abismo

e na fímbria do horizonte

 

Só foi buscar e perder

 

Reflexos de imagens simuladas

moles caminhos molhados

riscos em fundo de perigo

intricados de fios no limite

 

Mas ganhei no que perdi

 

Do indefinir do espelho

do inacessar do mar

do indecifrar do abismo

do reviver tanto fim

sem final

 

 

 

 

O CAMINHO DE LONGE

 

Ao sair

 

coloquei novamente sobre as ombros

o meu nome

e atravessei o portão.

 

Olhei para trás

sem querer assumir a distância.

 

Mas em frente

eu estava

— longe —

 

 

TULIPAS

 

Na letargia daqueles dias

sem surpresas nem segredos

partimos à procura

de campos

em ondulações de tulipas

 

E fomos na certeza

da profusão esperada

de cores e corolas

 

em recessos de concha

para invisibilidades

e fecundações

 

Chegamos cedo

ou foi depois?

 

Ah nossas esperas

de primaveras

e reviver de viço

e avidez de esperar

o inesperado

de quê em quando

 

 

 

 

CUNHA, Helena Parente. Caminhos de quando e além.  Poesia. Diálogo com poemas de Fernando Pessoa.  Rio de Janeiro, RJ: Edições Tempo Brasileiro, 2007.    Capa Vera Parente. 191 p.    14x21 cm.  ISBN 978-85-282-0142-0   Ex. bibl. part. Salomão Sousa 

 

Este é um livro denso de emoções e de sentimentos, em cujas páginas, a poeta Helena Parente Cunha, como uma pródiga e excelente perdulária, esbanja amores e paixões.”   MURILO MELO FILHO

 

 

ESTAÇÃO 1

 

O que escrever neste breve instante que impõe do que não disponho?

No oco rumor desta página, em palidez de pergaminho ou cera

ou lisa claridade da tela e das teclas,
como dizer do dito que se disse,
no já vivido que não se viveu?

 

As urzes estão à espreita do milagre.

Eu? Sim, também aguardo milagres e aberturas de fronteiras

neste não haver tempo para pensardes nem esperardes o quê.

 

Tudo de todos os minutos em precipício a meus pés
e no mais alto de vosso redor depois de além.

 

0 lado mais antigo do abrigo começa onde é ou foi o arco-íris,

mas as novas cores esguicham neste jato de luz perfurando

as sombras que se diluem pelo brilho mais.

 

Ele que traçou as linhas do meu mapa e da minha mão,

decretou minhas conjunturas e adjacências.

Minha decisão é cumprir o que me foi do que me for confiado,
não posso falhar.

 

Emissário de um rei desconhecido

eu cumpro informes instruções de além

 

Medo não tenho. As medalhas me brilham no peito.
Decretos em pergaminhos desenrolam mensagens de quando.

Rolos de papiro e papel couché, telas de videoclipe, o que

         houve, meu rei? Perdi a conexão.
Não leio as tábuas da lei que me mostras,
hieróglifos se desenham incógnitos.

Se não sei ler, senhor, como seguir teus estes tais comandos?

 

Esfinges me inscrevem nos olhares parados em pedra.

 

Abre-me as portas de adentrar a pirâmide,
dá-me a senha para as decifrações,
dá-me a chave secreta dos subterrâneos.
Saberei o que queres e cumprirei teus decretos.

 

Não, não me fales na língua dos deuses,

sou simples mortal em busca da imortalidade.

Este mistério me atinge e fere as cores do meu estandarte.
Por que não saber o por quê do quê do ferimento?

 

 

 

CUNHA, Helena Parente.Cantos e cantares.  Poemas.   Rio de Janeiro, RJ: Tempo Brasileiro, 2005. 110 p.    14x21 cm.   ISBN  85-282-0129-5  

Ex. bibl. part. Salomão Sousa 

 

 

         GIRASSÓIS DE VAN GOGH

 

         para Zahidé Lupinacci Muzart

 

 

Encurralados

no jarro da sala agonizante

os girassóis se crispam

e se despedaçam

entre explosões de amarelos

Incendiando Jerusalém

os homens-bomba

estouram seus rins

e as vísceras do rei

e os pulmões dos marechais

As paredes do Trade Center

se desintegram

sobre os inesperados ombros

das crianças

detonadas na Xexênia

e em meio às labaredas antecipadas

na perplexidade

dos girassóis em chamas

 

 

 

MONA LISA (2)

 

         para Florisvaldo Mattos

 

 

Entre ângulos agudos e elipses
e diagonais e espirais inscritos

no aglomerado de sons

anteriores ao som

paralisado

na minha e na tua e

na deles e delas boca

nós nem sabemos perguntar

os para quês e os como quais

das altas ressonâncias

e do silêncio recolhido
no infindo sorriso da Mona Lisa

 

 

CAJUEIRO (2)

 

         para Ricardo Barberena

 

 

Sob as ramagens redondas
na placidez da curva até o chão
eu me sento e me sinto

 

Sem pensar

sem perguntar

me faço folha e raiz

e me planto sem desígnios

na intensidade da terra

 

Sou haver em meu estar
apenas unissonante

 

 

CUNHA, Helena Parente.  Corpo no cerco.   Rio de Janeiro, RJ: Edições Tempo Brasileiro; Brasília, DF: Instituto Nacional de Livro, Ministério da Educação e Cultura, 1978.   123 p.  13,5x18,5 cm.   Ex. bibl. part. Salomão Sousa 

 

 

A novidade do início e a tomada de consciência em relação a problemas da poética de hoje — eis o que Helena Parente Cunha reúne neste livro já por isso sedutor. (…)  A poesia de Helena, conscientemente experimental, tem que ser apreciada sob esse intrigante aspecto. ”  EDUARDO PORTELA

 

                floresço
             frutifico
             enraízo
             mas não sei em qual chão
             me hei de plantar

 

 *                                                                                                                    

 

 

         no desmentir

 

       de cada mito

 

       me tomba um véu

 

 

 

       no desencontro

 

       de cada aurora

 

       rompo um pedaço

 

      

       no que refaço
      

       cada verdade

 

       mais me desfaço

 

 

 

CUNHA, Helena ParenteMaramar. Rio de Janeiro: Edições Tempo Brasileiro; Brasília, DF: Instituto Nacional do Livro, Ministério da Educação e Cultura, 1980.   120 p.  (Coleção Tempoesia, n. 22) 14x21 cm.  Apresentação: Josué Montello.  Ex. bibl. part. Salomão Sousa.

 

A experiência dos poemas anteriores alargou em Helena a intimidade da palavra que amadurece em poesia.” JOSUÉ MONTELLO

 

 

         ROTA

        

         venho de incontidas ondas
         lançadas
         em litorais adormecidos

 

         lembro passos
         que ainda não passei
         esqueço
         a futura esteira
         que as ondas
         de onde vim
         sulcarão

 

         sob aqui
         emergindo lá
         parto
         das praias aonde não cheguei

 

 

         SULCO

 

         no silêncio
         da minha carne
         profunda
         riscas o sulco
         onde me exilo
         a linha que me fecha
         ao limite do corpo
                                   riscado

 

         cortas o arco
         que me cerca
         e cavas
         além do sulco
         fundo
         a palavra onde existo

                           sem risco


 

 

CUNHA, Helena ParenteO outro lado do dia (Poemas de uma viagem ao Japão).  Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1995.   100 p.   13x21 cm.  ISBN 85-282-0072-8    Capa: Elizabeth Lafayette.  Textos de apresentação: Muniz Sodré, Pedro Lyra.  Ex. bibl. part. Salomão Sousa.

 

“(…) ao contrário dos poemas tipicamente circunstanciais, estes escapam ao seu imediatismo pelo evidente sentido de unidade e ambição de permanência : explorando o mesmo tema — a civilização japonesa, em sua paisagem, seus tipos, suas tradições — a autora confere ao conjunto de poemas aquela organicidade interna necessária á toda coletânea que se pretenda mais que uma simples reunião de textos anteriormente produzidos.” PEDRO LYRA

 

 

INTEGRAÇÃO

 

Os arrozais amadurecem
sob os chapéus dos velhos encurvados
no arco frio do tempo.

 

A água o vento
a terra a luz
que impregnaram os grãos
se aguardam
 nos goles quentes de sakê.

 

Inteiros.

 

 

SUPORTES

             O país flutua
         ao balançar das ilhas
         trepidantes de guizos

                                          (o líquido palpitar
                                          na contingência da
                                         onda).

             O país flutua
         ao fluxo das cores
         transbordando flores

                                          (os perplexos lagos
                                         abertos
                                        na espessura dos
                                         jardins).

             O país flutua
         ao fácil despentear-se
         em mando dos arrozais
                                         (emanações de seiva
                                         molhando
                                         as franjas dóceis no
                                         ar).

                                O Japão flutua
                       no fluido espelho do tempo.

 

 

 

IDEOGRAMA

 

Do entrançado destas letras
saltam as palavras
que me escorregam das mãos
e se perdem entre as coisas.

 

O traço é um desenho sempre novo
de antigas flores
que não sei.

 

Estas letras
convertem o vasto espaço
em pensativas linhas curvas.

 

No entrançado
destes traços
o mundo é mais e se desenha pleno.
                                                                                                                

 

 

 

Página preparada por Salomão Sousa e publicada em janeiro de 2008. ampliada e republicada em dezembro de 2012. Ampliada e republicada em agosto de 2015. Ampliada em fevereiro de 2017

 



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