Fonte: de uma matéria de Heloisa Buarque de Holanda,
no Jornal do Brasil, sobre o poeta:
http://acd.ufrj.br/pacc/literaria/rendemchefe.html
CHACAL
Chacal (Ricardo de Carvalho) nasceu no Rio de Janeiro, em 1951. Mais conhecido como músico e letrista — com parcerias célebres com Lulu Santos, 14 Bis, Blitz e outras bandas e compositores de sucesso —, Chacal é também, e sobretudo, um poeta criativo, original, irreverente. Surgiu com Muito Prazer , Ricardo (1971) e desde então colabora em antologias, revistas impressas e eletrônicas, em performances, como autor e editor de livros, cronista, guionista, o escambau.
Quem primeiro o indicou para o nosso Portal de Poesia foi nosso amigo Ricardo Muniz de Ruiz, que inclui Chacal na antologia República dos Poetas. Agora é quando.... Deparamos com textos muito expressivos na antologia 41 Poetas do Rio (Funarte, 1998), organizada por Moacyr Felix, de onde fizemos esta breve seleção. Uma homenagem, uma prova de admiração pelo artista.
Recentemente reaparece na Antologia comentada da poesia brasileira do século 21, organizada por Manuel das Costa Pinto, em edição da Publifolha (2006).
Obra poética: Vertentes (1975); 17 Peças (1983); Inscrições (1992); Dois Poemas Estrangeiros (1995) – reunidos em Matéria e Paisagem – Poemas Anteriores (1998) e Práticas de Extravio (2003).
SENTINELA
teu jeito de elefanta contraído me angustia.
quem sou eu, quem és tu nessa manhã que se anuncia?
sentinela, minha nega, estou tomado pelo teu sentimento.
posso dizer que um elefante passa em mim.
com seu passo lerdo, um tanto tardo de ser.
quando tu assoas tua tromba, sentinela, me assombra.
quem não ficaria sem ar com o teu passar resfriado
com teu ventre que abrange o mundo paralisado?
sentinela. sentinela quem te deu esse nome bacana?
por que sais de manhã toda trêfega e sós voltas sei lá quando?
sentinela, esse jeito avoado de quadrúpede no cio me assanha.
alguns te chamam elefanta, outros aliá e todos tem razão
menos eu sentinela, menos eu que sou assolado pelo
teu sentimento.
por que não vieste a esse mundo, um walk talk, um disc man ?
assim poderia operá-la ou escutar hendrix quando quisesse.
mas não. vieste elefante e para escutar teu berro lancinante
teu ronco visceral, fico impassível como um hidrante.
vai, sentinela, vai !
cambaleante pelas tuas do rio. boa sorte. seja feliz. até logo.
[da revista Inimigo Rumor n. 17, 2005]
DENTES DE AÇO
eu te arranco um pedaço com meus dentes de aço
e faço e refaço no peito e no braço
e te arranco um pedaço com meus dentes de aço
e você acha pouco e diz que eu sou muito louco
mas eu não dou carne a gato
e não vou pagar o pato dos teus sais dos teus ais
eu quero é mais
planetas estrelas cometas
virgínia Sofia Roraima
bem... não se fala mais nisso
até que você descubra
que a bomba H a bossa nova
está na ponta da língua
OSSOS DO OFÍCIO
sempre deixei as barbas de molho
porque barbeiro nenhum me ensinou
como manejar o fio da navalha
sempre tive a pulga atrás da orelha
porque nenhum otorrino me disse
como se fala aos ouvidos das pessoas
sou um cara grilado
um péssimo marido
nove anos de poesia
me renderam apenas
um circo de pulgas
e as barbas mais límpidas da Turquia
PAPAGAIO
estranho poder o do poeta.
escolhe entre quase e cais
quais palavras lhe convêm.
depois as empilha papagaio
e as solta no céu do papel
UMA OUTRA
se você acha que morar num apê
encardido we abafado rua Siqueira
campos um cabeça de porco botar
gravata todo dia para ir de ônibus
trabalhar na rua senador Dantas e
quando pinta tempo e grana batalhar
uma trepada se você acha que dormir
puto e acordar puto é uma eu já acho
é outra.
UMA PALAVRA
uma
palavra
escrita é uma
palavra não dita é uma
palavra maldita é uma palavra
gravada como gravata que é uma palavra
gaiata como goiaba que é uma palavra gostosa
De
NARIZ ANIZ
(da trilogia CARA A CORES)
Capa – desenho PicassoCapa
impressa em silk screen1979
vamos bater 1 papinho
bem popinho
vamos bater 1 pozinho
***
homem com cheiro de peixe
peixe com cheiro de homem
um por dentro do outro
nas marés de lua cheia
na praia dos idos de março
no píer da praça quinze
no barco
***
esses garranchos
como garrincha
garrelincha
e mata um João.
***
na prefeitura qui loucura;
entre os presidentes
os descontentes, cadê meus
dentes? Perdi
num acidente.
***
ontem hoje amanhã e sempre
a mesma coisa
às vezes varea
escassa rarea
vaza enche esvazia
depende do dia
Página ampliada e republicada em maio de 2007
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