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Sobre Antonio Miranda
 
 


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

ANA CRISTINA CESAR

(1952-1983)

 

 

Nasceu no Rio de Janeiro. Viveu um ano em Londres, em 1968. Escreveu para revistas e jornais alternativos, saiu na antologia 26 Poetas Hoje, de Heloísa Buarque. publicou, pela Funarte, Mestrado em comunicação, lançou livros em edições independentes: Cenas de Abril e Correspondência Completa. Dez anos depois, outra vez a Inglaterra, onde, às voltas com um M.A. em tradução literária, escreveu muitas cartas e editou Luvas de Pelica. Ao retornar, descobriu São Paulo e fixou residência no Rio. Trabalhou em jornalismo, televisão e escreveu A Teus Pés. Suicidou-se no dia 29 de outubro de 1983.

Biografia constante do livro A Teus Pés, Quarta Edição, da série Cantadas Literárias da Editora Brasiliense.

 

TEXTOS EM PORTUGUÊS TEXTO EN ESPAÑOL

 

CIÚMES

 

Tenho ciúmes deste cigarro que você fuma

Tão distraidamente.

 

Abril/68

 

 

 

Tenho uma folha branca

                            e limpa à minha espera:

 

mudo convite

 

tenho uma cama branca

                            e limpa à minha espera:

 

mudo convite

 

tenho uma vida branca

                            e limpa à minha espera.

 

 

5.2.69

 

 

 

O nome do gato assegura minha vigília

e morde meu pulso distraído

finjo escrever gato, digo: pupilas, focinhos

e patas emergentes. Mas onde repousa

 

o nome, ataque e fingimento,

estou ameaçada e repetida

e antecipada pela espreita meio adormecida

do gato que riscaste por te preceder e

 

perder em traços a visão contígua

de coisa que surge aos saltos

no tempo, ameaçando de morte

a própria forma ameaçada do desenho

e o gato transcrito que antes era

marca do meu rosto,  garra no meu seio.

 

 

2.10.72

 

 

E penso

a face fraca do poema/ a metade na página

partida

Mas calo a face dura

flor apagada no sonho

Eu penso

A dor visível do poema/ a luz prévia

Dividida

Mas calo a superfície negra

pânico iminente do nada.

 

 

 

“Nestas circunstâncias o beija-flor vem sempre aos milhares”

 

Este é o quarto Augusto. Avisou que vinha. Lavei os sovacos e os

pezinhos. Preparei o chá. Caso ele me cheirasse... Ai que

enjôo me dá o açúcar do desejo.

 

 

 

é aqui

por enquanto

ainda não tem

cortina

tapete luz indireta

amenizando a noite

quadro nas paredes

 

 

 

Noite carioca

 

Diálogo de surdos, não: amistoso no frio

Atravanco na contramão. Suspiros no contrafluxo. Te apresento

a mulher mais discreta do mundo: essa que não tem nenhum

segredo.

 

 

Mocidade independente

 

Pela primeira vez infringi a regra de ouro e voei pra cima sem

medir as conseqüências. Por que recusamos ser proféticas?  E

que dialeto é esse para a pequena audiência de serão?  Voei pra

cima: é agora, coração, no carro em fogo pelos ares, sem uma

graça atravessando o estado de São Paulo, de madrugada, por

você, e furiosa: é agora, nesta contramão.

 

 

 

Nada disfarça o apuro do amor.

Um carro em ré. Memória da água em movimento. Beijo.

Gosto particular da tua boca. Último trem subindo ao

céu.

Aguço o ouvido.

Os aparelhos que só fazem som ocupam o lugar

clandestino da felicidade.

Preciso me atar ao velame com as próprias mãos.

Sirgar.

Daqui ao fundo do horto florestal ouço coisas que

nunca ouvi, pássaros que gemem.

 

 

 

A ponto de

partir, já sei

que nossos olhos

sorriam para sempre

na distância.

Parece pouco?

Chão de sal grosso e ouro que se racha.

A ponto de partir, já sei que

nossos olhos sorriem na distância.

Lentes escuríssimas sob os pilotis.

 

 

 

Esqueceria outros

pelo menos três ou quatro rostos que amei

Num delírio de arquivística

organizei a memória em alfabetos

como quem conta carneiros e amansa

no entanto flanco aberto não esqueço

e amo em ti os outros rostos

 

 

O Homem Público N. 1

 

Tarde aprendi

bom mesmo 

é dar a alma como lavada.

Não há razão 

para conservar

este fiapo de noite velha.

Que significa isso?

Há uma fita 

que vai sendo cortada

deixando uma sombra 

no papel.

Discursos detonam.

Não sou eu que estou ali

de roupa escura

sorrindo ou fingindo

ouvir.

No entanto

também escrevi coisas assim,

para pessoas que nem sei mais

quem são,

de uma doçura

venenosa

de tão funda.

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TEXTO EN ESPAÑOL

 

         Traveling

               Versión de Consuleo Olvera T.

Tarde de noche reordeno toda la casa em su lugar.
Guardo todos los papeles que sobraron.
Me confirmo la solidez de los candados.
Nunca más te dije una palabra.
En lo alto de la sierra de Petrópolis,
con un sombrero de puna y un regador,
Elizabeth confirmaba: “Perder es más fácil de loq eu se piensa”.
Rasgo todos los papeles que sobraron.
“Sus ojos pecan, pero su cuerpo
no”, decía el traductor preciso, simultâneo, mientras sus manos temína... “peligroso”,
reía Carolina experta em papel Kodak.
La cámara con rapidez viajaba.
La voz en off en las montañas, inextinguible
fuego domado de la pasión, la voz
del espejo de mis ojos,
negándose a todos los viajes,
y la voz áspera de volocidad,
del total de tres bebí un poço
sin notar
como quien procura un hilo.
Nunca más te dije
una palabra, repito, reafirmo alto,
tarde de noche,
um poço desalineado,
sin lujo
sed
las opiniones que oí en un día interminable:
sin parecer más con la luz ofuscante de ese
mismo
día interminable.


Extraído de BLANCO MÓVIL, n. 75. México, DF, Primavera de 1998. “Poetas de Brasil”.

 

Página ampliada y republicada en noviembre de 2008

 




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