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Sobre Antonio Miranda
 
 


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

GERALDO FALCÃO

 

Poeta pernambucano.

Livros de poesiA: Signos Errantes e O Viajante Anônimo (Ateliê, 1997)

 

“Um conhecimento admirável da língua. Mãos seguras. Sentimento flutuante. Aliterações. Quadros de kierkegaardiano desespero. O monge e o mundo. A redenção e a morte. Há um sopro místico belíssimo que se insinua a cada verso e que constitui a engrenagem de sua máquina poética.  Marco Lucchesi

 

 

ATORMENTADO

 

À noite descerei desfeito em chuva,

em ouro evaporado em meio às chamas,

vou calmo, indiferente à tempestade

que em negros remoinhos se levanta.

Inventarei portais em minha busca,

penetrarei o chão, duro metal,

levo comigo lagos de ternura

que inundarão teu ventre intemporal.

 

Na cidade em que as torres como braços

precipitam-se em busca das estrelas

sob o chão em clarões eu me desfaço

nos clarões de Danae em brasas presa.

 

nas entranhas da terra faz-se aurora

em ouro do teu sexo fecundado,

em ouro eu permaneço, vai embora

um deus por ser divino atormentado.

 

 

MEMÓRIA DA SOMBRA

 

Há um mistério aflorando a intimidade

distante da visão, longe do tato:

transcende o tempo e vence a eternidade,

e segue a caminhar sem rumo exato.

A pele, o chão, a superfície deve

ao grão, ao corpo, a estrela, à sua chama:

Brilho fugaz da vida, acende breve,

se oculta imerso em meio a negra trama.

 

No centro onde o luzeiro instala a corte,

a imóvel noite está encarcerada,

aguarda a queda, a provisória morte

da inteira multidão incendiada.

 

Vêm da noite, dos pontos cardeais,

sacerdote e guerreiro, exibem cruzes

nos punhos das espadas, dos punhais

onde cravadas tremem débeis luzes.

 

Cada corpo, cada astro, cada estrela,

partícula, pedaço ou hemisfério

realça a sua sombra à luz de vela

dissimulando assim o seu mistério.

 

 

A IMÓVEL JORNADA

 

Os rastros que deixei

no chão petrificados

agora que tornei

estão em mim gravados.

Parti, por que não sei

se tudo ao meu redor

comigo era levado:

os sonhos, a paisagem,

o corpo atormentado,

esquinas dos encontros

por gaze separados,

as chamas sobre os dedos,

o peito apunhalado.

No círculo da estrada

eu sigo e estou parado,

não sei a quem procuro

(serei o procurado?).

 

 

ÁLBUM DE RETRATOS

 

Cada forma é circundada
         por paredes, por muralhas
         além dos olhos, espelhos.
         Em peles, plumas e pelos
         mantêm-se a forma velada.

 

O fogo ardendo em silêncio
penetra os olhos, a boca,
encurva os ossos, a sombra.
Chamas ardendo invertidas
e a cada forma transforma
em fantasma de poeira
que habita úteis túneis de ventos.

A tarde acende fogueiras
nas ruas, casas e campos,
no céu o sol se consome
e eu vejo em meu assoalho
estradas por onde andei
uns restos meus calcinados:
são cinzas que ali deixei.

 

 

BARCO SEM MAR E SEM PORTO

Hastes de vidro nos caminhos
por onde descem as serpentes
cerrando anéis de seda e linho
peçonha oculta entre seus dentes.

Aço de espada, ponta, espinho,
arco no azul, lua crescente:
raios de luz em desalinho,
seguindo vou rumo ao poente.

Volta, revolta, céu rasgado,
a estrela, o brilho decepado
cai no lugar onde estou.

E continuo, agora cego,
guiando a nave em que navego
na via que a morte me traçou.

 

 

CONTEMPLAÇÃO DE OLINDA

Nas ruas, nas colinas escavadas
há pedras, há mariscos, há sereias
e casas assentadas nas calçadas
velando o verso escrito sobre a areia.

No sono aceso à luz de uma candeia
eu vejo o mar descendo por escadas
arrastando entre espumas e cadeias
pedaços da cidade espedaçada.

Retenho o tempo em brasa em minhas mãos,
corrente que me atrela à procissão
de mortos, mesmo vivo estando ainda.

A luz guarda lembranças nas colinas,
canções na lua envolta entre as cortinas
do mar que em desespero afoga Olinda.

 

 

Página publicada em fevereiro de 2009

 

 


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