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Sobre Antonio Miranda
 
 


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

SABRINA LOPES

 

 

Nasceu em Curitiba, 1978. Publicou poemas nas revistas Alforja (México), Medusa e Babel, no jornal Rascunho e no livro Passagens – poetas contemporâneos do Paraná. Escreveu a peça Perca a vida para o verão junto ao grupo Gabinete de Curiosidades. Desenvolveu pesquisas sobre feminismo e teoria queer durante o curso de Ciências Sociais (UFPR), e, posteriormente, feminismo e justiça ambiental, na secretaria da Rede Brasileira de Justiça Ambiental (2005-2006).

Atualmente reside em Curitiba e mantém o blog www.lopessabrina.blogspot.com  

 

o pai e a mãe fazem sexo

é só mais um momento do dia

em que os dois se machucam mutuamente

 

Aída me inutilizou para o trabalho

Prefiro um Oriente mistificado

em que o amor equivalha a um crime de guerra

à contabilidade das paixões

que é preciso esquecer rápido pra demonstrar saúde

Dezenove, nenhuma

arrancou um solo da voz presa

que não alcança uma oitava

Bilhetes de cinco linhas

não há deuses para trair

nem sacerdotes a nos enterrar vivos sob o altar

desconstruímos o que percebemos

enlouquecemos, meninas-lobo não copulam

 

(sonhei que os poetas mijávamos de pé, lado a lado,

e um deles fazia bonitas insinuações, comovido,

após me ver sentada sobre o vaso)

 

*********

O que ele foi, não importa - não se procura,
aberto o freezer, saliva no gelo.
O fantasma é vento
que se esconde nos móveis;
é a imagem que se oculta atrás
do rosto cauteloso no espelho
Ele mora em algum ponto no caminho
entre o interruptor e a sua cama
Por isso a fogueira
a vigília dos leões é uma desculpa
Os adultos também sabem que fantasma
é antônimo de luz
Mas ninguém estranha
que se escondam na tela
quando vão, de lençóis brancos, ao cinema.
  

 

NÃO SE RETÉM

 

Perguntaram o nome de alguém, que disse:

“Todos”.

Tinha olheiras e um sorriso,

cachos

e peso, tão aguardado, sobre meu corpo.

Duas pessoas em descanso

Uma tinha um metro e cinqüenta

Nunca chamada no diminutivo

 

Sem dramas. Há suavidade

a um certo momento do dia

que não conseguimos reter, e eu nem tento

 

É como querer sair correndo num pátio

de cachorros desconhecidos

Querer, e não evitar

que o desejo chegue ao corpo

adoentando o corpo

que não quer ser mordido, e por isso

não corre.

Eu posso não me desculpar por ter sido o cão?,

de alguém que não conheci

mas senti profundamente

(corria sem olhar as estacas)

no que temos e, raramente,

temos juntos.

São afinal nossos cães e

não as nossas mães,

que conhecem

o gosto da nossa carne.

 

 

 

MORTE (CARTILAGEM)

 

São relicários, caixinhas

disse Jane

para guardar pequeninas orelhas

de pares de enamorados

colhidas por bandeirante

que as tem como flores secas

Resquícios negros de negras flores

úmidos contatos, cogumelos

guardados em Agnus Dei

feito para pescoço de ouro

Como santa

a amante resseca mas não apodrece uma rosa escura nasceu em seu peito

está empalhada

numa igreja em Roma

com os cardeais, que também amaram?

Para pessoas delicadas

vidas para dar de presente

E estáticos, inanimados

caixõezinhos para pequenos corpos

corpos da Índia para o nosso chá

nenhum pêlo em toda a superfície

 

 

o vento nos ossos

todo ano aqui

cidade abandonada

 

a aspereza delicada

da tua pele partida

 

oh tu que eu teria amado!

tu que o sabias!

 

que coisa, uma família inteira

de loucos, acomodados

na própria loucura, cada um

julgando ser o rebelde:

"deixei o catolicismo mais ou menos quando

minha irmã espancava o meu avô inválido".

corriqueiro,

 

sua indiferença era mentira,

e minha mão contou que eu sabia disso, ao tocá-lo.

duas semanas depois me encontrou

teve que me cumprimentar e disse:

"oi, menininha"

eu já não tinha mais graça nenhuma. 

 

 

 

(o texto da terceira estrofe foi copiado de "A uma passante")

 




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