Fonte: www.travessadoseditores.com.br
DEBORAH BRENNAND
A poesia brasileira inclui mulheres que elevam a língua portuguesa com apuramento formal e sensível: Stella Leonardos, Astrid Cabral, Adélia Prado, Lina Tâmega, Olga Savary, Lara Lemos e as já mortas Cecília Meireles, Gilka Machado, Zila Mamede, Maria Braga Horta, Cora Coralina, Isabel Vilhena, Helena Kolody, Hilda Hilst, Dora Ferreira da Silva, Marly de Oliveira, Orides Fontela e, claro, as célebres Adalgisa Nery e Henriqueta Lisboa.
Em Pernambuco, terra de muitos e muitos poetas, outra mulher de poesia elegantíssima vem como a claridade do dia revelar os cravos e a liberdade que fazem a vida ou mesmo o amor. Deborah Brennand estreou com O punhal tingido ou O livros de horas de Dona Rosa de Aragão, em 1965, o ano em que surgiu no Recife um grupo de poetas jovens (Alberto da Cunha Melo, Janice Japiassu, Marcus Acioly, Carlos Cordeiro, Jaci Bezerra, Ângelo Monteiro) que se autodenominaram Geração 65.
Agora, aos 80 anos, Deborah Brennand assumiu uma cadeira na Academia Pernambucana de Letras.
É dolorosa e ao mesmo tempo forte a leitura de Deborah Brennand, no entanto, é igualmente mágico parar sobre seus versos e sentir a metáfora que emociona e, mais que isso, encanta. Outros dos seus livros: Noites de Sol ou As Viagens do Sonho, O cadeado Negro, Pomar de Sombras, Claridade, Maçãs Negras, Letras Verdes.
Apresentação e seleção de
Diego Mendes Sousa
PRISÃO
Vencendo muros de pedras
Flameja do sol o brasão
Ó real castelo em dia aceso,
Ó ruivas folhas do soberano verão
Ó tempo não apertes a corrente
Do meu sonho já agonizante
Crestada é a terra e perto
Deságua um rio de sangue
Na pastagem morta
Do meu coração
CRUEL MENSAGEM
Morto foi o sonho de um jardim
Por um verão servil, de cruel mensagem
E eu vi raízes, a vida agonizando,
Na lâmina acesa de um punhal.
Os musgos, as heras, as papoulas,
Manchavam a grama seca.
E lírios, junto ao sangue das rosas,
Magoados eram o pasto
De cavalos alheios e famintos.
IGUAL A MÃO
Velhas cortinas de renda
Por sonhos bordando brasões
Agulhas trançaram ouro e linha
Em sombras fugazes de flores
Fantasmas de um morto verão.
Cobrindo vidraças, embaçando a vida,
Escondes desvarios, alucinações,
Olhares perdidos de condessas
Caminhos ocultos na distância
E o vento forte, agitando o pano
Com a rudeza de sua mão.
SEMPRE
Assim, além da cerca, eu espero,
O quê? Não sei. Espero.
Embora só o vento chegue
todo arranhado, em gemidos,
caindo e já sem sentidos
Jogue aos meus pés as folhas secas.
DE AMARELO
Hoje devo me vestir de amarelo:
espantar os olhos negros da solidão,
tal a luz do girassol de ouro dourado
que abre pétalas iluminando nuvens.
Quem saberá (nem ela mesma) o artifício
usado para enganá-la? Sonhos? Jardins?
Não digo. Hoje me visto de amarelo
e vou, nos ramos, entoar da ave o canto.
Quero espantar olhos de solidão
que vem das grutas e abandona montes
para comer a relva rubra do meu coração.
Mas hoje, de amarelo, espantarei a fera
Fugindo, à procura de outra vítima:
Quem sabe, a mata?
NÃO É CRIME
O degredo das flores
da umidade da mata
para uma varanda acesa
em arcos verdes
É permitido.
Atar os ramos em sombras?
e desatá-los na colina
ou varrer as cinzas de fogueiras
Na clara tarde de março
Ainda, ainda
Mas aquele pássaro voltando
querendo entrar na gaiola
já do lado de fora, do lado das rosas
é uma afronta às nuvens e à brisa.
Assim, matá-lo não é
Crime.
Página publicada em junho de 2008. Publicado originalmente no jornal O BEMBÉM. Parnaíba, PI, 2008.
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