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Sobre Antonio Miranda
 
 


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 



ALEXEI BUENO

 

 

         Alexei Bueno nasceu no Rio de Janeiro em 1963. Publicou, entre outros livros, As escadas da torre (1984), Poemas gregos (1985), Livro de haicais (1989), A decomposição de J. S. Bach (1989), Lucernário (1993 - Prêmio Alphonsus de Guimaraens, da Biblioteca Nacional, e Prêmio da APCA), A via estreita (1995), A juventude dos deuses (1996), Entusiasmo (1997), Poemas reunidos (1998 - Prêmio Fernando Pessoa), Em sonho (1999), Os resistentes (2001), Gamboa (2002), para a coleção Cantos do Rio, O patrimônio construído (2002, com Augusto Carlos da Silva Teles e Lauro Cavalcanti – Prêmio Jabuti), Glauber Rocha, mais fortes são os poderes do povo! (2003), Poesia reunida (2003 - Prêmio Jabuti, Prêmio da Academia Brasileira de Letras), O século XIX brasileiro na Coleção Fadel (2004), Antologia pornográfica (2004), e A árvore seca (2006).

 

         Como editor organizou, para a Nova Aguilar, a Obra completa de Augusto dos Anjos (1994), a Obra completa de Mário de Sá-Carneiro (1995), a atualização da Obra completa de Cruz e Sousa (1995), a Obra reunida de Olavo Bilac (1996), a Poesia completa de Jorge de Lima e a Obra completa de Almada Negreiros (1997), a Poesia e prosa completas de Gonçalves Dias (1998), além da nova edição da Poesia completa e prosa de Vinicius de Moraes, no mesmo ano. Publicou, pela Nova Fronteira, uma edição comentada de Os Lusíadas (1993) e Grandes poemas do Romantismo brasileiro (1994).

 

Traduziu para o português As quimeras, de Gérard de Nerval, editado pela Topbooks, também com edição portuguesa. Traduziu igualmente poemas de Poe, Longfellow, Mallarmé, Tasso e Leopardi, entre outros. Em 1998 publicou, pela Lacerda Editores, a primeira edição brasileira, prefaciada e anotada, da História trágico-marítima e uma edição dos Sonetos de Camões, além do ensaio introdutório e fixação do texto da Jerusalém libertada, de Torquato Tasso, pela Topbooks. Em 1999 organizou, com Alberto da Costa e Silva, a Antologia da poesia portuguesa contemporânea _ um panorama, para a Lacerda Editores, e no ano seguinte publicou a edição remodelada e definitiva da História das ruas do Rio, de Brasil Gerson. No ano de 2002 organizou, a convite da UNESCO, a Anthologie de la poésie romantique brésilienne, editada em Paris, e a Correspondência de Alphonsus de Guimaraens, para a Academia Brasileira de Letras. Em 2004 organizou a antologia Poesía brasileira hoxe, para a Editorial Danú, de Santiago de Compostela. Em 2006 organizou e publicou, junto com George Ermakoff, Duelos no serpentário, uma antologia da polêmica intelectual no Brasil.

 

         Colabora em diversos órgãos de imprensa no Brasil e no exterior, é membro do PEN Clube do Brasil, e foi, de 1999 a 2002, Diretor do INEPAC, Instituto Estadual do Patrimônio Cultural do Rio de Janeiro, e membro do Conselho Estadual de Tombamento. 

 

TEXTOS EM PORTUGUÊS   /   TEXTO EN ESPAÑOL

 

TRAJETÓRIA

 

Onipresente

Melancolia

Que entre a alegria

Sorris prudente.

 

Sombra latente

À luz do dia,

Mudez sombria

Que o som pressente.

 

Por te vencermos

Percorreremos

Longínquos ermos,

 

Lá dançaremos

E expiraremos

Sem te esquecermos.

 

 

HISTORIA

 

Não é minha esta casa, aí entrarei no entanto.

Quebrarei o portão, marcharei entre as flores,

Encherei meu pulmão com os estranhos odores

Do jardim adubado a sêmen, sangue e pranto.

 

Porei a porta abaixo, enfrentarei o espanto

Dos vultos me fitando; e apesar dos bolores

Envergarei sem medo os trajes de idas cores,

Nas suas mãos beberei, entoarei seu canto!

 

Com os corpos rolarei de milhões de mulheres

Sem corpo. Ei-los que já me saúdam e me aclamam,

Meus perdidos avós, desamparados seres.

 

Estendem-me suas mãos como a um filho que os salva.

Deles vim, mas é a mim que eles agora clamam

A vida, como a um pai, um sol sonhando na alva.

 

 

AO MENOS

 

As vidas passadas

Talvez tenham tido

Grandes madrugadas

Com maior sentido

Do que os nossos nadas.

 

Mas em nós saltita

Seco, o coração,

Esponja maldita

A se inflar num vão

Onde ninguém fita.

 

A pular vermelha,

A encolher-se langue,

Suja bomba velha

Bêbada de sangue

Que só o nada espelha.

 

Que se estique e encolha

Até a hora em que estoure,

Ridícula bolha

Sem um só que a chore,

Sem quem a recolha.

 

E então tombe gorda

Dentro de si mesma,

Brinquedo sem corda,

Ressecada lesma

Que já nada acorda.

 

E ali, sem mais ânsia,

Imprestável odre,

Suma na distância,

Sem a dança podre

Que fez desde a infância.

 

Mas de ao menos nós

Que o sofremos tanto,

Que ele deixe após

Tanto pranto e espanto

Viva a nossa voz.

 

 

NUMISMA

 

Eu, Marcus Silbannacus, alguns dias

Reinei. Ébrias, as tropas me aclamaram.

Um laurel de ouro baixo me botaram

Na testa, entre um estrondo de armarias.

 

Sobre dois ombros sucedi a Augusto.

Vi a Gália do alto, eu, César Silbannacus.

Das ânforas vazias voavam cacos.

Um escultor veio esboçar meu busto.

 

Quando eu morresse se ergueria um templo

Em Roma, a Silbannacus, Divo e Pio.

Abriram cunhos com meu rosto esguio,

Com a inscrição seguindo o usado exemplo.

 

Depois fui degolado. Uma moeda,

Uma só, que um achou a abrir buracos,

Vos deu meu nome e rosto, eu, Silbannacus,

Mudo no tempo a fluir que nos enreda.

 

 

OS ETERNOS

 

Estátuas dos deuses, brancos,

Um sem mãos, sem a cabeça

Um outro, a portar nos flancos

O manto de um sol que desça

 

Ou suba, aléia de gestos

Alvos, fitando o oceano

Alheia aos ventos funestos,

Ao sopro humano e inumano,

 

Fila de risos sem boca,

Longos olhares sem olhos,

Ouvidos surdos à rouca

Conversação dos escolhos,

 

Altivos, friamente ígneos,

Lançando dardos sem braços,

Sem alma urdindo os desígnios

Mais certos que os nossos passos,

 

Imortais, sonhos de nós,

Cristalizados, latentes,

Sem antes, hoje ou após,

Gélidos sobre as torrentes

 

Do sal impreciso, erguidos

Nas decisões sem entraves,

À noite de astros vestidos,

De dia do asco das aves,

 

E inabaláveis, repletos

Da glória de si, exatos,

Mutilados mais completos

Que a soma dos nossos atos,

 

Totalidades corpóreas,

Sorrisos leves do eterno,

Deuses, fixas trajetórias

Paradas num fora interno,

 

Deuses, imortais, imotos,

Gestualizadas conquistas,

Chamas, vizinhos remotos,

Hálitos de idos artistas

 

Há tanto, que é quase a lenda

Terem sido, serem, sem

Que alguma ausência os pretenda,

E a morte morre também.

 

 

 PRODÍGIO

 

Oh flor, oh muro,

Vós ambos sois.

Ser, este é, pois,

O liame obscuro

 

Que há em vós. O puro

Elo. Depois,

Se se erguem sóis,

Se se alça o escuro,

 

Que importa? Estais,

Seiva, argamassa,

Aqui. Jamais

 

Sereis mais que isto

Que é, que não passa.

Oculto e visto.

 

 

VIDÊNCIA

 

Se os nossos olhos te enxergassem, rosa,

E não só: “É uma rosa” nos dissessem

Na vulgar gradação que nunca esquecem,

Que epifania na manhã tediosa!

 

Se eles vissem, ao vê-la, cada coisa

E não seu nome, se afinal pudessem

Fugir da furna abstrata onde destecem

A vida, um morto partiria a lousa

 

Maciça de aqui estar. Flor, nuvem, muro,

Árvore, que é uma só e não tal nome,

Se tudo entrasse o corredor escuro

 

Que há em nós, algo de exato se ergueria,

Algo que pára o tempo ou que o consome,

Que alveja a noite e entenebrece o dia.

 

 

ENIGMA

 

Certo mistério existe, indesvendado,

Escrito há eras sem conta, sobre os céus,

Por uma mão, talvez a mão de Deus,

Ressoando no criado e no incriado.

 

Para entendê-lo, deste e do outro lado

De tudo, angustiados como réus,

Demônios e anjos chocam-se nos seus

Vórtices, sem nenhum outro cuidado.

 

À volta dele os seres e as esferas

Inutilmente orbitam pelas eras

Na ânsia de desvelar a eles imposta.

 

Revolvem-se em legiões desamparadas,

Enquanto aqui, na noite, entre as calçadas,

És, e somente tu, sua resposta.

 

 

PERGUNTA

 

Será realmente a face do Universo

         A face da Medusa,

Esta geral destruição confusa,

         Este criar perverso,

 

Ou será a máscara, álgida e estrelada,

         Onde os cometas passam,

Turva de treva, rútila de nada,

         E onde olhos se espedaçam?

 

 

                   AS VELHAS

 

Elas nos olham, mas não vêem nada.

Sua vida é a que foi, muito lá atrás.

São quase máscaras, mascando o nada,

E em seus olhos há um charco, não a paz.

 

Como em molduras, nas janelas, duras,

São pré-retratos, mas dirão: de quem?

Fitam o amor e a fúria, aves obscuras

No batente-poleiro que as sustém.

 

Sabem, no quarto escuro que é o seu dia,

Que não são deste mundo. A sua voz,

Se existisse, a nós, sãos, perguntaria

Se porventura sê-lo-emos nós.

 

 

26-9-2004

 

 

LAPA

 

Nesta casa antiga,

Sob estas volutas,

Como ri com as putas

Entre uma e outra briga.

 

Como virei copos

E extingui charutos,

Discuti com brutos,

Vaiei misantropos.

 

Urinei nas pias,

Vomitei nas portas,

Com passadas tortas

Vi nascer os dias.

 

Velha, velha casa,

Como ainda és a mesma.

(Não tens dentro a lesma

Que nos funda e abrasa.)

 

19-9-2004

 

 

EXTRAVIO

 

Devia a vida ser só isso,

O vinho, o pão, o som da chama.

Sapos no tanque. O olhar mortiço

Do mocho. O luar crivando a cama.

 

Mãos de mulher cerrando a fresta

Onde entra, como a morte, a bruma.

Mas nos perdemos na floresta

Onde não há árvore nenhuma.

 

11-10-2004

 

 

NOTURNO

 

Sobre os seus saltos, sob a lua cheia,

Os travestis desfilam como garças,

Farsa carnal em meio às outras farsas

Que o mundo absurdo no aéreo chão semeia.

 

São deusas-mães usando liga e meia,

De ancas imensas, madeixas esparsas,

De enormes seios, piscando aos comparsas,

Buscando otários para a escusa teia.

 

São Vênus neolíticas chamando

Sombras confusas, entre os cães sem casa

E os negros ébrios. Seu barroco bando

 

Volveu, pulsante, dos tetos das grutas,

E anda na névoa, como numa vasa,

Rotundas popas balouçando enxutas.

 

28-10-2004

 

 

A HORA

 

Quando as palavras detêm-se,

Hirtas, perante a visão,

E se entreolham em vão,

Ínscias do que lhes pertence,

 

Quando a vida é muito vasta

Para o seu ordeiro lar,

Canoa em pleno alto mar,

Florinha que a enchente arrasta,

 

Ela ergue a chave, a poesia,

E adentra. Ela que é, não diz.

Que é o palco, a platéia e a atriz,

A hora nem noite nem dia.

 

1-11-2004

 

 

MOTO PERPETUO

 

      Todo poema

É o último do mundo.

A tentativa extrema,

O crucial segundo.

 

      Por fim, escrito,

Pétreo, coagulado,

As larvas do não dito

Postam-se a cada lado.

 

      E tudo é falta.

A fonte exige a bilha

Sem fundo, e eis nos assalta

A horrenda maravilha.

 

30-9-2004

 

 

INTIMIDADE

 

Caros mortos do Rio de Janeiro,

Quando eu ando nas ruas em que andastes

Não são meus olhos tão somente engastes

Dos vossos, vendo o que vistes primeiro?

 

Estar vivo, este fato, não é um só

E mesmo, se se exclui cenário e nome?

Não é a mesma uma boca quando come

E dois pés na calçada erguendo o pó?

 

Não será isso enfim a vida eterna,

Livrar-se da memória e andar nas ruas?

Ser só olhos com pés, as íris nuas

De tudo o que das horas nos governa?

 

Não morremos? Talvez nunca tenhamos

Deixado o mesmo ponto intacto e alheio.

O que é o agora? O que é? Como está cheio

Este jardim deserto onde uivam ramos.

 

12-10-2004

 

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                               TEXTO EN ESPAÑOL

 


La juventud de los dioses

(fragmento)

         Versión de Saúl Ibargoyen


Aquí cruzamos los dominios de la impermanencia.
Forma es muerte. Nombre es muerte. Comienzo es muerte.
Y todo el impaciente dolor va atando máscaras inéditas
A la autofagía del tiempo. Muerte y dolor. Dolor y Muerte.
Muerte y dolor
La vida, la intersección entre ambos, intangible
Como el presente entre dos tiempos que nunca existieron.

Resbala, y ahora en el baile de disfraz
Del sufrimiento, em su nuevo estilo, le roban a un hombre
Las pupilas o le arrancan el corazón
Y los riñones, para vendérselos a otros, palpitantes.
Como se robaba antes un anillo o una túnica. Espantosa
Revolución. Los pájaros rondan allá arriba,
Atontados, pero la lluvia no caerá.

Hay um flujo
Formidable em los ojos de Gautama.
Penúltima visión antes del complet Despertar.
Es el remolino, um sumidero, las alas crecientes, tal vez
Las grandes furias del Ganges. Pierna de niño en el lodo,
Lecho danzante, elefante abierto, estatuilla de dios
Brincando en las aguas, rodillas de novia, vacas descomadas,
Zapatos sins u par, monos circunspectos...
¿El ojo promiscuo del caudal? No. Ronco, ahora,
El torbellino del pasado y de lo que está aún por venir.
Legiones
Inacabables de seres y famílias amadas, muerte y dolor,
Dolor y muerte, en la danza de la rueda vertiginosa...
¿Es por eso que asesinan? Em la penumbra
De las sábanas de vísceras resuellan. Hijastras
Poseídas por sus padrastos. Parejas papeleándose em los muelles    
                                                                               nocturnos.
Ambulancias en las clínicas, de madrugada, como la que nos llevará   
                                                                                   algún dia.
Frágiles amores deshaciéndose como aríetes de paja
En la muralla del haber outra alma. Viudas sin dientes
Saqueadas por albaceas. Subastas. Matanzas. Asmas.
Pleitos con los vecinos. Articulaciones entumeciéndose
Y la larga fila para empeñar las alianzas. En médio
Del lodazal hirviente, en médio
Del gan mar de rostros que se muerden, se besan y se insultan.
Aquí y allá, un hombre,
A una enorme distancia, como islas volcánicas
Vomitadas en la soledad de las olas bullentes
Por las agonias de la tierra.
Más a lo lejos, allá donde despedazan niños
Para vender los trozos a los herederos mal nacidos.
Allí, en la carnicería de los vivos, las risueñas multitudes
De los apretadores de teclas, de loa amantes de maquinitas
Para quienes el viento no existe. Cucarachas en los supermercados
Entre el estruendo intolerable. Acariciadores de controles.
Enamorados de comandos, corruptores de asuntos, trancados
En los cubos que se apilan. O los que intentan persuadir su íntima
                                                                                  voluntad
En las fuentes perennes de la vida. Y la ilusión
De la permanência extendiendo un manto maternal encima de todo,
Y la embriaguez
Del fuuro, del apogeo y de la conquista
Sacudiéndolos en el salto desamparado hasta el molino gigantesco
Que rueda exactamente como siempre y regurgita polvo.

En esta vorágine
Toda manifestación es el principio de la caída,
Condena que se firma, botón que se presiona
Para la nada. Aquí, todo lo que se despliegue
Será rasgado. Todo lo que se absorba
Retornará en vômitos. Aquí no es
Parada de nadie, y el mecanismo enorme
Del reloj del universo, donde el ser penetro como un insecto,
Un ratón espurio, un engrenaje desajustado y vacilante,