SABRINA LOPES
Nasceu em Curitiba, 1978. Publicou poemas nas revistas Alforja (México), Medusa e Babel, no jornal Rascunho e no livro Passagens – poetas contemporâneos do Paraná. Escreveu a peça Perca a vida para o verão junto ao grupo Gabinete de Curiosidades. Desenvolveu pesquisas sobre feminismo e teoria queer durante o curso de Ciências Sociais (UFPR), e, posteriormente, feminismo e justiça ambiental, na secretaria da Rede Brasileira de Justiça Ambiental (2005-2006).
Atualmente reside em Curitiba e mantém o blog www.lopessabrina.blogspot.com
o pai e a mãe fazem sexo
é só mais um momento do dia
em que os dois se machucam mutuamente
Aída me inutilizou para o trabalho
Prefiro um Oriente mistificado
em que o amor equivalha a um crime de guerra
à contabilidade das paixões
que é preciso esquecer rápido pra demonstrar saúde
Dezenove, nenhuma
arrancou um solo da voz presa
que não alcança uma oitava
Bilhetes de cinco linhas
não há deuses para trair
nem sacerdotes a nos enterrar vivos sob o altar
desconstruímos o que percebemos
enlouquecemos, meninas-lobo não copulam
(sonhei que os poetas mijávamos de pé, lado a lado,
e um deles fazia bonitas insinuações, comovido,
após me ver sentada sobre o vaso)
*********
O que ele foi, não importa - não se procura,
aberto o freezer, saliva no gelo.
O fantasma é vento
que se esconde nos móveis;
é a imagem que se oculta atrás
do rosto cauteloso no espelho
Ele mora em algum ponto no caminho
entre o interruptor e a sua cama
Por isso a fogueira
a vigília dos leões é uma desculpa
Os adultos também sabem que fantasma
é antônimo de luz
Mas ninguém estranha
que se escondam na tela
quando vão, de lençóis brancos, ao cinema.
NÃO SE RETÉM
Perguntaram o nome de alguém, que disse:
“Todos”.
Tinha olheiras e um sorriso,
cachos
e peso, tão aguardado, sobre meu corpo.
Duas pessoas em descanso
Uma tinha um metro e cinqüenta
Nunca chamada no diminutivo
Sem dramas. Há suavidade
a um certo momento do dia
que não conseguimos reter, e eu nem tento
É como querer sair correndo num pátio
de cachorros desconhecidos
Querer, e não evitar
que o desejo chegue ao corpo
adoentando o corpo
que não quer ser mordido, e por isso
não corre.
Eu posso não me desculpar por ter sido o cão?,
de alguém que não conheci
mas senti profundamente
(corria sem olhar as estacas)
no que temos e, raramente,
temos juntos.
São afinal nossos cães e
não as nossas mães,
que conhecem
o gosto da nossa carne.
MORTE (CARTILAGEM)
São relicários, caixinhas
disse Jane
para guardar pequeninas orelhas
de pares de enamorados
colhidas por bandeirante
que as tem como flores secas
Resquícios negros de negras flores
úmidos contatos, cogumelos
guardados em Agnus Dei
feito para pescoço de ouro
Como santa
a amante resseca mas não apodrece uma rosa escura nasceu em seu peito
está empalhada
numa igreja em Roma
com os cardeais, que também amaram?
Para pessoas delicadas
vidas para dar de presente
E estáticos, inanimados
caixõezinhos para pequenos corpos
corpos da Índia para o nosso chá
nenhum pêlo em toda a superfície
o vento nos ossos
todo ano aqui
cidade abandonada
a aspereza delicada
da tua pele partida
oh tu que eu teria amado!
tu que o sabias!
que coisa, uma família inteira
de loucos, acomodados
na própria loucura, cada um
julgando ser o rebelde:
"deixei o catolicismo mais ou menos quando
minha irmã espancava o meu avô inválido".
corriqueiro,
sua indiferença era mentira,
e minha mão contou que eu sabia disso, ao tocá-lo.
duas semanas depois me encontrou
teve que me cumprimentar e disse:
"oi, menininha"
eu já não tinha mais graça nenhuma.
(o texto da terceira estrofe foi copiado de "A uma passante")
|