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Sobre Antonio Miranda
 
 


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 



“O poeta quando jovem”. Fonte: www.joaodorio.com

 

CARLOS LIMA

 

José (Carlos do Rego) Lima nasceu no Rio de Janeiro em 1945. Poeta e professor de História da Cultura Brasileira na Universidade Estadual do Rio de Janeiro — UERJ.

 

Livros: Cantos órficos (1977), Anatomia da melancolia (1982), Poemas esquerdos (1992) e Rimbaud no Brasil (1993) e Terra.

 

 

APSARA OU NOITE BRANCA

 

Pues el viento, el viento gracioso

se extiende como um gato para dejarse definir.

                                               LEZAMA LIMA

 

Dama do escorpião, Apsara

em teus braços numa noite rara

o demônio delicado dos sofismas

brinca nos espelhos obsidianos

com a fatalidade das tuas mãos finas

 

Apsara a lógica voluptuosa do escorpião

passeia por tua face múltiplas fúrias

e um veneno sutil se instala nos versos

nessas perigosas noites de outubro

Satã vigia seja noite seja dia

a teoria da rosa e seus mistérios

 

Apsara filha do fogo dança no alto da chama

enquanto a serpente do meu desejo desliza

no chiaroscuro das cinzas do encantamento

há um esplendor rigoroso nesta luz

um furor sangrento nesta selvagem salsugem dos assombros

Apsara terros naufráfio no presságio azul da madrugada

que se ilumina com a lâmpada da saudade

 

         (Ilhéus/Rio de Janeiro, 25 e 26.10.1997)

 

 

MANUAL DE SOBREVIVÊNCIA NA SELVA PÓS-MODERNA

                   A Carmen da Mata e à turma de Botafogo

A poesia é impossível, fique quieto em sua casa

Dizem que há fome nas esquinas

não saia, ponha grades nas janelas

se saíres leva o teu revólver

vá a um bar da moda peça uma boa dose de cinismo ou de sucesso

mas com gelo, o tédio pode-se pagar com cartão de crédito

tudo isso sozinho pois a amizade não vale a pena

está por fora e além do mais não é lucrativo

o amor nem pensar é um sentimento pré-histórico

e nestes tempos tornado supérfluo e improdutivo

Dizem que há mortes e cultive os espinhos não as rosas

não se impressione é tudo uma questão de estatística

O mundo dos ricos continua em paz

enquanto eles  riem e cochicham uns para os outros:

“Nós somos os últimos homens nosso bunkergeist

da lepra do tempo nos mantém desinfetados

e no luxo não morreremos sufocados”

      

PEQUENA COSMOGONIA AMOROSA DA AVENCA NERVOSA

 

Amor o que esta carcaça

brunida pela paixão pode fazer

senão ser imolada diante das fúrias

do teu olhar e amar o ritual selvagem

céu e voragem desse teu jeito de caminhar

e a magia das semelhanças reinventar

 

Amor cega masmorra

todo o sal das renúncias não alcança aqui

o silêncio de sombra das rosas

Amor solar e incendiário

todos os poetas te cantam

fiéis soldados de amarga guerra

Amor única esperança dos desesperados

nesta áspera estrada sem bondade

Amor sacramento cátaro consolação dos puros

mil vezes anoiteces mil vezes amanheces

 

Amor não mais... depõe tuas armas

que outra paixão terrestre não me doma

o coração já trago dolorido e a alma enlouquecida

Amor nas chagas do tempo andamos perdidos

entre o joio e o sarcasmo

mas perto da tua face sem medo

a vida é o verso mais certo.

 

                        (setembro de 1994)

 

 

Poemas extraídos de 41 Poetas do Rio; org. de Moacyr Félix.  Rio de Janeiro: Funarte, 1998.  512 p.   ISBN 85-85781-72-6

 



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