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Sobre Antonio Miranda
 
 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

POESIA PERNAMBUCANA

Coordenação de Lourdes Sarmento




EVERALDO MOREIRA VÉRAS

 

 

É poeta e ficcionista, além de engenheiro. Nasceu em Parnaíba (Piauí), mas reside no Recife há muitos anos. Membro de várias academias, entre elas a de Letras e Artes do Nordeste Brasileiro e a Academia de Artes e Letras de Pernambuco.   Autor de quase 40 livros (até 2007), além de participar de muitas antologias.

 

Escolhemos alguns trechos de sua obra – em verdade, um texto poético de um só fôlego!!, um salmo às avessas — que mereceu  uma Menção Honrosa no Prêmio Casa de las Américas 90 – Poesia, de La Habana, Cuba, de 1998.  

 

 

A INSÔNIA DO MAR

(excertos)

 

 

Oh, Deus, não reserve nada para mim!

Já estou completo:

dores,

amores,

temores.

Não me acrescente:

no túnel não sobra

lugar para nada.

O vão se abriu e a chaga fechou

(por favor, não mexa aí).

Oh, Deus, não reserve nada para mim!

Entregue tudo aos outros

(eles não sabem quem são)

e dependem

e sofrem

e não sentem que sofrem.

Entre todos divida o meu:

em cada prato mais pão,

em cada copo mais vinho.

Oh, Deus, não reserve nada para mim!

Reproduza amanhã

a ceia que vi ao meu redor, hoje.

Transforme o instante

em longa vida,

garantindo luz

e eternizando gestos.

Quero o riso, a alegria e a festa.

Também a mesa farta e grávida.

Faça-se daquele jeito e mais.

Repita-se a noite e sempre.

Cante-se o hino e a prece.

Mas,

Oh, Deus, não reserve nada para mim!

Nesse tempo,

eu mesmo não mereço:

porque o mínimo (embora pouco)

seria injusto.

Oh, Deus, não reserve nada para mim!

 

 

*   *   *

 

Amanhã, certamente morrerei.

Porque logo cedo, hoje, o sol brilhava

e o vento chorava.

Então, refiz o corpo

(a minha carcaça),

muitos parafusos

foram fixos e ajustados.

(Os outros continuam frouxos,

Impossível o reaperto)

Saí por aí

cumprimentando as pessoas,

elas em busca do amor e do encontro.

Eu, não.

Me dominava a certeza

de que eu seguia

a direção especial nortedeusmente

indicada pela luz e

pelo relógio da catedral.

As folhas me contaram estórias

acontecidas ontem de madrugada.

Ignorei-as,

afinal não me interessava

o ruído da máquina esquisita

que não me deixou meditar.

Vi

a paz falsa e retilínea

me abraçando.

Por isso: prepare-se o mundo,

todo cuidado é pouco,

pois estou disposto a tudo.

Afinal de contas, estou bêbedo e

hoje, segundo dizem, é feriado nacional.

 

 

*   *   *

 

 Vou fabricar com as mãos

os poemas.

Escolherei as mais duras palavras,

somente aquelas

que possam destruir

a impassível estátua de pedra

A canção perfeita nascerá,

porque há desordem

ao redor dos homens, nas ruas.

Rasgarei papel e

prepararei tintas

para jogar

contra os olhos dos fantasmas

coxos e cegos.

Ninguém descobrirá

que a produção é humilde:

o demônio contrito a rezar,

pensando

que também

é

filho de Deus.

Ainda não sei quando recomeçarei

a tarefa atormentada de colorir idéias

do jeito que os homens organizam

um banquete para muitas pessoas.

Vou fabricar com as mãos

os poemas.

Não posso garantir o local exato:

sei que está no interior

a dor

(o amor?),

que me perturba e

me persegue.

Logo que o dia desceu da carruagem,

Adivinhei:

Manhã? Tarde? Noite?

Eu sabia: noite, sim,

porque somente

o

escuro protege o que verdadeiro

é.

Agarro

o que me percorre

como o vento,

eis a primeira perdição.

As luzes cochilam, tremendo

frente ao inimigo

sozinho descansando

(eu mesmo).

Não há possibilidade

de a crise diminuir.

Estou à procura do remédio,

o peito segura e esconde a angústia.

Infelizmente,

o motim é do lado esquerdo.

(E lá, não tenho nenhuma ingerência!)

 

 

Extraídos de VÉRAS, Everaldo Moreira.  A INSÔNIA DO MAR.  Recife: Edições Sarev, 1999.  102 p.

 



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