TASSO DA SILVEIRA
(1895-1968)
Poeta e escitor curitibano (Paraná, Brasil). Formado em Direito, no Rio de Janeiro. Considerado um dos representantes da ala espiritualista do modernismo, ao lado de Cecília Meireles e Tristão de Ataíde. Pertenceu ao grupo da Revista Festa, da qual foi um dos fundadores. Estreou como poeta com Fio d'Água, em 1918. Somente a partir do terceiro livro — Alegorias do Homem Novo—, em 1926 é que adere ao verso livre.
TEXTOS EM PORTUGUÊS / TEXTOS EN ESPAÑOL
EFEITO DE LUZ
Sob o silêncio que flutua,
no crepúsculo
a angra é um espelho de cristal.
De súbito, porém, rompendo a superfície polida,
como um brusco
reflexo,
o peixe prateado e liso
pula no ar
em esplêndido, caracoleia no crepúsculo
e retomba no seio da água adormecida,
que, sonhando, o supõe numa chispa de luar...
(As Imagens Acesas, 1928)
Comentário: “Uma visão impressionista da realidade predomina no poema, onde o autor procura captar imagens de luz e cor. A velocidade rítmico-expressional dos versos se ajusta bem à temática, em estrofes livres e rimos variados, apesar do alexandrino que aparece no final do poema.” Leodegário A. De Azevedo Filho
TORRE
Os ventos altos
vindos das distâncias perdidas
bateram a torre do meu corpo.
Bateram a torre esguia e longa
e puíram-lhe os ornamentos raros,
desfiguraram-lhe a feição de beleza,
como o mar milenário
desastou as arestas vivas dos rochedos
imemoriais.
Não apagaram, porém, a lâmpada
solitária e serena
que ardia no silêncio...
e os meus olhos, rosáceas claras, abertas
para a paisagem
do teu ser,
ficaram coando sempre o clarão suave e leve,
ficaram adolescentes
para sempre...
(Alegria do Mundo, 1940)
Comentário: “O tema da torre é freqüente na poesia de Tasso da Silveira, simbolizando um movimento em direção ao infinito. (...) Como se percebe, mesmo nos poemas em que o amor carnal se transforma em tema básico, o influxo espiritualista é sempre a seiva dos versos. Como no resto de sua poesia, o pensador não domina o poeta, apesar das raízes filosóficas e religiosas de sua motivação estética.” Leodegário A. De Azevedo Filho
SEM TÍTULO
Do fundo do crepúsculo,
O vento tombou como uma ave ferida
Sobre os tufos e as palmas verdes
do dormente jardim.
Bateu, raivoso, as possantes asas,
rodopiou exasperado
entre as frondes em pânico.
E miraculosamente recompondo
o perdido equilíbrio,
em brusco, violento arranco
ergueu vôo outra vez para o espaço sem fim...
(Contemplação do Eterno, 1952)
Comentário: “Na utilização estética do sistema lingüístico, Tasso da Silveira sabe tirar efeito artístico adequado à temática de seus poemas. São múltiplos os recurso de estilística fônica, mórfica, sintática e semântica aí existentes. O efeito de essência profunda, espécie de temática central em sua poesia, logo transparece no primeiro verso, quando o vento vem do fundo do crepúsculo.(...) Toda a idéia dinâmica de uma movimentação brusca e violena nos é sugerida pela própria linguagem.” Leodegário A. De Azevedo Filho
SEM TÍTULO
O fogo é pura adoração.
Quando mãos insidiosas
o ateiam
na seara florescente
ou na choupana humilde
ou no palácio fastigioso
ou no flanco da montanha,
ele ignora o gesto de pecado
de que nasceu.
E se ergue límpido e inocene
para Deus.
(Contemplação do Eterno, 1952)
Comentário: “O tema da purificação pelo fogo aparece algumas vezes na poesia de Tasso da Silveira. Do mesmomodo que o tema da torre, subindo para o céu, exprime um anseio de espiritualidade, o tema do fogo também revela a busca de Deus. O fogo é sinônimo de adoração e se ergue, límpido e inocene, para o infinito.” Leodegário A. De Azevedo Filho
CANÇÃO
Quando a alta onda de poesia
veio do arcano profundo,
no pobre e efêmero mundo
o eterno pôs-se a pulsar.
Vidas se transfiguraram,
permutaram-lhe destinos.
O azul se fez mais etéreo,
Estradas mais se alongaram,
silêncio cantou na aldeia
sino ficou a escutar,
moeu trigo a lua cheia,
lampião de rua deu luar,
a água mansa da lagoa
ergueu-se em repuxo límpido
e se esqueceu de tombar,
alvas estrelas em bando
desceram lentas pousando
sobre a terra e sobre o mar.
(Regresso à Origem, 1960)
Comentário: “Em vrsos de redondilha maior, os mais espontâneos de nossa língua, nesta canção o poeta se transforma em receptor de poesia eterna. Logo nos primeiros versos, o efeito de essência profunda se exprime através da alta onda de poesia que vem do arcano profundo, pulsando de vida espiritual.” .” Leodegário A. De Azevedo Filho
OS CAVALOS DO TEMPO
Os cavalos do tempo são de vento.
Têm músculos de vento,
nervos de vento, patas de vento, crinas de vento.
Perenemente em surda galopada,
passam brancos e puros
por estradas de sonho e esquecimento.
Os cavalos do tempo vão correndo.
Vêm correndo de origens insondáveis,
e a um abismo absoluto vão rumando.
Passam puros e brancos, livres, límpidos,
no indescontínuo imemorial esforço.
Ah! são o eterno atravessando o efêmero:
levam sombras divinas sobre o dorso...
(Regresso à Origem, 1960)
Comentário: “A problemática do tempo se refleta na poesia de Tasso da Silveira como resultante de uma ação divina. Assim, o tempo é uma espécie de fluir contínuo do seio da eternidade. Poesia do eterno no efêmero, os cavalos do tempo levam sombras divinas sobre o dorso, em sua perene e surda galopada.” Leodegário A. De Azevedo Filho
Poemas e textos extraídos da obra POETAS DO MODERNISMO, vol. 4. Edição comemorativa dos 50 anos da Semana de Arte Moderna de 1922. Brasília: Instituto Nacional do Livro, 1972.
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TEXTOS EN ESPAÑOL
De
9 POETAS DEL BRASIIL
una antología de Enrique Bustamante y Ballivian.
Lima: Centro de Estudios Brasileños, 1978
109 p.
PIEDAD
No pienses: "Nunca hice bien
a nadie,
ni di al mundo el más fugitivo instante de belleza".
Acaso, cuando en tu miseria profunda
atravesabas la floresta densa, por la noche,
no encendiste una hoguera?
Pues a esa hora todos los astros se inclinaron sobre la llama perdida
y los árboles tuvieron un palpitar largo y conmovido, y soñaron ...
... Y, a la distancia, quién sabe si algún caminante cansado no sonrió
de alegría al ver iluminada dentro de la noche densa, la pequeñita lámpara distante.
LA LLAMA
El día todo,
como una llama,
la urbe convulsa ardió.
Ardió como una gran llama trémula al viento.
Ardió de sueño y de deseo,
de ambición y de agonía,
al ritmo brusco y trepidante
de la lucha heroica y vana . . .
Y, cuando vino la noche, exhausta
adormeció . . .
Y ahora, de su gran cuerpo abatido
se desprende el silencio hacia la altura.
El infinito silencio . . .
El silencio infinito,
pero todavía tan lleno
de fluidos vivos de pasión
y de cansancio y desesperanza,
que más parece, erguida hacia la altura.
una invisible llama,
una llama de sombra y de aflicción.
NOCTURNO
Como el puerto quedó vacío, bajo la noche,
los vientos lo abandonaron
y fueron a buscar a lo lejos las velas trémulas.
Y las lámparas del muelle se inclinaron conmovidas.
para ver a las estrellas deslumbrantes
que cayeron todas dentro del mar . . .
EL MOMENTO DIVINO
Cuando el crepúsculo cayó
fue que notaste que las cosas todas son infinitas.
Cuando el silencio te envolvió,
fue que sentiste las pulsaciones todas de tu ser . . .
Soñaste entonces
que la sangre te batía en las arterias
aun bajo el impulso primordial
del Instante de la Creación . . .
Y que tu pecho jadeaba
aun bajo el cansancio
de las migraciones de los pueblos ancestrales . . .
Y te pareció que llegabas del fondo de los tiempos
como un esplendor de las generaciones innumerables
que viniese explorando la senda indefinida,
y al fin de la jornada
trajese, todavía, en los ojos,
la misma interrogación ansiada
de la partida . . .
Y te pareció que respirabas
al ritmo de las mareas crecientes.y vaciantes,
al ritmo de las montañas,
al ritmo del palpitar de la Tierra toda,
cuando más pesa en ella por la noche
la mudez del cielo ardiendo en astros! . . .
Página publicada em dezembro de 2007; ampliada e republicada em janeiro de 2011. |