|

CRISTINA DA COSTA PEREIRA
Professora de língua portuguesa e literatura por dez anos, depois começou a trabalhar em jornais e editoras como copidesque e redatora de orelhas de livros. Nas décadas de 80 e 90, coordenou eventos referentes à etnia cigana e atuou como animadora cultural, a partir da Biblioteca Popular de Santa Teresa, na capital carioca. Tem obras sobre o povo cigano, literatura infanto-juvenil e sobre o tradicional bairro de Santa Teresa. Sua obra mais notável é Povos de Rua (Rio de Janeiro: Luziletras, 2003. 228 p. ilus.)
|
PNEUMONIA GALOPANTE
Na ante-sala do hospital
esperando todos serem atendidos,
o travesti, com um fatal vestido azul-cintilante,
me olha com extrema sensualidade
e diz que hoje estou des-lum-bran-te!
E com a carne de sua boca rasgada
sugere que sua parcela masculina
amaria intensamente a minha mulher.
Com um olhar de reciprocidade
defloro-lhe o homem
e fantasiamos ultra-romanticamente
o mais surpreendente enlace
entre vidros de soro, termômetros e balões de oxigênio.
DELEITE
O corpo não é uma máquina
como nos diz a ciência.
Nem uma culpa como nos faz
crer a religião. O corpo é uma festa.”
Eduardo Galeano
A carne fareja integral libertação
imperiosa faz-se entrega aos sentidos
desbragadamente.
Assim...
língua com voracidade de Píton
a vasculhar todos os guetos
olhar lançado qual rede magnética
a azeitar de desejo
escorrido
em coxas escancaradas
mão que vá tão fundo
e faça jorrar, por fim,
luz que desce das estrelas.
PRIMATA I
Que é que brinca conosco
atuando no tempo de sonho
no reino intemporal de onde
- parece –
provêm todas as coisas?
Por que brinca conosco
desse campo de estrelas,
mundo misterioso de dimensões incorpóreas
e sobrenaturais oceanos?
Queria dizer àquele ente jogador
que já não suportamos mais,
títeres,
submetermo-nos às suas manipulações.
Mãos enormes que adentram nossos cômodos
e remexem em nossas histórias particulares
conferindo-lhes uma outra ordenação.
Se estiver me ouvindo
pediria que encerrasse de vez
essa incognoscível ludicidade
e nos libertasse
deste fio invisível
que nos prende
à sua imaterial engrenagem.
Extraído de Mescolanza. Rio de Janeiro: Luziletras, 2001. |
|