TRAJETÓRIA
Onipresente
Melancolia
Que entre a alegria
Sorris prudente.
Sombra latente
À luz do dia,
Mudez sombria
Que o som pressente.
Por te vencermos
Percorreremos
Longínquos ermos,
Lá dançaremos
E expiraremos
Sem te esquecermos.
HISTORIA
Não é minha esta casa, aí entrarei no entanto.
Quebrarei o portão, marcharei entre as flores,
Encherei meu pulmão com os estranhos odores
Do jardim adubado a sêmen, sangue e pranto.
Porei a porta abaixo, enfrentarei o espanto
Dos vultos me fitando; e apesar dos bolores
Envergarei sem medo os trajes de idas cores,
Nas suas mãos beberei, entoarei seu canto!
Com os corpos rolarei de milhões de mulheres
Sem corpo. Ei-los que já me saúdam e me aclamam,
Meus perdidos avós, desamparados seres.
Estendem-me suas mãos como a um filho que os salva.
Deles vim, mas é a mim que eles agora clamam
A vida, como a um pai, um sol sonhando na alva.
AO MENOS
As vidas passadas
Talvez tenham tido
Grandes madrugadas
Com maior sentido
Do que os nossos nadas.
Mas em nós saltita
Seco, o coração,
Esponja maldita
A se inflar num vão
Onde ninguém fita.
A pular vermelha,
A encolher-se langue,
Suja bomba velha
Bêbada de sangue
Que só o nada espelha.
Que se estique e encolha
Até a hora em que estoure,
Ridícula bolha
Sem um só que a chore,
Sem quem a recolha.
E então tombe gorda
Dentro de si mesma,
Brinquedo sem corda,
Ressecada lesma
Que já nada acorda.
E ali, sem mais ânsia,
Imprestável odre,
Suma na distância,
Sem a dança podre
Que fez desde a infância.
Mas de ao menos nós
Que o sofremos tanto,
Que ele deixe após
Tanto pranto e espanto
Viva a nossa voz.
NUMISMA
Eu, Marcus Silbannacus, alguns dias
Reinei. Ébrias, as tropas me aclamaram.
Um laurel de ouro baixo me botaram
Na testa, entre um estrondo de armarias.
Sobre dois ombros sucedi a Augusto.
Vi a Gália do alto, eu, César Silbannacus.
Das ânforas vazias voavam cacos.
Um escultor veio esboçar meu busto.
Quando eu morresse se ergueria um templo
Em Roma, a Silbannacus, Divo e Pio.
Abriram cunhos com meu rosto esguio,
Com a inscrição seguindo o usado exemplo.
Depois fui degolado. Uma moeda,
Uma só, que um achou a abrir buracos,
Vos deu meu nome e rosto, eu, Silbannacus,
Mudo no tempo a fluir que nos enreda.
OS ETERNOS
Estátuas dos deuses, brancos,
Um sem mãos, sem a cabeça
Um outro, a portar nos flancos
O manto de um sol que desça
Ou suba, aléia de gestos
Alvos, fitando o oceano
Alheia aos ventos funestos,
Ao sopro humano e inumano,
Fila de risos sem boca,
Longos olhares sem olhos,
Ouvidos surdos à rouca
Conversação dos escolhos,
Altivos, friamente ígneos,
Lançando dardos sem braços,
Sem alma urdindo os desígnios
Mais certos que os nossos passos,
Imortais, sonhos de nós,
Cristalizados, latentes,
Sem antes, hoje ou após,
Gélidos sobre as torrentes
Do sal impreciso, erguidos
Nas decisões sem entraves,
À noite de astros vestidos,
De dia do asco das aves,
E inabaláveis, repletos
Da glória de si, exatos,
Mutilados mais completos
Que a soma dos nossos atos,
Totalidades corpóreas,
Sorrisos leves do eterno,
Deuses, fixas trajetórias
Paradas num fora interno,
Deuses, imortais, imotos,
Gestualizadas conquistas,
Chamas, vizinhos remotos,
Hálitos de idos artistas
Há tanto, que é quase a lenda
Terem sido, serem, sem
Que alguma ausência os pretenda,
E a morte morre também.
PRODÍGIO
Oh flor, oh muro,
Vós ambos sois.
Ser, este é, pois,
O liame obscuro
Que há em vós. O puro
Elo. Depois,
Se se erguem sóis,
Se se alça o escuro,
Que importa? Estais,
Seiva, argamassa,
Aqui. Jamais
Sereis mais que isto
Que é, que não passa.
Oculto e visto.
VIDÊNCIA
Se os nossos olhos te enxergassem, rosa,
E não só: “É uma rosa” nos dissessem
Na vulgar gradação que nunca esquecem,
Que epifania na manhã tediosa!
Se eles vissem, ao vê-la, cada coisa
E não seu nome, se afinal pudessem
Fugir da furna abstrata onde destecem
A vida, um morto partiria a lousa
Maciça de aqui estar. Flor, nuvem, muro,
Árvore, que é uma só e não tal nome,
Se tudo entrasse o corredor escuro
Que há em nós, algo de exato se ergueria,
Algo que pára o tempo ou que o consome,
Que alveja a noite e entenebrece o dia.
ENIGMA
Certo mistério existe, indesvendado,
Escrito há eras sem conta, sobre os céus,
Por uma mão, talvez a mão de Deus,
Ressoando no criado e no incriado.
Para entendê-lo, deste e do outro lado
De tudo, angustiados como réus,
Demônios e anjos chocam-se nos seus
Vórtices, sem nenhum outro cuidado.
À volta dele os seres e as esferas
Inutilmente orbitam pelas eras
Na ânsia de desvelar a eles imposta.
Revolvem-se em legiões desamparadas,
Enquanto aqui, na noite, entre as calçadas,
És, e somente tu, sua resposta.
PERGUNTA
Será realmente a face do Universo
A face da Medusa,
Esta geral destruição confusa,
Este criar perverso,
Ou será a máscara, álgida e estrelada,
Onde os cometas passam,
Turva de treva, rútila de nada,
E onde olhos se espedaçam?
AS VELHAS
Elas nos olham, mas não vêem nada.
Sua vida é a que foi, muito lá atrás.
São quase máscaras, mascando o nada,
E em seus olhos há um charco, não a paz.
Como em molduras, nas janelas, duras,
São pré-retratos, mas dirão: de quem?
Fitam o amor e a fúria, aves obscuras
No batente-poleiro que as sustém.
Sabem, no quarto escuro que é o seu dia,
Que não são deste mundo. A sua voz,
Se existisse, a nós, sãos, perguntaria
Se porventura sê-lo-emos nós.
26-9-2004
LAPA
Nesta casa antiga,
Sob estas volutas,
Como ri com as putas
Entre uma e outra briga.
Como virei copos
E extingui charutos,
Discuti com brutos,
Vaiei misantropos.
Urinei nas pias,
Vomitei nas portas,
Com passadas tortas
Vi nascer os dias.
Velha, velha casa,
Como ainda és a mesma.
(Não tens dentro a lesma
Que nos funda e abrasa.)
19-9-2004
EXTRAVIO
Devia a vida ser só isso,
O vinho, o pão, o som da chama.
Sapos no tanque. O olhar mortiço
Do mocho. O luar crivando a cama.
Mãos de mulher cerrando a fresta
Onde entra, como a morte, a bruma.
Mas nos perdemos na floresta
Onde não há árvore nenhuma.
11-10-2004
NOTURNO
Sobre os seus saltos, sob a lua cheia,
Os travestis desfilam como garças,
Farsa carnal em meio às outras farsas
Que o mundo absurdo no aéreo chão semeia.
São deusas-mães usando liga e meia,
De ancas imensas, madeixas esparsas,
De enormes seios, piscando aos comparsas,
Buscando otários para a escusa teia.
São Vênus neolíticas chamando
Sombras confusas, entre os cães sem casa
E os negros ébrios. Seu barroco bando
Volveu, pulsante, dos tetos das grutas,
E anda na névoa, como numa vasa,
Rotundas popas balouçando enxutas.
28-10-2004
A HORA
Quando as palavras detêm-se,
Hirtas, perante a visão,
E se entreolham em vão,
Ínscias do que lhes pertence,
Quando a vida é muito vasta
Para o seu ordeiro lar,
Canoa em pleno alto mar,
Florinha que a enchente arrasta,
Ela ergue a chave, a poesia,
E adentra. Ela que é, não diz.
Que é o palco, a platéia e a atriz,
A hora nem noite nem dia.
1-11-2004
MOTO PERPETUO
Todo poema
É o último do mundo.
A tentativa extrema,
O crucial segundo.
Por fim, escrito,
Pétreo, coagulado,
As larvas do não dito
Postam-se a cada lado.
E tudo é falta.
A fonte exige a bilha
Sem fundo, e eis nos assalta
A horrenda maravilha.
30-9-2004
INTIMIDADE
Caros mortos do Rio de Janeiro,
Quando eu ando nas ruas em que andastes
Não são meus olhos tão somente engastes
Dos vossos, vendo o que vistes primeiro?
Estar vivo, este fato, não é um só
E mesmo, se se exclui cenário e nome?
Não é a mesma uma boca quando come
E dois pés na calçada erguendo o pó?
Não será isso enfim a vida eterna,
Livrar-se da memória e andar nas ruas?
Ser só olhos com pés, as íris nuas
De tudo o que das horas nos governa?
Não morremos? Talvez nunca tenhamos
Deixado o mesmo ponto intacto e alheio.
O que é o agora? O que é? Como está cheio
Este jardim deserto onde uivam ramos.
12-10-2004
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TEXTO EN ESPAÑOL