POESIA PERNAMBUCANA
Coordenação de Lourdes Sarmento
Fonte: www.academia.org.br
OLEGÁRIO MARIANO
(1889-1958)
Olegário Mariano Carneiro da Cunha, poeta, diplomata, deputado federal e constituinte, nasceu em Recife, Pernambuco, Estreou na vida literária aos 22 anos com o volume Angelus, em 1911. Segundo os biógrafos da Academia Brasileira de Letras, da qual foi membro, “sua poesia lírica é simples, correntia, de fundo romântico, pertinente à fase do sincretismo parnasiano-simbolista de transição para o Modernismo. Ficou conhecido como o "poeta das cigarras", por causa de um de seus temas prediletos
Obra literária: Angelus, 1911; Sonetos, 1912; Evangelho da sombra e do silêncio, 1912; Água corrente, 1918; Últimas cigarras, 1920; Castelos na areia, 1922; Cidade maravilhosa, 1923; Ba-ta-clan, 1924; Canto da minha terra, 1930; Destino, 1931; Teatro, 1932; Vida, caixa de brinquedos; O enamorado da vida, 1937; Da cadeira 21, 1938; Quando vem baixando o crepúsculo, 1945; A vida que já vivi,1945; Cantigas de encurtar caminho, 1949; Tangará conta histórias, 1953; Correio sentimental; Toda uma vida de poesia, 2 volumes, 1957.
Leia o ensaio aqui: CINQUENT´ANOS DA MORTE DA CIGARRA [= OLEGARIO MARIANO ] por Anderson Braga Horta>>>
Olegário Mariano, 1931,
pintura de Cândido Portinari.
PAGANISMO
Sinto às vezes horror do modo diferente
Com que em louca emoção voluptuoso te espio,
Meu suave amor que tens a figura inocente
De um lírio muito branco, um lírio muito frio.
Ao meu olfato chega o perfume doentio
Do teu corpo mudado em corpo de serpente:
E através desse aspecto anêmico e sombrio
Meu desejo passeia alucinadamente.
Fauno, os olhos boiando em volúpias bizarras,
Quem me dera que tu viesses, na noite escura,
Minha fronte adornar de crótons e de parras,
E na calma do bosque onde o meu sonho medra,
Unisses para sempre, entre o amor e a loucura,
Os teus lábios de sangue aos meus lábios de pedra.
A MÃE-D'ÁGUA
Num recanto de parque onde a melancolia
Da tarde estende um véu de saudade e de dor,
Uma água morta jaz, na última luz do dia,
Imota e triste, em seu perpétuo dissabor.
Ninféias a oscilar bóiam à tona fria
E do leito lodoso, em súbito rumor,
Sobe, de quando em quando, um choro de agonia
Que vai de folha em folha, e vai de flor em flor.
Quando a noite se estende, essa voz continua ...
Cresce cada vez mais e, alongada e comprida,
Como o vento que encrespa os cabelos da lua,
Corre à tona na luz tênue que a sombra espanca ...
— É a Mãe-d'água que chora a saudade da vida
Dentro do coração de um ninféia branca.
NOITE SONORA
Anoiteceu. Pelas montanhas veio
Lentamente o crepúsculo caindo ...
O céu, redondo e claro como um seio,
Ficou, de lindo que era, inda mais lindo.
O vale abriu-se em pirilampos cheio,
Luzindo aqui, e ali tremeluzindo ...
No regaço da treva, úmido e feio,
A natureza adormeceu sorrindo ...
As cigarras, na sombra, se calaram:
As árvores no bosque farfalharam
Na esperança de ouvi-Ias e de vê-las.
Caiu de todo a noite quieta ... Agora,
O céu parece uma árvore sonora
De cigarras cantando nas estrelas ...
O SOL QUE CANTA
Quando a cigarra canta é o sol que canta.
Por isso o canto dela acorda cedo
E vai rolando com veemência tanta
Que enche as grotas, os campos e o arvoredo.
Desce aos vales, penetra na garganta
Da serra e acorda a pedra do rochedo.
Parece que da terra se levanta
Um punhado de pássaros com medo.
Em chispas de ouro e vibrações estranhas
Vibram clarins nas notas derramadas ...
Estilhaçam-se taças nas montanhas ...
E o sol, seguindo o canto que se alteia,
Deita fogo na poeira das estradas
E põe pingos de luz nos grãos de areia.
DESLUMBRAMENTO
É amor? Não sei. Esta intranqüilidade,
Este gozo na dor, esta alegria
Triste que vem de manso e que me invade
A alma, enchendo-a e tornando-a mais vazia;
Este cansaço extremo, esta saudade
De uma cousa que falta à vida ... O dia
Sem sol, as noites ermas, a ansiedade
Que exalta e a solidão que anestesia,
É amor. Egoísmo de sofrer sozinho,
De as penas esconder do humano açoite,
De transformar as pedras do caminho
Em carícias sutis para colhê-las
E andar como um sonâmbulo, na noite,
Escancarando os olhos às estrelas ...
Canto da minha terra (1930)
CIGARRA
Figurinha de outono!
Teu vulto é leve, é sensitivo,
Um misto de andorinha e bogari.
Num triste acento de abandono,
A tua voz lembra o motivo
De uma canção que um dia ouvi.
Quando te expões ao sol, o sol te impele
Para o rumor, para o bulício e tu, sorrindo,
Vibras como uma corda de guitarra...
É que o sol, quando queima a tua pele,
Dá-te o grande desejo boêmio e lindo
De ser flor, de ser pássaro ou cigarra
Cigarra cor de mel. Extraordinária!
Cigarra! Quem me dera
Que eu fosse um velho cedro adusto e bronco,
E tu, nessa alegria tumultuária,
Viesses pousar sobre o meu tronco
Ainda tonta do sol da primavera.
Terias glórias vegetais sendo vivente.
Mas um dia de lívidos palores,
Tu, cigarra, que vieste não sei donde,
Morrerias de fome lentamente
No teu leito de liquens e de flores
No aconchego sutil da minha fronde.
E eu, na dor de perder-te, no abandono,
Sem ter roubado dessa mocidade,
Do teu corpo de flor um perfume sequer,
Morreria de tédio e de saudade...
Figurinha de Outono!
Cigarra que o destino fez mulher!
Evangelho da Sombra e do Silêncio: versos (1911/1912).
A VELHA MANGUEIRA
No pátio da senzala que a corrida
Do tempo mau de assombrações povoa,
Uma velha mangueira, comovida,
Deita no chão maldito a sombra boa.
Tinir de ferros, música dorida,
Vago maracatu no espaço ecoa...
Ela, presa às raízes, toda a vida,
Seu cativeiro, em flores, abençoa...
Rondam na noite espectros infelizes
Que lhe atiram, dos galhos às raízes,
Em blasfêmias de dor, golpes violentos.
E, quando os ventos rugem nos espaços,
Os seus galhos se torcem como braços
De escravos vergastados pelos ventos.
Canto da Minha Terra (1930).
ARCO-ÍRIS
Choveu tanto esta tarde
Que as árvores estão pingando de contentes.
As crianças pobres, em grande alarde,
Molham os pés nas poças reluzentes.
A alegria da luz ainda não veio toda.
Mas há raios de sol brincando nos rosais.
As crianças cantam fazendo roda,
Fazendo roda como os tangarás:
"Chuva com sol!
Casa a raposa com o rouxinol."
De repente, no céu desfraldado em bandeira,
Quase ao alcance da nossa mão,
O Arco-da-Velha abre na tarde brasileira
A cauda em sete cores, de pavão.
Canto da Minha Terra (1930).
A VELHA MANGUEIRA
No pátio da senzala que a corrida
Do tempo mau de assombrações povoa,
Uma velha mangueira, comovida,
Deita no chão maldito a sombra boa.
Tinir de ferros, música dorida,
Vago maracatu no espaço ecoa...
Ela, presa às raízes, toda a vida,
Seu cativeiro, em flores, abençoa...
Rondam na noite espectros infelizes
Que lhe atiram, dos galhos às raízes,
Em blasfêmias de dor, golpes violentos.
E, quando os ventos rugem nos espaços,
Os seus galhos se torcem como braços
De escravos vergastados pelos ventos.
Canto da Minha Terra (1930).
A CIGARRA MORTA
Ontem, Cigarra, quando veio a aurora,
acordei a vibrar com a tua vinda.
A tua voz tinha, de espaço fora,
notas tão claras que eu a escuto ainda.
Glorificando a luz consoladora,
cantaste, e enfim tua cantiga é finda.
Tenho nas minhas mãos, inerte agora,
teu corpo cor de mel. Cigarra linda.
Foste feliz, porque te deram esta
garganta de ouro. Assim, de palma em palma,
passou, num sonho, a tua Vida honesta...
Vendo-te, os meus sentidos se levantam,
esperando a cantiga de tua alma,
que as almas das Cigarras também cantam...
(De Ùltimas Cigarras)
A OVELHA TESMALHADA
A noite abriu, em céu estranho,
para adorá-las e querê-las,
um turbilhão tonto de estrelas,
lindas ovelhas de um rebanho.
O luar — pastor lírico, em breve,
surge e, apontando o seu cajado,
vai por montes e colinas de neve
guiando o rebanho mágico e doirado...
Mas uma ovelha tresmalhada
perdeu-se. O luar, em cólera, se espelha:
— Onde andará aquela ovelha
de olhos verdes, a mais amada,
de boca a mais vermelha?
“Onde andará?...” De serra em serra:
“Onde andará?...” Ansioso, avança,
como um doido pelas alturas...
E ela tranqüila, aqui na terra,
com o nome lindo de Esperança
iludindo e matando as criaturas...
(De Canto de Minha Terra)
RENÚNCIA
Renunciar. Todo o bem que a vida trouxe,
toda a expressão do humano sofrimento.
A gente esquece assim como se fosse
um vôo de andorinha em céu nevoento.
Anoiteceu de súbito. Acabou-se
tudo... A miragem do deslumbramento...
Se a vida que rolou no esquecimento
era doce, a saudade inda é mais doce.
Sofre de ânimo forte, alma intranqüila!
Resume na lembrança de um momento
teu amor. Olha a noite: ele cintila.
Que o grande amor, quando a renúncia o invade<
fica mais puro porque é pensamento,
fica muito maior porque é saudade.
(De Ùltimas Cigarras)
De
CIDADE MARAVILHOSA
(Poema)
2ª edição augmentada
São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1930
[Livro dedicado à cidade do Rio de Janeiro. Conservamos a ortografia original como curiosidade.]
O crepusculo na Quinta da Boa Vista
VI
O crepusculo estende as mãos sobre a paysagem,
Abre os braços num gesto affectuoso de amigo.
Tua saudade vae caminhando commigo,
Humanísada como a tua própria imagem.
Dormem, á fiar do lago, as nymphéas em calma.
De quando em quando uma asa fere a agua dormente.
Por que doe tanto em mim essa tristeza ambiente?
Amôr? Tedio? Renuncia? O pensamento vário
Gira em torno das cousas tristes que me encantam.
Na alma de cada poeta ha um lago solitario
Que sonha ouvindo a voz dos passaros que cantam...
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CONFISSÃO SILENCIOSA
Amo os crepúsculos cinzentos
Caindo sobre as águas estagnadas . . .
Os pinheiros sonolentos
Humanizando a calma das estradas . . .
O infinito, as estrelas longínquas,
O poema que há na dor silenciosa
Dos que querem falar e que se calam :
Amo os teus olhos, amor dos outros,
Porque os teus olhos nunca falam!
A TOADA DA CHUVA
Chove incessantemente . . . Uma garoa
Fina e sutil parece não ter fim.
No ar pardacento uma andorinha voa . . .
E a chuva bate como um tamborim.
Para os seres sem alma a vida é boa,
Para mim que sou triste a vida é ruim,
Pois me falta o calor de uma pessoa
Que é a própria vida boa para mim.
E a chuva continua à toa, à toa . . .
Chuva, por que vives caindo assim?
Será que uma outra força te magoa?
Por que teu choro d’água não tem fim?
Se eu tivesse o calor de uma pessoa,
Seria a vida um sonho para mim.
NAS RUÍNAS DA CASA-GRANDE
A casa-grande é um espelho do passado :
Corroeu-lhe o tempo a pedra do batente
E do que foi solar da minha gente
Resta apenas um escudo brasonado.
Mas, através do paredão gretado,
Ouvem-se ainda na aflição do poente,
Ressonância de vozes e o frequente
Bater das velhas portas do sobrado.
Em cada telha há um gesto de abandono.
A voz que vem de longe das herdades
É a mesma voz que me embalava o sono.
E agora, em plena noite que se expande,
Piam as andorinhas . . . São Saudades
Que dormem no beiral da casa-grande.
Poço da Panela – Recife, 1940.
De
Olegario Mariano
DESTINO
2a. edição aumentada
Rio de Janeiro: Editora Guanabara, 1933.
Obs. mantivemos a ortografia original.
Palavras a um desgraçado
Não procures no céo nenhum conforto
A’ tua dor, que o céo, indiferente,
Ante a miséria do teu corpo morto,
vendo-te triste, ficará contente.
Não procures nas arvores de um horto
Alguma, cuja sombra te acalente.
Deixa que passe o tempo... O desconforto
Irá com o tempo milagrosamente...
Mas se a dôr te pungir com mais crueldade,
Esmaga o coração com a mão crispada
Que emfim terás, num derradeiro alento,
Coragem de morrer sem ter saudade...
Fôrça para a renuncia desejada
ou redenção para o arrependimento.
De
CASTELLOS NA AREIA
Poemas de Olegario Marianno
Rio de Janeiro: Pimenta de Mello, 1923
[Castelos de Areia, Olegario Mariano]
Conservamos a ortografia original na atual reprodução.
MELANCHOLIA
Que dia insipido e enfadonho!
Maldito seja este domingo!
Lá fóra cae a chuva, pingo a pingo...
Cá dentro passa a vida, sonho a sonho...
Fumo e fumaça, no ar parado,
Sóbe ondeando... Eu bem sei.
É um contôrno impreciso, ennevoado,
Humanizando um sonho que eu sonhei...
Fecho os olhos de manso para vel-a
Com os olhos da memoria... A alva fumaça
Se adelgaça num gésto e passa pela
Vidraça
E ganha o parque e vae, diáfana e fina,
Caricia humana, sonho ephemero de amor...
Tem qualquer cousa de menina,
De menina, de passaro ou de flor...
Galga as frondes á chuva, desce ao rio
A´ tona da agua crêspa...
E´um minúsculo insecto luzidio,
Aurilavrada vêspa.
Vôa e revôa aos lyrios, louca,
Passando, em tímido meneio,
Pollen de lyrios para a flôr da boca,
Alvôr de lyrios para o alvôr do seio.
Depois, tonta de vida, ebriada volta
Garatujando ao longe outro roteiro...
Tem cuidado com o vento, fôlha solta,
Fôlha do jasmineiro!
E cresce á proporção que se approxima,
Rompe a distancia á tôa...
E´ uma rima que vôa
De uma Ballada, passaro da rima.
Atravéssa a vidraça...
E agora, erguendo as mãos implorantes por mim,
Ella, que foi sonho e fumaça,
Vae ser cinza e saudade... A vida é assim...
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De
POEMAS DE AMOR E DE SAUDADE
por OLEGARIO MARIANNO
São Paulo: Companhia Editora Nacional, s.d.
Conservamos a ortografia original na atual reprodução.
XII
DO SONHO E DO SOFFRIMENTO
Porque ha de o Sonho ser tão breve,
Durar tão pouco, meu amor?
O Sonho tem o ephemero sabôr
Da phrase que se pensa e não se escreve.
Passa, mas deixa como em cofre
Antigo, de metal lavrado,
Um pouco de perfume do Passado
E um resto de infortunio de quem soffre.
Passa, mas sempre fica a flamma
De uma saudade bemfazeja:
Perfume do pescôço que se beija,
Sombra do corpo da mulher que se ama.
Depois, no fundo da alma doída,
É que sentimos para nós crescer
Essa immensa vontade de morrer
E esse indifferentissimo pela Vida...
Página ampliada e republicada em dezembro de 2008; ampliada outra em julho 2009. ampliada e republicada uma vez mais em maio de 2010.
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