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Sobre Antonio Miranda
 
 


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

POESIA PERNAMBUCANA

Coordenação de Lourdes Sarmento

 

Fonte: www.academia.org.br

 

OLEGÁRIO MARIANO

(1889-1958)

 

 

Olegário Mariano Carneiro da Cunha, poeta, diplomata, deputado federal e constituinte, nasceu em Recife, Pernambuco, Estreou na vida literária aos 22 anos com o volume Angelus, em 1911.  Segundo os biógrafos da Academia Brasileira de Letras, da qual foi membro, “sua poesia lírica é simples, correntia, de fundo romântico, pertinente à fase do sincretismo parnasiano-simbolista de transição para o Modernismo. Ficou conhecido como o "poeta das cigarras", por causa de um de seus temas prediletos

 

Obra literária: Angelus, 1911; Sonetos, 1912; Evangelho da sombra e do silêncio, 1912; Água corrente, 1918; Últimas cigarras, 1920; Castelos na areia, 1922; Cidade maravilhosa, 1923; Ba-ta-clan, 1924; Canto da minha terra, 1930; Destino, 1931; Teatro, 1932; Vida, caixa de brinquedos; O enamorado da vida, 1937; Da cadeira 21, 1938; Quando vem baixando o crepúsculo, 1945; A vida que já vivi,1945; Cantigas de encurtar caminho, 1949; Tangará conta histórias, 1953; Correio sentimental; Toda uma vida de poesia, 2 volumes, 1957.

 

 

PAGANISMO

Sinto às vezes horror do modo diferente

Com que em louca emoção voluptuoso te espio,

Meu suave amor que tens a figura inocente

De um lírio muito branco, um lírio muito frio.

 

Ao meu olfato chega o perfume doentio

Do teu corpo mudado em corpo de serpente:

E através desse aspecto anêmico e sombrio

Meu desejo passeia alucinadamente.

 

Fauno, os olhos boiando em volúpias bizarras,

Quem me dera que tu viesses, na noite escura,

Minha fronte adornar de crótons e de parras,

 

E na calma do bosque onde o meu sonho medra,

Unisses para sempre, entre o amor e a loucura,

Os teus lábios de sangue aos meus lábios de pedra.

 

Angelus (1911)

 

 

A MÃE-D'ÁGUA

Num recanto de parque onde a melancolia

Da tarde estende um véu de saudade e de dor,

Uma água morta jaz, na última luz do dia,

Imota e triste, em seu perpétuo dissabor.

 

Ninféias a oscilar bóiam à tona fria

E do leito lodoso, em súbito rumor,

Sobe, de quando em quando, um choro de agonia

Que vai de folha em folha, e vai de flor em flor.

 

Quando a noite se estende, essa voz continua ...

Cresce cada vez mais e, alongada e comprida,

 Como o vento que encrespa os cabelos da lua,

 

Corre à tona na luz tênue que a sombra espanca ...

— É a Mãe-d'água que chora a saudade da vida

Dentro do coração de um ninféia branca.

 

 

Sonetos (1912)

 

 

NOITE SONORA

 

Anoiteceu. Pelas montanhas veio

Lentamente o crepúsculo caindo ...

O céu, redondo e claro como um seio,

Ficou, de lindo que era, inda mais lindo.

 

O vale abriu-se em pirilampos cheio,

Luzindo aqui, e ali tremeluzindo ...

No regaço da treva, úmido e feio,

A natureza adormeceu sorrindo ...

 

As cigarras, na sombra, se calaram:

As árvores no bosque farfalharam

Na esperança de ouvi-Ias e de vê-las.

 

Caiu de todo a noite quieta ... Agora,

O céu parece uma árvore sonora

De cigarras cantando nas estrelas ...

 

 

Últimas cigarras (1920)

 

 

O SOL QUE CANTA

 

Quando a cigarra canta é o sol que canta.

Por isso o canto dela acorda cedo

E vai rolando com veemência tanta

Que enche as grotas, os campos e o arvoredo.

 

Desce aos vales, penetra na garganta

Da serra e acorda a pedra do rochedo.

Parece que da terra se levanta

Um punhado de pássaros com medo.

 

Em chispas de ouro e vibrações estranhas

Vibram clarins nas notas derramadas ...

Estilhaçam-se taças nas montanhas ...

 

E o sol, seguindo o canto que se alteia,

Deita fogo na poeira das estradas

E põe pingos de luz nos grãos de areia.

 

 

Últimas cigarras (1920)

 

 

DESLUMBRAMENTO

 

É amor? Não sei. Esta intranqüilidade,

Este gozo na dor, esta alegria

Triste que vem de manso e que me invade

A alma, enchendo-a e tornando-a mais vazia;

 

Este cansaço extremo, esta saudade

De uma cousa que falta à vida ... O dia

Sem sol, as noites ermas, a ansiedade

Que exalta e a solidão que anestesia,

 

É amor. Egoísmo de sofrer sozinho,

De as penas esconder do humano açoite,

De transformar as pedras do caminho

 

Em carícias sutis para colhê-las

E andar como um sonâmbulo, na noite,

Escancarando os olhos às estrelas ...

 

 

Canto da minha terra (1930)  

 

 

CIGARRA

 

Figurinha de outono!

Teu vulto é leve, é sensitivo,

Um misto de andorinha e bogari.

Num triste acento de abandono,

A tua voz lembra o motivo

De uma canção que um dia ouvi.

 

Quando te expões ao sol, o sol te impele

Para o rumor, para o bulício e tu, sorrindo,

Vibras como uma corda de guitarra...

É que o sol, quando queima a tua pele,

Dá-te o grande desejo boêmio e lindo

De ser flor, de ser pássaro ou cigarra

 

Cigarra cor de mel. Extraordinária!

Cigarra! Quem me dera

Que eu fosse um velho cedro adusto e bronco,

E tu, nessa alegria tumultuária,

Viesses pousar sobre o meu tronco

Ainda tonta do sol da primavera.

 

Terias glórias vegetais sendo vivente.

Mas um dia de lívidos palores,

Tu, cigarra, que vieste não sei donde,

 

Morrerias de fome lentamente

No teu leito de liquens e de flores

No aconchego sutil da minha fronde.

 

E eu, na dor de perder-te, no abandono,

Sem ter roubado dessa mocidade,

Do teu corpo de flor um perfume sequer,

Morreria de tédio e de saudade...

Figurinha de Outono!

Cigarra que o destino fez mulher!

 

 

Evangelho da Sombra e do Silêncio: versos (1911/1912).

 

 

A VELHA MANGUEIRA

 

No pátio da senzala que a corrida

Do tempo mau de assombrações povoa,

Uma velha mangueira, comovida,

Deita no chão maldito a sombra boa.

 

Tinir de ferros, música dorida,

Vago maracatu no espaço ecoa...

Ela, presa às raízes, toda a vida,

Seu cativeiro, em flores, abençoa...

 

Rondam na noite espectros infelizes

Que lhe atiram, dos galhos às raízes,

Em blasfêmias de dor, golpes violentos.

 

E, quando os ventos rugem nos espaços,

Os seus galhos se torcem como braços

De escravos vergastados pelos ventos.

 

 

Canto da Minha Terra (1930).

 

 

ARCO-ÍRIS

 

Choveu tanto esta tarde

Que as árvores estão pingando de contentes.

As crianças pobres, em grande alarde,

Molham os pés nas poças reluzentes.

 

A alegria da luz ainda não veio toda.

Mas há raios de sol brincando nos rosais.

As crianças cantam fazendo roda,

Fazendo roda como os tangarás:

 

"Chuva com sol!

Casa a raposa com o rouxinol."

 

 De repente, no céu desfraldado em bandeira,

Quase ao alcance da nossa mão,

O Arco-da-Velha abre na tarde brasileira

A cauda em sete cores, de pavão.

 

 

Canto da Minha Terra (1930).

 

 

A VELHA MANGUEIRA

 

No pátio da senzala que a corrida

Do tempo mau de assombrações povoa,

Uma velha mangueira, comovida,

Deita no chão maldito a sombra boa.

 

Tinir de ferros, música dorida,

Vago maracatu no espaço ecoa...

Ela, presa às raízes, toda a vida,

Seu cativeiro, em flores, abençoa...

 

Rondam na noite espectros infelizes

Que lhe atiram, dos galhos às raízes,

Em blasfêmias de dor, golpes violentos.

 

 E, quando os ventos rugem nos espaços,

Os seus galhos se torcem como braços

De escravos vergastados pelos ventos.

 

 

Canto da Minha Terra (1930).

 

 

 




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