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Sobre Antonio Miranda
 
 


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

CARLOS PENA FILHO

(1930-1960)

 

Nasceu e faleceu no Recife em 1930. Publicou O Tempo da Busca, em 1952; c Memórias do Boi Serapião, com ilustrações de Aloísio Magalhães, edição Gráfico Amador, Recife, 1956; A Vertigem Liicida, edição da Secretaria de Educação e Cultura de Pernambuco, 1958 e Livro Geral, edição da Livraria São José, 1959.

 

Maysa, a musa da bossa nova, gravou a canção “A mesma rosa amarela”, de sua autoria em parceria com o grande Capiba.

 

Faleceu vítima de um terrível acidente automobilístico.

 

SONETO OCO

Neste papel levanta-se um soneto,
de lembranças antigas sustentado,
pássaro de museu, bicho empalhado,
madeira apodrecida de coreto.

De tempo e tempo e tempo alimentado,
sendo em fraco metal, agora é preto.
E talvez seja apenas um soneto
de si mesmo nascido e organizado.

Mas ninguém o verá? Ninguém. Nem eu,
pois não sei como foi arquitetado
e nem me lembro quando apareceu.

Lembranças são lembranças, mesmo pobres,
olha pois este jogo de exilado
e vê se entre as lembranças te descobres.

 

 

DESMANTELO AZUL

 

Então pintei de azul os meus sapatos 

por não poder de azul pintar as ruas

depois vesti meus gestos insensatos 

e colori as minhas mãos e as tuas

 

Para extinguir de nós o azul ausente

e aprisionar o azul nas coisas gratas

Enfim, nós derramamos simplesmente

azul sobre os vestidos e as gravatas

 

E afogados em nós nem nos lembramos

que no excesso que havia em nosso espaço

pudesse haver de azul também cansaço

 

E perdidos no azul nos contemplamos

e vimos que entre nós nascia um sul

vertiginosamente azul: azul.

 

 

MEMÓRIAS DO BOI SERAPIÃO

 

         A Aloísio Magalhães e José Meira

 

Este campo,

vasto e cinzento,

não tem começo nem fim,

nem de leve desconfia

das coisas que vão em mim.

 

 

Deve conhecer, apenas

(porque são pecados nossos)

o pó que cega meus olhos

e a sede que rói meus ossos.

 

No verão, quando não há

capim na terra

e milho no paiol

solenemente mastigo

areias, pedras e sol.

 

Às vezes, nas longas tardes

do quieto mês de dezembro

vou a uma serra que sei

e as coisas da infância lembro:

 

instante azul em meus olhos

vazios de luz e fé

contemplando a festa rude

que a infância dos bichos é ...

 

No lugar onde eu nasci

havia um rio ligeiro

e um campo verde e mais verde

de um janeiro a outro janeiro

 

havia um homem deitado ­

na rede azul do terraço

e as filhas dentro do rio

diminuindo o mormaço.

 

Não tinha as coisas daqui:

homens secos e compridos

e estas mulheres que guardam

o sol na cor dos vestidos

 

 

nem estas crianças feitas

de farinha e jerimum

e a grande sede que mora

no abismo de cada um.

 

Havia este céu de sempre

e, além disto, pouco mais

que as ondas nas superfícies

dos verdes canaviais.

 

Mas, os homens que moravam

na língua do litoral

falavam se desmanchando

das terras gordas e grossas

         daquele canavial     

 

e raras vezes guardavam

suas lembranças mofinas

as fumaças que sujavam

os claros céus que cobriam

as chaminés das usinas.

 

Às vezes, entre iguarias,

um comentário isolado:

a crônica triste e curta

de um engenho assassinado.

 

Mas logo à mesa voltavam

que a fome bem pouco espera

e os seus olhos descansavam

em porcelanas da China

e cristais da Baviera.

 

Naquelas terras da mata

bem poucos amigos fiz,

ou porque não me quiseram

ou então porque eu não quis.

 

Lembro apenas um boi triste

num lençol de margaridas

que era o encanto do menino

que alegre o tangia para

as colinas coloridas.

 

Um dia, naquelas terras

foi encontrado um boi morto

e os outros logo disseram

que o seu dono era o homem torto

 

que em vez de contar as coisas

daqueles canaviais

vivia de mexericos

"entre estas índias de leste

e as Índias Ocidentais".

 

.A verde flora da mata

(que é azul por ser da infância)

habita: os meus olhos com

serenidade e constância.

 

Este campo,

vasto e cinzento,

é onde às vezes me escondo

e envolto nestas lembranças

durmo o meu sono redondo,

 

que o que há de bom por aqui

na terra do não chover

é que não se espera a morte

pois se está sempre a morrer:

 

Em cada poço que seca

em cada árvore morta

em cada sol que penetra

na frincha de cada porta

 

em cada passo avançado

no leito de cada rio

por todo tempo em que fica

despido, seco, vazio.

 

Quando o sol doer nas coisas

da terra e no céu azul

e os homens forem em busca

dos verdes mares do sul.

 

só eu ficarei aqui

para morrer por completo,

para dar a carne à terra

e ao sol meu branco esqueleto,

          

nem ao menos tentarei

voltar ao canavial,

pra depois me dividir

entre a fábrica de couro

e o terrível matadouro municipal.

 

E pensar que já houve um  tempo

em que estes homens compridos

falavam de nós assim:

o meu boi morreu

que será de mim?

 

Este campo,

vasto e cinzento,

não tem entrar nem sair

e nem de longe imagina

as coisas que estão por vir,

 

e enquanto o tempo não vem

nem chega o milho ao paiol

solenemente mastigo

areia, pedras e sol.

 

            De Livro Geral. Rio de Janeiro: Livraria São Rio, 1959 

 



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