ANA CRISTINA CESAR
(1952-1983)
Nasceu no Rio de Janeiro. Viveu um ano em Londres, em 1968. Escreveu para revistas e jornais alternativos, saiu na antologia 26 Poetas Hoje, de Heloísa Buarque. publicou, pela Funarte, Mestrado em comunicação, lançou livros em edições independentes: Cenas de Abril e Correspondência Completa. Dez anos depois, outra vez a Inglaterra, onde, às voltas com um M.A. em tradução literária, escreveu muitas cartas e editou Luvas de Pelica. Ao retornar, descobriu São Paulo e fixou residência no Rio. Trabalhou em jornalismo, televisão e escreveu A Teus Pés. Suicidou-se no dia 29 de outubro de 1983.
Biografia constante do livro A Teus Pés, Quarta Edição, da série Cantadas Literárias da Editora Brasiliense.
"A poesia de Ana Cristina Cesar caracteriza-se por ser predominantemente confessional, mas o tom de intimidade, não nos deve enganar, pois é apenas um lance de sedução estética. A correspondência, realmente, como apontou Armando Freitas Filho, teve bastante influência sobre a sua dicção poética. Ela cria um verdadeiro jogo de linguagem: textos curtos, poemas fragmentados, cartas, páginas de diário. A poesia torna-se, desta forma, uma inquietante reflexão sobre o próprio fazer literário". (p. 22)
"Assim percebemos que o texto-colagem da poeta instaura um sujeito estilhaçado, uma memória construída através da subjetividade fincada no corpo coletivo da linguagem. Seu método de composição baseia-se na apropriação incessante de versos e trechos de outros escritores que ela distorce, desloca, alude, readapta, reescreve, parafraseia e parodia. É uma obra que faz uma reflexão constante sobre a natureza do literário". (p. 27)
"Os poemas de Ana Cristina Cesar, inserida no clima da geração 70, revelam, entre as muitas características que marcaram a produção poética daquela época, as seguintes: atração pelo insólito do cotidiano; ênfase na experiência existencial num momento especialmente difícil da história e da política brasileira; volta à primeira pessoa, à escrita da paixão e do medo como caminho eficaz no sentido de romper o silêncio e a perplexidade que tomaram de assalto a produção cultural no início da década; o sentido de asfixia, experimentado no cotidiano, mas trabalhado com humor; valorização do coloquialismo; culto do instante, eixo fundamental da nova poesia e do binômio arte e vida. / O binômio arte e vida era a consolidação de uma visão de mundo que valorizava o aqui e o agora: a ideia do presente, eliminando a ideia de futuro." (p. 55)
Textos extraídos da excelente obra de Arminda Silva de Serpa "Lições sobre asas e abismos; uma leitura da poesia de Ana Cristina Cesar", a partir de uma tese de doutorado. Fortaleza> Imprece, 2009. Metadados: Poesia da geração 70; Poesia e comportamento; Poesia brasileira anos 1970. Crítica de Poesia.
TEXTOS EM PORTUGUÊS / TEXTOS EN ESPAÑOL
CIÚMES
Tenho ciúmes deste cigarro que você fuma
Tão distraidamente.
Abril/68
Tenho uma folha branca
e limpa à minha espera:
mudo convite
tenho uma cama branca
e limpa à minha espera:
mudo convite
tenho uma vida branca
e limpa à minha espera.
5.2.69
O nome do gato assegura minha vigília
e morde meu pulso distraído
finjo escrever gato, digo: pupilas, focinhos
e patas emergentes. Mas onde repousa
o nome, ataque e fingimento,
estou ameaçada e repetida
e antecipada pela espreita meio adormecida
do gato que riscaste por te preceder e
perder em traços a visão contígua
de coisa que surge aos saltos
no tempo, ameaçando de morte
a própria forma ameaçada do desenho
e o gato transcrito que antes era
marca do meu rosto, garra no meu seio.
2.10.72
E penso
a face fraca do poema/ a metade na página
partida
Mas calo a face dura
flor apagada no sonho
Eu penso
A dor visível do poema/ a luz prévia
Dividida
Mas calo a superfície negra
pânico iminente do nada.
“Nestas circunstâncias o beija-flor vem sempre aos milhares”
Este é o quarto Augusto. Avisou que vinha. Lavei os sovacos e os
pezinhos. Preparei o chá. Caso ele me cheirasse... Ai que
enjôo me dá o açúcar do desejo.
é aqui
por enquanto
ainda não tem
cortina
tapete luz indireta
amenizando a noite
quadro nas paredes
Noite carioca
Diálogo de surdos, não: amistoso no frio
Atravanco na contramão. Suspiros no contrafluxo. Te apresento
a mulher mais discreta do mundo: essa que não tem nenhum
segredo.
Mocidade independente
Pela primeira vez infringi a regra de ouro e voei pra cima sem
medir as conseqüências. Por que recusamos ser proféticas? E
que dialeto é esse para a pequena audiência de serão? Voei pra
cima: é agora, coração, no carro em fogo pelos ares, sem uma
graça atravessando o estado de São Paulo, de madrugada, por
você, e furiosa: é agora, nesta contramão.
Nada disfarça o apuro do amor.
Um carro em ré. Memória da água em movimento. Beijo.
Gosto particular da tua boca. Último trem subindo ao
céu.
Aguço o ouvido.
Os aparelhos que só fazem som ocupam o lugar
clandestino da felicidade.
Preciso me atar ao velame com as próprias mãos.
Sirgar.
Daqui ao fundo do horto florestal ouço coisas que
nunca ouvi, pássaros que gemem.
A ponto de
partir, já sei
que nossos olhos
sorriam para sempre
na distância.
Parece pouco?
Chão de sal grosso e ouro que se racha.
A ponto de partir, já sei que
nossos olhos sorriem na distância.
Lentes escuríssimas sob os pilotis.
Esqueceria outros
pelo menos três ou quatro rostos que amei
Num delírio de arquivística
organizei a memória em alfabetos
como quem conta carneiros e amansa
no entanto flanco aberto não esqueço
e amo em ti os outros rostos
O Homem Público N. 1
Tarde aprendi
bom mesmo
é dar a alma como lavada.
Não há razão
para conservar
este fiapo de noite velha.
Que significa isso?
Há uma fita
que vai sendo cortada
deixando uma sombra
no papel.
Discursos detonam.
Não sou eu que estou ali
de roupa escura
sorrindo ou fingindo
ouvir.
No entanto
também escrevi coisas assim,
para pessoas que nem sei mais
quem são,
de uma doçura
venenosa
de tão funda.
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De
Ana Cristina Cesar
Portsmouth 30-6-60 Colchester 12-7-80
São Paulo: Instituto Moreira Salles; Livraria Duas Cidades, sd.
Um "caderno de desenho" espiralado reproduzindo anotações e desenhos
de Ana Cristina Cesar durante sua estada na Inglaterra. Uma bela edição em honra da musa do final do século 20 que persiste no culto de admiradores. Reproduzimos duas imagens e recomendamos a obra para colecionadores e bibliófilos. Livro-objeto. Memorabilia.
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INVERNO EUROPEU
Daqui é mais difícil: país estrangeiro, onde o creme de leite é desconjunturado e a subjetividade se parece com um roubo inicial.
Recomendo cautela. Não personagem do seu livro e nem que você queira não me recorta no horizonte teórico da década passada. Os militantes sensuais passam a bola: depressão legítima ou charme diante das mulheres inquietas que só elas? Manifesto: segura a bola; eu de conviva não digo nada e indiscretíssima descalço as luvas (no máximo) à direita de quem entra.
(De A teus pés, 1982)
NOITE CARIOCA
Diálogo de surdos, não: amistoso no frio.
Atravanco na contramão. Suspiro no contrafluxo. Te apresento a mulher mais discreta do mundo: essa que não tem nenhum segredo.
(De A teus pés, 1982)
TRAVELLING
Tarde da noite recoloco a casa toda em seu lugar.
Guardo os papéis todos que sobraram.
Confirmo para mim a solidez dos cadeados.
Nunca mais te disse uma palavra.
Do alto da serra de Petrópolis,
com um chapéu de ponta e e um regador,
Elizabeth reconfirmava, “Perder
é mais fácil que se pensa”.
Rasgo os papéis todos que sobraram.
“Os seus olhos pecam, mas seu corpo
não”,
dizia o tradutor preciso, simultâneo,
e suas mãos é que tremiam. ‘É perigoso”,
ria Carolina perita no papel Kodak.
A câmera em rasante viajava.
A voz em off nas montanhas, inextinguível
fogo domado da paixão, a voz
do espelho dos meus olhos,
negando-se a todas as viagens,
e a voz rascante da velocidade,
de todas três bebi um pouco
MARFIM
A moça desceu os degraus com o robe
monografado no peito: L. M. sobre o coração.
Vamos iniciar outra Correspondência, ela
propôs. Você já amou alguém verdadeiramente?
Os limites do romance realista. Os caminhos do
conhecer. A imitação da rosa. As aparências
desenganam. Estou desenganada. Não reconheço
você, que é tão quieta, nessa história. Liga
amanhã outra vez sem falta. Não posso
interromper o trabalho agora. Gente falando por
todos os lados. Palavra que não mexe mais no
barril de pólvora plantado sobre a torre de
marfim.
COMO RASURAR A PAISAGEM
a fotografia
é um tempo morto
fictício retorno à simetria
secreto desejo do poema
censura impossível
do poeta
PSICOGRAFIA
Também eu saio à revelia
e procuro uma síntese nas demoras
cato obsessões com fria têmpera e digo
do coração: não sou e digo
a palavra: não digo (não posso ainda acreditar
na vida) e demito o verso como quem acena
e vivo como quem despede a raiva de ter visto
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TEXTOS EN ESPAÑOL
Ana Cristina Cesar em Paris em 1987.
Traveling
Versión de Consuleo Olvera T.
Tarde de noche reordeno toda la casa em su lugar.
Guardo todos los papeles que sobraron.
Me confirmo la solidez de los candados.
Nunca más te dije una palabra.
En lo alto de la sierra de Petrópolis,
con un sombrero de puna y un regador,
Elizabeth confirmaba: “Perder es más fácil de loq eu se piensa”.
Rasgo todos los papeles que sobraron.
“Sus ojos pecan, pero su cuerpo
no”, decía el traductor preciso, simultâneo, mientras sus manos temína... “peligroso”,
reía Carolina experta em papel Kodak.
La cámara con rapidez viajaba.
La voz en off en las montañas, inextinguible
fuego domado de la pasión, la voz
del espejo de mis ojos,
negándose a todos los viajes,
y la voz áspera de volocidad,
del total de tres bebí un poço
sin notar
como quien procura un hilo.
Nunca más te dije
una palabra, repito, reafirmo alto,
tarde de noche,
um poço desalineado,
sin lujo
sed
las opiniones que oí en un día interminable:
sin parecer más con la luz ofuscante de ese
mismo
día interminable.
Extraído de BLANCO MÓVIL, n. 75. México, DF, Primavera de 1998. “Poetas de Brasil”.
INVIERNO EUROPEO
Trad. Luciana di Leone, Florencia Garramuño y Carolina Puente
Desde aquí es más difícil: país extranjero, donde la crema de leche está cortada y la subjetividad se parece a um robô inicial.
Recomiendo cautela. No soy personaje de tu libro y ni aunque quieras me recortar´qas en el horizonte teórico de la década pasada. Los militantes sensuales pasan la pelota: ¿depresión legítima o encanto frente a mujeres inquietas sólo como ellas? Manifiesto: tomá la pelota, yo como invitada no digo nada y indiscretísima me saco los guantes (como mucho), a la derecha de quien entra.
(De A teus pés, 1982)
NOCHE CARIOCA
Trad. Luciana di Leone, Florencia Garramuño y Carolina Puente
Diálogo de sordos, no: amistoso en lo frio.
Me atasco en contramano. Suspiros em contraflujo. Te presento a la mujer más discreta del mundo: esa que no tiene secretos.
(De A teus pés, 1982)
De
GUANTES DE GAMUZA Y OTGROS POEMAS
Selección, traducción y notas: Teresa Arijon y Sandra Almeida
Rosario, Argentina: Bajo la Luna bilíngüe, 1992
MARFIL
La muchacha bajó los escalones con la bata
monogramada en el pecho: L. M. sobre el corazón.
Vamos a iniciar la Correspondencia, Ella
propone. ¿Y amaste a alguien verdaderamente?
Los limites del romance realista. Los caminos del
conocer. La imitación de la rosa. Las apariencias
desengañan. Estoy desengañada. No te reconozco,
a vos, que sos tan tranquila, em esa historia. LLamá
mañana outra vez sin falta. No puedo
interrumpir el trabajo ahora. Gente que habla por
todos los lados. Palabra que ya no se mueve en el
barril de pólvora plantado sobre la torre de
marfil.
COMO RASURAR EL PAISAJE
La fotografia
es un tiempo muerto
retgorno ficticio a la simetria
deseo secreto del poema
censura imposible
del poeta
PSICOGRAFÍA
También salgo al descuido
y busco una síntesis en las demoras
junto obsesiones com fría témpera y digo
del corazón: no supe y digo
de la palabra: no digo (todavía no puedo creer
en la vida) y destituyo al verso como quien saluda
y vivo como quien despide la rabia de haber visto
Página ampliada y republicada en noviembre de 2008
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