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Sobre Antonio Miranda
 
 


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

EDUARDO ALVES DA COSTA


(Niterói RJ 1936) concluiu o curso de Direito na Universidade Mackenzie em 1952, em São Paulo SP. Por volta de 1960 organizou as Noites de Poesia, no Teatro Arena, em São Paulo. Participou no movimento dos Novíssimos, da Massao Ohno, em 1962. Entre 1962 e 1989 publicou a novela Fátima e o Velho, o romance Chongas e o livro de contos A Sala do Jogo. Recebeu, em 1978, o prêmio Anchieta de Teatro para a peça As Campainhas. Em 1994 foi lançado seu livro juvenil Memórias de um Assoviador. Entre 1996 e 1998 foi cronista do jornal paulistano Diário Popular. Seu único livro de poesia, No caminho, com Maiakóvski, foi publicado em 1985. A reedição é de 2003, pela Geração Editorial, com o título No Caminho com Maiakóvski; Poesis Reunida. O editor Luiz Fernando Emediato escreveu sobre o livro:

“EDUARDO ALVES DA COSTA é autor de alguns dos maiores e mais belos poemas da língua portuguesa. O fragmento de um deles, No Caminho, com Maiakóvski, sem dúvida o mais popular — transformado em bandeira contra a ditadura nos anos 70, em pôster, cartões postais, estampa de camiseta da campanha Diretas Já, mensagem massificada na Internet — já foi conhecido, em todo o Brasil, como o poema mais famoso e representativo de... Vladimir Maiakóvski, o poeta russo. O equívoco, que durou muitos anos, é mais uma vez corrigido neste livro” (...)

 

A CAMA DE PREGOS

Tenho o corpo varado de angústias
e não encontro posição de repouso.
Porque aos de minha geração
foi dado existir numa cama de pregos,
entre o espasmo e o grito,
antes da primeira frase se fazer orvalho
contra as paredes da cela.
Não há possibilidade de fuga
para nosso instinto.
querem que o sexo floresça e murche
em nossas próprias mãos;
ou que o orgasmo seja catalogado
e obedeça aos trâmites legais.
Não há caminho que nos leve à amada.
Todos os corredores conduzem ao vestíbulo,
onde uma enfermeira nos agarra
e nos faz preencher um questionário.
Esconderam as fêmeas em arcas de veludo
e nos iludem o apetite
com mulheres da vida,
com cineminhas mambembes
e filme de sacanagem.
Mas isto não nos basta,
é preciso um espaço infinito
para nos fazermos ao largo,
como jovens leões que se lançam à planície.
Ah, visões de antigos dias,
farândolas de faunos,
virgens consumidas,
olhos de ciclopes aguardando as madrugadas!

Não haverá nesta cidade uma única mulher
verdadeiramente no cio?
Quero agitá-la como uma bandeira
entre as estrelas
e vê-la tombar,
com a face tranqüila.

Sim, deliro,
estamos todos loucos,
à beira do caos e do copo.
E contudo é preciso utilizar de alguma forma
esta convulsão incontida.
Mesmo que tudo termine
na cama de pregos,
seguros pela enfermeira
e cheirando clorofórmio.

Não, por Deus,
não me façam uma incisão no crânio.
Eu sei que estou preso num palácio de espelhos
e é preciso quebrar tudo!

 

NO CAMINHO, COM MAIAKÓVSKI

 

Assim como a criança

humildemente afaga

a imagem do herói,

assim me aproximo de ti, Maiakósvki.

Não importa o que me possa acontecer

por andar ombro a ombro

com um poeta soviético.

Lendo teus versos,

aprendi a ter coragem.

 

Tu sabes,

conheces melhor do que eu

a velha história.

Na primeira noite eles se aproximam

e roubam uma flor

do nosso jardim.

E não dizemos nada.

Na segunda noite, já não se escondem:

pisam as flores,

matam nosso cão,

e não dizemos nada.

Até que um dia,

o mais frágil deles

entra sozinho e nossa casa,

rouba-nos a luz e,

conhecendo nosso medo,

arranca-nos a voz da garganta.

E já não podemos dizer nada.

 

Nos dias que correm

a ninguém é dado

repousar a cabeça

alheia ao terror.

Os humildes baixam a cerviz:

e nós, que não temos pacto algum

com os senhores do mundo,

por temor nos calamos.

No silêncio de meu quarto

a ousadia me afogueia as faces

e eu fantasio um levante;

mas amanhã,

diante do juiz,

talvez meus lábios

calem a verdade

como um foco de germes

capaz de me destruir.

 

Olho ao redor

e o que vejo

e acabo por repetir

são mentiras.

Mal sabe a criança dizer mãe

e a propaganda lhe destrói a consciência.

A mim, quase me arrastam

pela gola do paletó

à porta do templo

e me pedem que aguarde

até que a Democracia

se digne aparecer no balcão.

Mas eu sei,

porque não estou amedrontado

a ponto de cegar, que ela tem uma espada

a lhe espetar as costelas

e o riso que nos mostra

é uma tênue cortina

lançada sobre os arsenais.

 

Vamos ao campo

e não os vemos ao nosso lado,

no plantio.

Mas no tempo da colheita

lá estão

e acabam por nos roubar

até o último grão de trigo.

Dizem-nos que de nós emana o poder

mas sempre o temos contra nós.

Dizem-nos que é preciso

defender nossos lares,

mas se nos rebelamos contra a opressão

é sobre nós que marcham os soldados.

 

E por temor eu me calo.

Por temor, aceito a condição

de falso democrata

e rotulo meus gestos

com a palavra liberdade,

procurando, num sorriso,

esconder minha dor

diante de meus superiores.

Mas dentro de mim,

com a potência de um milhão de vozes,

o coração grita - MENTIRA!


SALAMARGO


Salamargo é o pão de cada dia;
pão de suor, amargonia.
Amargura por viver nesta agonia,
salamargando a tirania.

Salamargo é o tirano, segundo a segundo
amargo sal que salga o mundo.
Assassino das manhãs, carrasco das tardes,
ladrão de todas as noites
e de seu mistério profundo;
carcereiro de seu irmão, a transmudar
a fantasia em noite de alcatrão.

Amaro é fado de nascer escravo,
amargonauta em mar de sal,
nesta salsa-ardente irreal em que cravo
unha e dentes, buscando viver
como um bravo entre decadentes.

Salamargo, tão amargo quanto
o mais amargo sal, é comer
o pão de cada dia sob o tacão
da tirania. Um pão amargo,
sem sal, pobre de amor e fantasia.

Salamargo existir sem poesia.

 

QUERO QUE O SAIBAS

 

Quero que o saibas, linda Inês:

meu coração é português.

E dentro do peito fareja latidos

da alma que há muito me fugiu.

 

Ando sem alma, já se vê,

à procura de não sei quê.

Talvez um cheiro, uma cor, um som

- memória do tempo em que eu,

cidadão de Viseu,

vivia na bolsa seminal de meu pai.

 

O que foi ele buscar no mundo?

O azul profundo que há nos mares

quando se os tem interiores;

novos amores, terras mais vastas.

Não são assim os descobridores?

 

Pois meu coração é assim:

navegante à deriva, naufragado em mim!

 

 

Texto extraído de:

AYALA, Walmir.  Diário de bolso.  Brasília, DF: Ebrasa, 1970.  120 p.   14x21 cm  “ Walmir Ayala “ Ex. bibl. Antonio Miranda

 

         
Vejamos a poesia de Eduardo Alves da Costa.

 

"Sou um poeta

 

vago-simpático

meio lunático

Psicopático:

 

sou um poeta

de um povo angélico,

triste, famélico,

psicodélico.

 

Este é o princípio de um longo poema chamado "Dudu Psicodélico". Vejam o cinismo, o deboche, autocrítica ferina, do poeta que assume a coragem de viver, inclusive com seus aspectos negativos, mas viver, já que não pode se condicionar ao tipo "standard" que a família constituída impõe como padrão de dignidade e progresso. O jovem escolhe a grande aventura, que inclui o suicídio, a fuga total, a excitação mental seja por que caminho for: o LSD, a maconha, a crueldade, a anarquia, a barba, o cabelo crescido, a anti-higiene, o amor-livre, a irresponsabilidade, o desprendimento, o nomadismo — caminhos todos para uma libertação à base do protesto. Sinais de uma crise de desamados. Porque os jovens de hoje carecem profundamente de amor. Amor que a família já está incapaz de gerar. Amor que corresponde a liberdade e confiança, a colaboração e afeto. "Dudu Psicodélico" é o porta-voz desta ironia, desta desmistificação. Por falar em família, ela é a responsável pela antecipação desta revolução inevitável e já desencadeada . Porque ;a família perdeu o sentido. É uma célula dia a dia mais baseada no interesse, na inferioridade e incompetência da mulher, que se materializa para independer altivamente. A farsa da fidelidade, vivida descaradamente pelos casais incapazes de manter o amor por mais de uns poucos anos; a onda de desquites e desajustes sexuais entre os heterossexuais (reforçando o homossexualismo); o distanciamento da linguagem paterna com o filho; tudo isto atingiu o jovem de forma aguda, estimulou seu ódio contra o amor materno que pretende ser mais um ópio à sua integral realização no mundo.

 

A família do homem, hoje, é o próprio homem/seu semelhante. Os jovens sentem isso, e é bom e útil que tomem consciência disso, e construam um futuro mais amplo e resistente. O exercício natural do sexo é seu hino. Isto sobretudo apavora as gerações no ocaso, que esconderam suas taras sob a alfazema dos lençóis nupciais, e satisfizeram nas garçonieres clandestinas a solicitação variável do instinto e do mistério do corpo. Os jovens decidiram salvar a matéria, de seu inferno de proscrição, dar-lhes vigência da flor que nasce e justifica a criação e a morte.

 

 

Página publicada em agosto de 2008; ampliada e republicada em setembro de 2015.



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