POESIA PERNAMBUCANA
Coordenação de Lourdes Sarmento
Fonte: www.revistazunai.com.br
SEBASTIÃO UCHOA LEITE
(1935-2003)
Nasceu em Timbaúba, perto de Recife. Cursou direito e filosofia. Autor de vários títulos de poesia, obtendo o Prêmio Jabuti de Poesia, em 1979, com Antilogia.
“A poesia de Sebastião Uchoa Leia instala-se no campo da negatividade.!” (...) “Se a poesia reflexiva e critica de Uchoa Leite joga com ideias, em oposição àquelas que se deixam encantar pelo fluxo melódico ou o suscitar de imagens, é de modo ambivalente, afastado de qualquer desenvolvimento linear: ideias-palavras chocam-se abruptarnente, cristalizam-se como imagens, são simultaneamente elas mesmas e suas imagens em negativo. Esta logopeia do ininteligivel ("Uma identificação de ecos / por onde o ininteligível / se entende"), contrapondo-se â banalização dos sentidos, produz um drástico estranhamento do real e da linguagem.” FRANCISCO K. [KAC] Poesia? e outras perguntas: textos críticos. Rio de Janeiro: 7Letras, 2011. 200 p. 16x23 cm. ISBN 978-85-7577-765-7 (p. 23-24)
TEXTOS EM PORTUGUÊS / TEXTO EN ESPAÑOL
memória das sensações 4: vertigo 3
A
VER
TI
GEM
É
UMA
LIN
GUA
GEM
DA
MAR
GEM
OU
UMA
FOR
MA
DE
NÃO
PO
DER
DA
LIN
GUA
GEM
DO
COR
PO
Extraído de A REGRA SECRETA (São Paulo: Landy Editora, 2002)
METASSOMBRO
eu não sou eu
nem o meu reflexo
especulo-me na meia sombra
que é meta de claridade
distorço de intermédio
estou fora de foco
atrás de minha voz
perdi todo o discurso
minha língua é ofídica
minha figura é a elipse
de Antilogia, 1979.
SANGUE DE PANTERA
negra e inalterada
por trás das grades
lembro
seus olhos parados
não era mais um olhar
era uma idéia
de Isso não é aquilo, 1982
ESBOÇO
Se você pensa
que poesia é escamoteação
acertou.
Metafísica é a meta dos mandriões
Mas se pensa
que é um escaveirado corrupião:
acertou também.
Linguagem é a mira dos idiotas.
1984
OUTRO ESBOÇO
A serpente semântica disse:
não adianta querer significar-me
neste silvo.
Meu único modo de ser é a in
sinuosidade e a in
sinuação.
Não é possível pensar a verdade
Exceto como veneno.
1984
ENIGMÓIDES
Espelho ao avesso
Sobre o abismo
Já sou mais isso
Do que eu mesmo
Reflexo antevisto
Do caos amórfico
Informe e vasto
Sonho malérico
1989
ENVOI
Digam ao verme
Que eu guardei a forma
E a essência felina
De meus amores decompostos
de A uma incógnita, 1990
METASSOMBRO
eu não sou eu
nem o meu reflexo
especulo-me na meia sombra
que é meta de claridade
distorço-me de intermédio
estou fora de foco
atrás de minha voz
perdi todo o discurso
minha língua é ofídica
minha figura é a elipse
QUESTÓES DE MÉTODO
(Carta a Regís Bonvicino)
um monte de cadáveres em el salvador
—no fundo da foto
carros e ônibus indiferentes—
será isso a realidade?
degolas na américa central
presuntos desovados na baixada
as teorias do state departament
uma nova linha de tordesilhas
qual a linha divisória
do real e do não real?
questão de método: a realidade
é igual ao real?
o homem dos lobos foi real? o panopticum?
o que é mais real: a leitura do jornal
ou as aventuras de indiana jones?
o monólogo do pentágono ou
orson welles atirando contra os espelhos?
De Isso não é aquilo (1982)
PRECISAMOS
de inteligências radar
e sonar
para captação de formas.
A poesia é um repto.
Não
(necessariamente)
um conceito.
Uma identificação de ecos
por onde o ininteligível
se entende.
De Cortes/Toques (1985)
ANOTAÇÃO: A OBRA LÍRICA
Certa vez vindo da lateral
Do Campo de Santana
E entrando célere,
Na Azeredo Coutinho
Direção: Arquivo
Como um Josef K qualquer
Deparei-me
Com algo da espécie
Dita "humana"
De cócoras
Pondo ali seu ovo
Atravessei e pensei
Que ali era
A obra no sentido literal.
De A ficção vida (1993)
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TEXTO EN ESPAÑOL
SEBASTIÃO UCHOA LEITE
(Timbaúba, Recife, 1935 )El magisterio de su poesía intelectualizada, culturalista, irónica, crítica y de fragmentado sujeto ha sido reconocido a partir de la década de 1980. Abrió una senda que ya es un verdadero camino entre las poéticas cabralina y concreta. Lejos de las veleidades estéticas y sentimentales, su poética átona, «an
tilírica», innovadora, ascética y minimalista, parece preocupada por la deconstrucción del mundo, con aquello que incluso «está fuera de la lengua de la
poesía» (Anelito de Oliveira), a través de versos-hendidura. Puede ser considerada como una poética postmoderna (relectura, intertextualidad, fragmentación) que no esconde cierta «tensión política». También es un valioso ensayista sobre temas múltiples y traductor de prestigio de obras como las de Octavio Paz y Francois Villon. Recientemente, ha aparecido una antología suya en España: Contratextos (DVD).
OBRA POÉTICA: Dez sonetos sem materia, 1960; Antilogia, 1979; Isso não é aquilo, 1982; Cortes/Toques, incluído en Obra em Dobras, 1989; A urna incógnita, 1991; A ficção vida, 1993; A espreita, 2000.
TRADUCCIONES DE ADOLFO MONTEJO NAVAS*
CUESTIONES DE MÉTODO
(carta a Régis Bonvicino)
un montón de cadáveres en el salvador
—en el fondo de la foto
coches y autobuses indiferentes—
¿será eso la realidad?
degüellos en américa central
fiambres abandonados en la periferia*
las teorías del state departament
una nueva línea de tordesillas
¿cuál la línea divisoria
de lo real y de lo no real?
cuestión de método: ¿la realidad
es igual a lo real?
¿el hombre de los lobos fue real? ¿el panopticum?
¿qué es lo más real: la lectura del periódico
o las aventuras de indiana jones?
¿el monólogo del pentágono u
orson welles disparando contra los espejos?
De Isso não é aquilo (1982)
* periferia: baixada fluminense es la periferia de la ciudad de Río
del gran Río.
NECESITAMOS
inteligencias radar
y sonar
para la captación de formas.
La poesía es un reto.
No
(necesariamente)
un concepto.
Una identificación de ecos
por donde lo ininteligible
se entiende.
De Cortes/Toques (1985)
ANOTACIÓN: LA OBRA LÍRICA
En una ocasión viniendo por el lateral
Del Campo de Santana
Y entrando acelerado
En Azeredo Coutinho
Dirección: Archivo
Como un Josef K cualquiera
Me encontré
Con algo de la especie
Considerada humana
De cuclillas
Poniendo allí su huevo
Atravesé y pensé
Que allí era
La obra en el sentido literal.
De A ficção vida (1993)
*De Correspondencia celeste. Nueva poesía brasileña (1960-2000). Introducción, traducción y notas de Adolfo Montejo Navas. Madrid: Árdora Ediciones, 2001 – Obra publicada com o apoio do Ministério da Cultura do Brasil.
*Nota: o tradutor Adolfo Montejo Navas é amigo comum nosso com Wagner Barja, e o convidamos a participar da exposição OBRANOME 2 no Museu Nacional de Brasília, durante a I Bienal Internacional de Poesia de Brasília 2009. Montejo Navas prometeu-nos suas traduções ao castelhano e só na Espanha, em viagem, é que conseguimos os originais que estamos divulgando parcialmente no nosso Portal de Poesia Ibeoramericana, com os agradecimentos.
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TEORÍA DEL OCIO
(fragmento)
Versión de Héctor Carreto
Entre los rios de esta plaza
sembrada en el cenro del mundo como un árbol,
entre el tiempo y la naturaleza,
pasa mi oficio figurativo.
Es una Plaza
dispersa, alienada y sin raíces.
¿Para qué sirves, libre de tus pasiones,
royendo la cuerda de la nada,
en esa incidência fluvial,
en ese ócio prodigioso y sin mistério?
Te interrogo en un cisma
en el que te configuras.
Libertad de estirar una pierna
por sobre las cosas calvas, de los afectos
y de las razones vitales.
Libertad de sonreír sin razón,
delicia por las cosas finitas
entre las ficciones del intelecto,
saliendo para alguna cosa o saliendo
para nada,
pisando las sempiternas hojas secas
de nuestro otoño fingido.
Abril y mayo son tus ensayos predilectos
entre la pasión dialéctica y la razón pura.
¿Para qué sirves si no para indagar
la esencia de la poesía o la esencia de lo falso
si son la misma cosa?
¿Cómo distinguir en el tiempo las ficciones del ser?
Para qué sirves si careces de fin sin sentido,
florecimiento estético o metafísico
sin memoria.
En cuanto huelo el peligro en las carteras,
escribo en la palabras de materia porosa,
divulgo a los cuatro vientos mi insensatez
y reflexiono sobre mi inercia,
mi pensamiento recuerda y recomienza.
Página ampliada e republicada em novembro de 2008; ampliada e republicada uma vez mais em junho de 2009 |