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Foto em: http://cenasecoisasdavida.blogspot.com

 

 

JACI BEZERRA

 

 

 

José Jaci de Lima Bezerra  (esse é o nome de batismo),  nasceu em Murici, Alagoas. Foi lançado por César Leal no suplemento literário do Diário de Pernambuco (1966) publicando uma coroa de sonetos a que deu o titulo de Sonetos de Arlequim a Colombina.

 

Escreveu: Romances (1968), Lavradouro (1973), A Onda Construída (Antologia Quíntuplo).

 

"Estações de Viagem" (1975), do poeta Almir Castro Barros, marca a estréia de Jaci Bezerra como editor. No ano de 1979 inicia com Alberto Cunha Melo o movimento das Edições Pirata e, com esse selo, dá início à publicação sistemática de autores de varias gerações e tendências.

 

Por iniciativa de Eugênia Menezes, vê publicado o Livro de Olinda (1982) e, no mesmo ano, escreveu a peça O Galo, premiada no Concurso de Dramaturgia Nelson Rodrigues (Instituto Nacional de Artes Cênicas). Em 1983, escreve e publica o Auto da Renovação.

 

 

 

CANÇÃO

 

Vou plantar na varanda a minha mágoa,

e espero, assim, que a vida a mim esqueça.

Fluídico e sereno como as águas

deixem, vocês, que eu me desapareça.

Vou partir depois disso, prontos tenho

o passaporte e a blusa de emigrante.

Deixem vocês, eu parto como venho

para ser outra vez o que fui antes,

As lágrimas ardendo são estrelas

cintilando no fundo de outro poço.

Vocês não se debrucem para vê-las

que, nelas, acharão só meus destroços

(a canção que inventei de ouvido, inteira,

e as rosas florescendo nos meus ossos).

Não procurem saber dos meus intentos,

peço como um favor, ninguém me ouça,

pois rosário já vem tangendo os ventos

e apaziguando a minha carne moça,

vem molhada de luz, vem sem lamentos,

trazendo um lírio em suas mãos de louça.

Já é chegada a hora da partida,

No meu bolso soluça o coração,

por isso, não liguem muito à vida

que para olhar e ver, trago na mão.

Nem olhem, se ainda me veem, para a ferida

que expõe, aberta, a minha solidão.

Parto rendido e entregue aos meus afetos,

e amigos que não tenho, não terei.

Matei as sempre-vivas do deserto

recusando as canções que não criei.

E descobri, sentindo o amor tão perto,

que nada sou do sonho que inventei.

 

 

 

Extraído de POETAS DA RUA DO IMPERADOR. Recife: Pool, 1986.  Coletânea em homenagem ao Dr. F. Pessoa de Queiroz  e ao jornalista Esmaragdo Marroquim.

De
Jaci Bezerra
ESPÓLIO  
Jaboatão, PE: Editora  Guararapes, 2002.  sanfanado  
gentilmente enviado pelo editor Edson Guedes de Morais


1
Mobiliário Íntimo

As paredes do sótão são feridas
e a noite em flor se agacha entre os seus muro:
é no sótão que o homem empilha a vida
e empilha o tempo que ficou maduro.

No seu interior, por entre pilhas
de tempo e mundo, a saudade cresce
ressuscitando no homem maravilhas
que exceto o homem, ninguém mais conhece.

Às vezes o sótão geme e chora, opresso,
hora em que o homem, voltando ao início,
sente, folheando o tempo nele impresso,
que o sótão respira feito um bicho.

O homem habita o sótão que o habita
e no chão deixa a pátina dos seus passos,
sem saber explicar, quando o visita,
porque no sótão o tempo é sempre intacto.

Nos dias em que o sótão cheira a azedo
e a memória do homem, inchando dói,
o homem, aninhado nos seus feudos,
quer falar mas não acha a sua voz.

O sótão, como o homem, é uma imagem
feita de imagens, no tempo desdobrada:
o homem sabe onde nasce a sua imagem,
porém não sabe em que dia ela se apaga.

Quando, para expurgar a sua angústia,
o homem abre o silêncio e o sótão se abre,
o tempo na memória é luz e música
e, no silêncio, o homem inteiro arde.

A paz desse momento é alada e exata
e resplendendo, sem nódoa e sem ferrugem,
a ternura do homem se desata
e o sótão todo cheira a flor e nuvem.
 


Página publicada em agosto de 2010
 

 

De
Jaci Bezerra
MAR AGOSTO
Jaboatão, PE: Editora Guararapes, 2002.  sanfanado


GRAVANDO MINHA DOR NUMA ÁGUA FORTE

Estendeu no horizonte a cor madura
da sombra que buscou, o tempo antigo,
as paisagens do mar, a lenda impura,
cada vez mais achado e mais perdido
depois, exausto e só, foi à procura
do quadro iniciado e dissolvido
do catavento azul, da rosa escura,
do pranto, da mulher e do gemido
chegou largando as mãos na longa estrada
e abrasado de amor ficou na rua
buscando, em vão, a luz da madrugada
só então foi ternura e foi abraço
a paisagem deixou vazia e nua
para que tantas cores neste espaço?


ESQUECI NO CADERNO A ADOLESCÊNCIA

Para que tantas cores neste espaço?
dormiu no atelier, rasgou a tela
e num gesto de mágoa e de cansaço
sacudiu os pincéis pela janela
correndo do papel fez-se aquarela
na tinta azul-marinho breve traço,
entre as águas do mar, na caravela,
na renda bela e estranha do sargaço
esqueceu a pintura e, flutuando,

contemplou em silêncio o mundo aceso,
ao seu redor a paisagem naufragando
acordou vendo braços, pernas nuas,
e liberto outra vez sentiu-se preso:
saiu e foi andando pelas ruas.


QUERIA AO ME GRAVAR VENCER A MORTE

Saiu e foi andando pelas ruas
só, diante do mundo irrevelado,
antes que a alma se abrisse leve e nua
revelando na tela o rosto amado
a paisagem, agora, era só sua
e no verão da lembrança, desatado,
desenhou, sem que visse, em pânico a lua
no silêncio imprevisto e inesperado
e partiu, e partiu deixando o rosto
esquecido no chão verde-cinzento
entregue e preso na solidão de agosto
levando da viagem, além de espaço,
o corpo envelhecido, sombra e vento,
tela, pincel e tinta sob o braço.

 

(...)

 

Página publicada em outubro de 2009; ampliada e republicada em agosto de 2010

 

 


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