GERALDO FALCÃO
Poeta pernambucano.
Livros de poesiA: Signos Errantes e O Viajante Anônimo (Ateliê, 1997)
“Um conhecimento admirável da língua. Mãos seguras. Sentimento flutuante. Aliterações. Quadros de kierkegaardiano desespero. O monge e o mundo. A redenção e a morte. Há um sopro místico belíssimo que se insinua a cada verso e que constitui a engrenagem de sua máquina poética. Marco Lucchesi
ATORMENTADO
À noite descerei desfeito em chuva,
em ouro evaporado em meio às chamas,
vou calmo, indiferente à tempestade
que em negros remoinhos se levanta.
Inventarei portais em minha busca,
penetrarei o chão, duro metal,
levo comigo lagos de ternura
que inundarão teu ventre intemporal.
Na cidade em que as torres como braços
precipitam-se em busca das estrelas
sob o chão em clarões eu me desfaço
nos clarões de Danae em brasas presa.
nas entranhas da terra faz-se aurora
em ouro do teu sexo fecundado,
em ouro eu permaneço, vai embora
um deus por ser divino atormentado.
MEMÓRIA DA SOMBRA
Há um mistério aflorando a intimidade
distante da visão, longe do tato:
transcende o tempo e vence a eternidade,
e segue a caminhar sem rumo exato.
A pele, o chão, a superfície deve
ao grão, ao corpo, a estrela, à sua chama:
Brilho fugaz da vida, acende breve,
se oculta imerso em meio a negra trama.
No centro onde o luzeiro instala a corte,
a imóvel noite está encarcerada,
aguarda a queda, a provisória morte
da inteira multidão incendiada.
Vêm da noite, dos pontos cardeais,
sacerdote e guerreiro, exibem cruzes
nos punhos das espadas, dos punhais
onde cravadas tremem débeis luzes.
Cada corpo, cada astro, cada estrela,
partícula, pedaço ou hemisfério
realça a sua sombra à luz de vela
dissimulando assim o seu mistério.
A IMÓVEL JORNADA
Os rastros que deixei
no chão petrificados
agora que tornei
estão em mim gravados.
Parti, por que não sei
se tudo ao meu redor
comigo era levado:
os sonhos, a paisagem,
o corpo atormentado,
esquinas dos encontros
por gaze separados,
as chamas sobre os dedos,
o peito apunhalado.
No círculo da estrada
eu sigo e estou parado,
não sei a quem procuro
(serei o procurado?).
ÁLBUM DE RETRATOS
Cada forma é circundada
por paredes, por muralhas
além dos olhos, espelhos.
Em peles, plumas e pelos
mantêm-se a forma velada.
O fogo ardendo em silêncio
penetra os olhos, a boca,
encurva os ossos, a sombra.
Chamas ardendo invertidas
e a cada forma transforma
em fantasma de poeira
que habita úteis túneis de ventos.
A tarde acende fogueiras
nas ruas, casas e campos,
no céu o sol se consome
e eu vejo em meu assoalho
estradas por onde andei
uns restos meus calcinados:
são cinzas que ali deixei.
BARCO SEM MAR E SEM PORTO
Hastes de vidro nos caminhos
por onde descem as serpentes
cerrando anéis de seda e linho
peçonha oculta entre seus dentes.
Aço de espada, ponta, espinho,
arco no azul, lua crescente:
raios de luz em desalinho,
seguindo vou rumo ao poente.
Volta, revolta, céu rasgado,
a estrela, o brilho decepado
cai no lugar onde estou.
E continuo, agora cego,
guiando a nave em que navego
na via que a morte me traçou.
CONTEMPLAÇÃO DE OLINDA
Nas ruas, nas colinas escavadas
há pedras, há mariscos, há sereias
e casas assentadas nas calçadas
velando o verso escrito sobre a areia.
No sono aceso à luz de uma candeia
eu vejo o mar descendo por escadas
arrastando entre espumas e cadeias
pedaços da cidade espedaçada.
Retenho o tempo em brasa em minhas mãos,
corrente que me atrela à procissão
de mortos, mesmo vivo estando ainda.
A luz guarda lembranças nas colinas,
canções na lua envolta entre as cortinas
do mar que em desespero afoga Olinda.
Página publicada em fevereiro de 2009
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