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Sobre Antonio Miranda
 
 


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

ABEL SILVA

 

“Poeta, Ael Silva surgiu no final dos anos 60, apresentado por Ziraldo no jornal O Pasquim. O primeiro livro, o romance O afogado, foi editado em 1971, seguindo depois um volume de contos e três livros de poesia. Letrista consagrado, é autor de sucessos como Festa do interior e Jura secreta, de onde saiu o verso que dá título a este livro.” (...) “Criador de uma “poesia que se comunica e encontra expressão natural em música”, segundo Carlos Drummond de Andrade; “Neomodernista surpreendente de cuca voadora”, como o definiu  Glauber Rocha; “tem marca própria, uma visão poética original”, densa, mas cheia de alegria de viver e de um lirismo contemporâneo e sensual”, de acordo com Ana Maria Machado; “sensibilidade polifônica, disciplinada e dançarina”, no dizer de Heloisa Buarque de Holanda, Abel Silva formou-se em Letras pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, é professor da mesma universidade,além de ter lecionado na PUC do Rio. Foi editor da revista de poesia Anima, ao lado de Capinam, entre 1974 e 1975, e editor de cultura do jornal Opinião.

 

 

Abel Silva

De
Abel Silva
SÓ UMA PALAVRA ME DEVORA
Poesia reunida e inéditos

Rio de Janeiro: Editora Record, 2000
252 p.  ISBN  85-01-06019-4

 

LOCAL

 

De onde me viria

esta história de o amor

ser de partida?

 

E esta agonia,

o inquirir de cada olhar

o revés

do esquecimento?

 

Minha praia é esta

meu convés o litoral

eu sou a minha nau

e o meu descobrimento.

 

Eu não conheço a dor dos navegantes

nem as areias escaldantes

dos salvados do mar...

 

Se sou assim desde o primeiro dia

por que fugir de mim

em travessia?

 

 

GALO CANTANDO

 

Tem tempo que não ouço um galo

cantando na madrugada

um galo chamando o dia

dentro da noite calada

 

Seu canto marcando o terreno

de sua própria ousadia

entre a sombra e o clarão

na noite a sua vigia

 

Canto que puxa o tempo

de dentro do poço escuro

sangue de um outro dia

carne de um outro futuro.

 

 

ASAS

 

O que este punhal tem de ave

são asas da imaginação

a dor voa mas volta sempre

e pousa em meu coração.

 

Voa gaivota breve, voa leve

que o mar tem alma secreta

e guarda a carne dos peixes

a solidão do poeta.

 

(Musicado por Fagner)

 

 

VELHOS II

 

Para onde vão os velhos brasileiros?

Os velhos paraíbas, as velhas prostitutas,

os velhos camelôs, o Dr. Rubis do Flamengo,

os velhos figurantes das chanchadas que voltam aos vídeos

domingueiros, onde fazem agora as

caretas da velhice?

Os velhos músicos de boate,

as vedetes dos últimos degraus, vão para onde?

Quando a vida derrete e despenca

para onde vão os velhos vendedores de chica-bom?

Eu não quero saber do destino

dos garfos

facas

dentes

cabelo

o menino que fui.

Quero é saber: para onde vão os velhos brasileiros?

 

 

SUICIDA

 

Deste lado

de meu tormento

no limbo penugem e morno vento

sou o que sempre fui

menos a dor e as perguntas

mais o esquecimento.

 

 

 

 

SILVA, Abel.  PoemAteu.  São Paulo: 7Letras, 2011.  148 p.  16x23 vm.  ISBN 978-85-7577-777-0  Foto do autor aos 4 anos de idade, na contracapa.  Col. A.M.

 

O MERGULHADOR PREVISÍVEL

 

Sentir medo

do que te contem

 

porque és em segredo

o que te lança além

 

só o possível te acalma

não tens fôlego nem alma

de mergulhador

 

e quando voltas da procura rasa

os olhos explodindo de terror

 

e quando te cegas

em busca de luz

 

boias sobre as águas

ondas verdeazuis,

nadas, nada, nadas

e ao sal, enfim, a água

te reduz.

 

 

NÃO HÁ CAMINHO?

 

Não há caminho

sou eu que faço

mas que vaidade!

 

Caminho há

mas não vou por lá

ou quando vou,

 

vou com meus passos
pois não é o caminho

que me faz andar

 

mas os meus pés

que passo a passo

 

levam meus passos

a passear.

 

 

 

Página publicada em julho de 2010, ampliada e republicada em outubro de 2013.

 

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