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Sobre Antonio Miranda
 
 


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

RODRIGO GARCIA LOPES


 

RODRIGO GARCIA LOPES

 

 

Poeta e tradutor, nasceu em Londrina (PR), em 1965. E mestre em Artes pela Arizona State University e doutor em Letras/Inglês pela Universidade Federal de Santa Catarina. Integrou as antologias Arfes e ofícios da poesia (Artes e ofícios, Porto Alegre, 1990), Outras praias (Iluminuras, 1998) e Esses poetas (Aeroplano, 1998). Publicou os livros de poemas Solarium (Iluminuras, 1994), Visibilia (Sette Letras, 1997) e Polivox (Azougue Editorial, 2002). Publicou Sylvia Plath — poemas (Iluminuras, 1991) e Iluminuras (gravuras coloridas), de Rimbaud (Iluminuras, 1994), ambos em parceria com Maurício Arruda Mendonça, e também Vozes e visões —panorama da arte e cultura norte-americanas hoje (Iluminuras, 1996), com entrevistas com poetas, críticos e artistas plásticos dos EUA. Foi um dos editores da revista Medusa, e hoje edita a revista Coyote, com Ademir Assunção e Marcos Losnak. Em 2001, lançou o CD de música e poesia Polivox.

 

Veja: BIOGRAFIA AMPLIADA E ATUALIZADA E A  FORTUNA CRÍTICA DO AUTOR

 Ver TEXTOS EN ESPAÑOL


  • De
    Rodrigo Garcia Lopes
    NÔMADA
    Rio de Janeiro: Lamparina Editora, 2004.  168 p.  21x21 cm 
    ISBN  85-98271-09-8

 

ARS POETICA

Precisa dizer.
Como um celofane que se desa-
massa.
Não como certas músicas baratas
baldas que não dizem nada
fazendo companhia para o som do ar-
condicionado.
Ir na veia, sendo suas únicas velas, salvo a possessão.
Vogara fora da voga.
Seita excêntrica?
Post-mortem ismo?
Não é moda: não precisa de marketing
pra dizer a que veio.
Veio, e veio só, na cilada da noite.

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 c:/polivox.doc

 

“Para mim tudo se desintegrava em partes, estas partes em outras partes; nada mais seria abarcado por uma idéia só. Palavras isoladas flutuavam à minha volta; elas se solidificavam em olhos que me encaravam e dentro dos quais eu era forçado a olhar de volta-redemoinhos que me davam vertigem e, girando incessantemente, me levavam para dentro do vácuo”

     

                                                                   Hugo von Hofmannsthal

                                                                    

                       “corte as linhas de palavras”              

                                                                   William S. Burroughs

 “Um pouco de ruído, o menor elemento do acaso, transforma um sistema ou ordem em outro”

                                    

      Michel Serres 

On-line.  Psiu: “Épico é poema
contendo história”.  Demais.

“E se um Plano de Saúde

Pudesse expressar

sua

Individualidade?

Você não é como todo mundo.

Sua individualidade é algo que gostamos

e entendemos. Também sabemos que

seu seguro tem que ser

importante para você. Ele também

é importante para nós.      Enquanto

isto,                   flores

falsas, carniça, neve

negra. “Eu não procuro o que eu acho”.

Linguagem escapa:

- Desde quando oceano

É Céu? Acesso negado. 

PARA MUITOS, TEMPESTADES ALÉM DA COMPREENSÃO /“...viram tornados

jogarem seus carros como brinquedos e vacas voando nos quintais…”. Este, o Sonho Americano. Pétalas de chuva, postal estranho,

bilhete em esperanto

obscuro -  do Além: Cézanne: “A

paisagem pensa a si mesma

através de mim. Eu sou sua consciência”. Livros mudos, o vermelho das

árvores se alastra em frases falsas, e o deserto devora o tempo.

Shift.

O que faz de Dell

a escolha ideal? Dell

sempre almeja lhe oferecer

a perfeita combinação de potência, performance,

e preço. QuANto MAis pERtO o-

LhAMos PaRa UMa pAlAvRra

mAioR a DiStâNciA cOm QuE ElA

nOs eNCara. Todos os direitos reservados @

Deixe sua mensagens após o bip.

Cerejas amargas: antes, flores.

“Se um leão pudesse falar

ele não entenderia o que rugimos”.

Ideologia é linguagem vestida de transparência.

Megaugnil : devagar eu te direi quem és. Remédio ou veneno.

O homem não é contemporâneo de sua origem.

Aumentemos o volume da linguagem.

Esta página está em construção. Zip! Ninguém escuta pensamentos como aqui. Agora

você não precisa mais de mim, agora forma

é uma extensão do conteúdo. Bapel.

Nadar

nesta espuma, virgem verso, pampa nevado com paredes negras.

“Poesia é a suprema realidade virtual, menina”.

Mundo. Mudo. No qual entramos des-

nudos.

Assim termina o mundo

não com um tiro

mas sem um sentido.

A resistência dos materiais. “Isto

vai doer mais em mim do que em você”.

A frase está fora de foco.

“Ao dissecar, a matamos”.

“Dor é impossível de se descrever”

A dança do duende entre a floresta de signos.

“Se sempre escrevessemos a não ser

o que já foi entendido

o campo do conhecimento

nunca seria extendido”. O tempo virou, esta

página-(de pangere, prender, fixar, ligar)-manhã. Mesmo porque,

 “uma dúvida que duvidasse de tudo não seria mais

uma dúvida”. E

o que muda depois de tudo. Muda,

depois de tudo. A dança do duende

entre a floresta de signos. Madame Yahoo,

não há nada épico em acender um cigarro:

ou talvez sim, como o gesto heróico de

abrir a porta e retirar o lixo. “O difícil é conseguir

saltar o muro”. Esta linha de mentira.

O hímem está testando a memória extendida.

Um banho quente é a conquista do Egito.

Quem disse isso?  Fui

teu amuleto no meio do tumulto:

te protegi da guerra, deusa -

Eu era a lâmina afiada na mão de Thoth

no meio do tumulto.

A queda da caneta no carpê é uma aurora de outono.

Céus de cristal líquido.

Limalhas de ferro formam uma rosa imantada.

Restos de conversas são nossas profecias.

Um  beijo é a conquista do Egito.

A cada manhã, é preciso remexer o cascalho para alcançar,

debaixo dele, de repente,

a semente viva e quente.

Vox, Vak, vácuo. Vai  ver, o homem

não é contemporâneo de sua origem.

A miragem não é contemporânea de sua imagem.

Aumentemos o volume da linguagem.

Nas matinês americanas nos ensinam a assistir um filme

no velho estilo: em silêncio.

Com tempo, nos tornamos

Invisíveis:

Sub verborum tegmine vera laten, ou

por trás do véu das palavras, a verdade. Vozes nas sala da Mente? Mas acordamos ao mesmo tempo para nós e para as coisas.

“A trilha árdua da aparência”.

O OLHO SE ABRE.        O OLHO SE ABRE  E SE DIVIDE.

Ar, articular,

 como um bicho saindo de seu ninho.

O cinema grotesco nos ensinou

a configurar uma ação, instante negro, não reflexo

de realidade.

Uma maçã flutua na luz: este seu sentido

(“aceitamos cartões de crédito”)

que se movimenta como quem respira, imediato,

enquantO mira espirais de tempOs, arOs de fumaça.

Não há como escapar. 

 

                                                                                        (Em Polivox, Atrito, 2001)

 

  

 Cityscape

 

 

Carros avançam em nossa direção: eis o épico contemporâneo. Ítaca na esquina, Odisseu o mendigo lendo um anúncio travado no chão. Brisa de buzinas o atordoando, atraindo-o para o fluxo & atropelo. Da sinagoga slogans na multidão de rostos anônimos. Ele é o herói transubstanciado de outras eras, ou uma hera plugando o meio das coisas com o que sua flora de aço, voracidade, revela: não há silêncio, luzes traçam linhas de fuga, teu rosto fugaz atrás dos vidros, mancha de detalhe, disparo. Tudo sucede por fluxo e acumulação. Prolifera, fera, néon das lojas de conveniências, você sob eterna vigilância, e as imagens, as imagens. O minuto pede pra ser consumido como mais uma comodidade (impossibilidade) por isso precisa ser veloz, para que a morte não tenha como amortecer as interrupções que a ferem até sangrar para que a verdade não tenha tempo de instalar seu leão de gerânios, sua folha de erva e visão. Pense em Agora e toda uma rede se instala em seu cérebro. Este perfume vindo da vitrine lembra uma idéia, e se estilhaça no instante necessário para que o tempo pare.

 

(Em Nômada, 2004)

 

 

ZEITGEIST

 

Nocauteando celebridades disfarçadas de pingüins
Monitorando a muvuca das transações e trapaças alpinistas
Serpenteando entre escadarias cravejadas de citações
Chutando o balde do crepúsculo com o bebê da aurora dentro
Chegando firme na dividida com a mentira, pisando o calo da calúnia
Colecionando estoques de paciência e delatores pederastas
Beliscando morenas de fiberglass e pixels de altíssima definição
Pegando marqueteiros pela orelha, levando o bispo milionário pelo pescoço
Mostrando seu catálogo de golpes de jiu-jítsu para web designers
Apavorando editores de moda com crucifixos de merda
Partindo pra ignorância pra cima das floriculturas
Esfaqueando a manhã e as boas intenções com sua adaga afiada
Pulverizando jogadores de genoma e modelos chipadas
Dando geral nos arquivos adulterados dos tribunais de justiça
Assaltando pipoqueiros metafísicos e banqueiros artistas de fim de semana
Distribuindo pirulitos de ácido para críticos literários
Arrebentando a boca da razão com denúncias inconseqüentes
Estrangulando docemente a tarde carregada de câmeras de vídeo & trance music
Pregando a irresponsabilidade fiscal, e anthrax para todos,
Rifando o shopping lotado de idéias fixas com um grito de jihad
O homem-bomba entra no poema.

(Em Nômada, 2004)

 

 

 

EL DUENDE

 

 

O dia lapida

o lado mais raro

da dor.

 

A mulher transpira

pelos poros iridescentes

dos dias.

 

Há dias

em que um homem

tem o tamanho de uma flor.

 

 

(De Polivox, 2001)

 

  HÁ anos vende seu peixe

podre
seu suflê de vísceras
para vegetarianos sem o menor senso de humor. 

Há tempos leciona
o dialeto do caos
dá conselhos ao sol
vende orquídeas escritas com
seu sangue
para vampiros que têm medo do vermelho. 

Há séculos ele pratica
a extinta arte da pluviometria
fabrica idéias inúteis
conta os carros da esquina
compondo um poema longo e atroz. 

Há minutos ele liga
Para uma secretária eletrônica
Que repete, estranho, exatamente
A gravação de sua própria voz. 

(De Nômada, 2004)

 

 Rito 

Alertas, trapaças, cobranças, compromissos:
Quantas ilhas sem edição, vidas sem viço,
A morte visita sem aviso?
E, afinal, pra que mesmo tudo isso?

 O que deu nesse mundo, caduco,
O que ficou do tempo em que viver
Era mais que só mudar de assunto
Era rito, um estado de espírito? 

Ou quando olhar era uma reza,
Pensar que revelava a leveza,
Música vindo de dentro

(Precisa de centro?) 

Uma revolução do sentir nos fez ateus:
Quisemos então ver a face de Deus.

E você a meu lado, lembra
De quando bastava uma fagulhaPra explodir uma Bastilha?
De Nômada, 2004

)

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OUTROS POEMAS DE RODRIGO GARCIA LOPES

 

 

                STANZAS IN MEDITATION

         para Henry David Thoreau

 

Folhas negras caem, rufam em profusão. O vento encrespa a

Água, Tempo, enruga

faces. Um vale revela

canyons, grutas:

em silêncio, exploramos o interior

 

destas montanhas: uma chuva fina, estranha,

começa a cair

e súbito dissipa —

O ruído áspero

de uma vespa. Este é o céu, claro, como metal. E aquilo,

 

A fumaça abandonada por um trem, talvez. Flores

Se dissolvem nos olhos, e nos debruçamos sobre velhas lendas

conferindo as pegadas de um animal desconhecido.

A trilha termina num riacho.

A água se surpreende com este vento todo

que vem do Oeste

e que agita a sinfonia das árvores.

 

Neblina nítida, colinas, um vapor neste espelho.

Num ponto qualquer da paisagem captamos

seus olhos verdes, mudos, fixos na relva úmida.

Um animal e você contemplam do mirante

este milagre

a baía vazia

— a areia do dia exibindo sua rasante —

rochedos & distâncias, como antes,

animada pelas danças do vento

fazendo desta ausência

presenças manifestas em tudo:

 

chuva

que desaba

entre os olhos

abertos

da serpente.

Um flash

de luz

entre os bambus

 

o silêncio do sonho

traduzindo

uma imagem-movimento

que se desfaz

entre a verdade dos instantes.

 

 

ERÓTICA DAS SOMBRAS

 

Lendo na contraluz que o tempo alucina

Nas rótulas de ondas que em amarelo artéria barbarizam

Enquanto a boca apressa, sibilina,

entre sons (devorados de sentidos). Içam

o mar vertiginoso e kanjis de nuvens

nos olhos cheios de deus, Sal.

No biombo das montanhas — rugem

No sfumatto mental da fala e do Caos.

Na textura sépia da superfície de sons

Uma face letal lateja e se transmuta

(Estátua de estrondos, trilha de acenos)

Muda e nos sorri. Escuta

os espelhismos cifrados da manhã,

Lábio, na pele da romã.

 

*

 

inimigo

espelho da face

ecoa

(inacabado)

cai em rubra cortina

—em

câmera

lenta —

dobras sobre colinas

atordoado argumento:

qual paisagem

é real?

A de Jade, pedra de flanco, ou a que é já?

Vôos reluzem (circulares) — é o azul que se desfolha

Entre jatos

Minaretes-araucárias imprimem em  símbolos

inventam a fala na pele de Laylak.

A hora furiosa solta-se, inçada

de vegetais e estática.

Sombras vomitam a distância,

 

Mandala de espantos.

 

*

 

No centro, alguma agulha o olho —

Agharta: lágrima no céu laranja.

Plumas de carne escrevem

a tarde celofane.

Ouro ecoa.

Quando voa —

está dormindo.

No agora gótico das sombras

teu lábio (calêndula) modula (calcina)

o matiz da invisível voragem

de ondas gongas:

Tempo, tudo o que a íris invê

no sudário das dunas, na curva de um silêncio.

 

 

Poemas extraídos de NA VIRADA DO SÉCULO: poesia de invenção no Brasil, organização de Claudio Daniel e Frederico Barbosa.  São Paulo: Landy, 2002.  348 p. 

 ISBN 85-87731-63-7

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Somos pessoas estranhas

 

somos

pessoas

estranhas

nem sabemos

que sonhos

que somos

 

esses

olhos

poucos

 

essas

folhas

secas?

 

esqueçam

fiquem

calados

 

somos

estranhos

no entanto

 

esta noite

dormiremos

lado a lado

 

 

Seu corpo é uma praia deserta

 

Seu corpo é uma praia deserta

onde uma música desperta

numa onda esperta e a deserda:

espumas a ferem como pétalas.

 

Desterra, em tradução infinita,

pérolas na orla do olhar, ilha

que ainda está por ser escrita.

 

 

OUTRA VOZ 

Não há nenhuma voz que seja a minha
nesta manhã sendo desperto pela máquina-de-lavar,
pássaros em gaiolas de vento & Villa-Lobos 

Outras vozes a intersectam e se mixam
Com a foz das frases que ainda estou a escrever
e que lentamente olham para mim, me reconhecendo. 

E outro sopro de silêncio nos reanima. Línguas
colidem na toxina das ilhas
no exílio de todos os caminhos 

(que no entanto não se bifurcam. Escondem-
se – no ontem onde deságuam –
num tumulto de ecos, reflexos numa gruta) 

 

ESCRITO NUM HOTEL 

O que nos leva a escrever
Se até o tempo, escrita da mente,
Desmente estar ali para entreter

Até o tempo se fechar, até a luz se resumir? 
O primeiro gesto que a detona
É o eco da palavra que a devora

Exibindo seu osso e seu recheio
Como vem, de seu impulso dono – ou dona.
É para confundir os registros

Que a luz num quarto se anuncia.
E é para tornar-se ainda mais lúcida
Que a mão, distraída, nos escreve. E pára.

 

 

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TEXTO EN ESPAÑOL


Extraído de la revista

tsé=tsé
7/8 otoño 200
Buenos Aires, Argentina

Traducciones de R. J.., revisadas por R. G. L

 

 


RODRIGO GARCIA LOPES

 


Rodrigo Garcia Lopes, nació en Londrina, Paraná, en 1965. Publicó Solarium (1994), Visibilia (1997), ambos de poesía,
y Vozes & visões: panorama de arte e cultura norte-americanas hoje (1996), libro de entrevistas. Con Maurício Mendonça
tradujo Sylvia Plath – poemas (1991) e Iluminuras – gravuras coloridas, de Rimbaud

 

OTRA VOZ  

No hay ninguna voz que sea la mia
esta mañana siendo despertado por la máquina de lavar,
pájaros en pequeñas jaulas de viento & Villa-Lobos 

Otras voces la intersectan y se mezclan
Con la vozde las frases que aún estoy por escribir
y que lentamente miran hacia mi, y reconociéndome 

Y outro soplo de silencio nos reanima. Lenguas
colisionam en la taxina de las islãs
en exílio de todos los caminos 

(que entretanto no se bifurcan.
Se – ocultan – en el ayer donde desaguan –
en un tumulto de ecos, reflejos en una gruta). 

¿Será la poesía arte de la escucha?

 

ESCRITO EN UN HOTEL  

¿Qué nos lleva a escribir
Si hasta el tiempo, escritura de la mente,
Desmiente estar allí para entretener
Hasta que el tiempo cierre, hasta su luz resumir? 

El primer gesto que la detona
Es el eco de la palabra que la devora
Exhibiendo su hueso y su relleno
Como viene, de su impulso dueño – o dueña 

Es para confundir los registros
Que la luz en un cuarto se anuncia
Y es para tornarse aun más lúcida
Que la mano, distraída, nos escribe. Y para.
 

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RODRIGO GARCIA LOPES
(BIOGRAFIA ATUALIAZADA ATÉ NOV. 2009)

é escritor, jornalista, tradutor e compositor. Como jornalista, trabalhou na Folha de Londrina, Folha de São Paulo, jornal Nicolau e A Notícia. Um dos editores da revista Medusa (1998-2000),  desde 2002 é um dos editores da revista independente de literatura e arte Coyote.  É autor dos livros de poemas Solarium (Iluminuras, 1994), Visibilia (Setteletras, 1996; Travessa dos Editores, 2005), Polivox (Atrito Art, 2001), Poemas Selecionados (Atrito Art, 2001) e Nômada (Lamparina, 2004). É Mestre em Humanidades Interdisciplinares pela Arizona State University, com tese sobre os romances de William Burroughs e Doutor em Letras pela Universidade Federal de Santa Catarina, com tese sobre a poeta e filósofa modernista norte-americana Laura Riding. Em 1997 lançou Vozes & Visões: Panorama da Arte e Cultura Norte-Americanas Hoje, (Iluminuras), com 19 entrevistas com personalidades da cultura e literatura norte-americana como John Cage, Allen Ginsberg, Marjorie Perloff, Charles Bernstein, Laurie Anderson, Amiri Baraka, John Ashbery, Nam June Paik e William Burroughs, entre outros.            

      Como tradutor, publicou Sylvia Plath: Poemas (Iluminuras, 1990) e Iluminuras: Gravuras Coloridas, de Arthur Rimbaud (Iluminuras, 1994), ambos em parceria com Maurício Arruda Mendonça. Em 2004 traduziu e organizou os livros Mindscapes: Poemas de Laura Riding (Iluminuras, 2004), O Navegante (do anônimo anglo-saxão, Lamparina, 2004). Em 2005 publicou Leaves of Grass / Folhas de Relva, de Walt Whitman (Iluminuras) e, em 2007, Ariel, de Sylvia Plath (Verus Editora, em parceria com Cristina Macedo).   Sua obra está representada em várias antologias importantes de poesia brasileira contemporânea, no Brasil e no exterior, como Artes e Ofícios da Poesia (organizada por Augusto Massi, 1991), Outras Praias/Other Shores: 13 Poetas Brasileiros Emergentes (organizada por Ricardo Corona, 1998), Esses Poetas (organizada por Heloisa Buarque de Hollanda, 1998), Antologia Comentada da Poesia Brasileira do Século (organizada por Manuel da Costa Pinto, Publifolha, 2006), Na Virada do Século—Poesia de Invenção no Brasil (organizada por Frederico Barbosa e Claudio Daniel, 2002). No exterior, participou das antologias das revistas tse=tsé (Argentina), Poetry Wales (País de Gales), El Poeta y su Trabajo (México) e Cities of Chance: an Anthology of New Poetry from the United States and Brazil (Estados Unidos), Brazil, Lyric, and the Americas, de Charles Perrone, a se publicado em 2009 pela University Press of Florida, entre outras. 

        Solarium foi incluído na lista dos mais importantes livros de poesia brasileiros dos anos 90 pela crítica Flora Süssekind (Folha de São Paulo, Caderno Mais!, 23/7/2000). Em 2004, o livro foi escolhido pelo Centre National du Livre (CNL), órgão do governo francês, entre os 20 títulos, escolhidos a partir de uma lista de mais de 130, para o Programa de Ajuda Especial em Favor da Literatura Brasileira.

        Curador da primeira exposição abrangente do fotógrafo londrinense Haruo Ohara (Olhares, em 1998), em 2005 foi um dos organizadores e realizadores do primeiro festival literário de Londrina, o Londrix. Em 2007, co-roteirizou Satori Uso, de Rodrigo Grota, filme inspirado em sua obra e no heterônimo japonês inventado pelo autor em 1985. O filme foi vencedor de três prêmios no Festival de Cinema de Gramado.

 

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FORTUNA CRÍTICA (seleção)

 

Rodrigo Garcia Lopes, o Satori Uso,  é um dos mais notáveis poetas paranaenses da safra novíssima. Me impressiona a falta de provincianismo, a abertura cosmopolita, a coragem da informação difícil, o extremo atrevimento desse londrinense, nada indigno do pioneirismo que levantou, naquela terra vermelha, a cidade mais rápida do Brasil.

Paulo Leminski, Correio de Notícias, 16/11/1985

ϖ

Não é comum, livro de estréia de poeta tão moço—22 anos—com esta qualidade. Há muito equilíbrio na fatura de todos os poemas, mas a audácia e o risco não foram esquecidos. Audácia e brilho que vamos encontrar, o que é ótimo sinal, nos significados, no modo variado e personalíssimo de ver as coisas.

Armando Freitas Filho, em carta ao autor, 1988

ϖ

Depois de ler os poemas de Rodrigo Garcia Lopes, não tenho a menor hesitação em afirmar coisas grandiloqüentes como: ele é um dos melhores poetas surgidos ultimamente neste país.

Caio Fernando Abreu, em Caderno 2, O Estado de S. Paulo, 14/3/1988

ϖ

Qualifica as traduções, além disso, o fato de os tradutores Maurício Mendonça e Rodrigo Garcia Lopes, paranaenses de origem, serem dois dos melhores poetas que estão surgindo no panorama. Tradução de poetas, tradução como diálogo criativo e não como ofício profissional.

Regis Bonvicino, sobre Sylvia Plath: Poemas, Folha de São Paulo, 29/3/1992

ϖ

Uma poesia em que o movimento de significação espirala e deriva, deixando o próprio ato de transformação da realidade em poesia. Vemos a articulação — a capacidade do poeta de coletar discursos ao seu redor — como princípio de uma poesia que se preocupa em alimentar, dizer.

Maurício Arruda Mendonça, na orelha de Solarium (Iluminuras, 1994)

ϖ

Entre o brilho frio de um alfinete e a tenra pele de um pêssego, é necessário admitir que a poesia de Rodrigo Garcia Lopes é, atualmente, uma das melhores produzidas no país. Não é uma questão de exagero, é uma questão de qualidade, de afinação do instrumento da estética poética.

Marcos Losnak, Caderno 2, Folha de Londrina, 15/12/94

ϖ

Reunidos assim em partes-com 19 “dioramas”, 27 “polaróides” e 18 “solariuns”- vejo-os como notações sobre o mesmo tema em que, viajante, o poeta parece dizer, já pela linguagem do percurso, que não há mais lugar para “poetas locais” e nem para influências muito bem situadas (e/ou sitiadas). Desterritorializado seja pela movimentação incessante que vai anulando espaços deixados para trás, arte e ofício de todo viajante, seja pela própria confluência geracional que o coloca num mundo onde não há mais lugar para o poeta “épico”, de raízes bem definidas e influências idem [...] não é sem propósito que já no segundo poema com que nos introduz a seus preciosos Dioramas, Rodrigo nos informe: “Como uma paisagem: / uma imagem/ nunca se completa./ É preciso quase tê-la,/ captá-la/ num segundo./ Depois deixá-la/ quieta/ cuidando de si mesma”.

Wilson Bueno, sobre Solarium, Folha de Londrina, 10/11/1995

ϖ

Em seu livro anterior, Solarium, o trabalho de Rodrigo Garcia Lopes se marcava sobretudo pelo que se poderia considerar uma enorme e quase desconcertante diversidade. Isto resultava do fato de o poeta praticar uma experimentação possível de ser compreendida em dupla direção. Primeiramente, de modo mais amplo, a experimentação talvez fosse busca de possibilidades bastantes distintas de elaboração dos poemas, de modo a permitir uma exposição do conhecimento e domínio da atividade desenvolvida, fazendo-se então um percurso pelo espectro da linguagem poética à disposição do poeta. A experimentação ainda se dava, em outra direção, de modo mais interno à própria elaboração poética, da construção do artefato poético. O fato é que, entre maiores e menores acertos, fica de Solarium a imagem de um vigor muito especial entre as gerações mais novas, de uma capacidade inventiva não apenas peculiar, mas instigadora. [...] Em termos de gerações, entre salvados das fulgurações (muitas vezes rija) das vanguardas e desordenações (por vezes flácidas) que correram pelas margens, o trabalho de Rodrigo Garcia Lopes propõe-foco efetivamente poético-rearticulações por meio de uma produção que sabe desencadear ânimos e cálculos, com belíssimos resultados.

Julio Castañon Guimarães, em orelha de visibilia (Setteletras, 1997)

ϖ

Obrigado pelas suas visibilias, cujo conteúdo faz jus ao título na medida em que torna o invisível visível através deste. Seus poemas são bem amarrados pela rima necessária ou, esta ausente, pela lógica analógica do sentido. Poemas como eu gosto — com começo, meio e fim.

José Paulo Paes, em carta ao autor, 1997

ϖ

Visibilia –como o nome denuncia — nasceu com a despretensão de registrar aqueles momentos em que os olhos regem o pensamento; em que a imagem pede a palavra. Sensação no governo da razão. Paisagens e banalidades cotidianas escondem a estranheza, o surpreendente, o apaixonante. E a poesia é quem pode desvelar milagrosamente o extraordinário oculto no ordinário, pervertendo o senso comum, alterando os padrões da sensibilidade. Para enxergar além da conta e sem amarras, Lopes em boa hora soube de novo se fazer forasteiro

José Carlos Fernandes, Caderno G, Gazeta do Povo, 29/11/1997

ϖ

A maior parte dos quarenta títulos que compõem visibilia tenta, seguindo à risca a bela epígrafe de Klee, não apenas (re)inventar a natureza, mas também (e sobretudo) tornar visível o seu sentido -ou melhor, reconstruí-lo tão-somente a partir de resíduos de visibilidade ou daquilo que, se mostrando puramente ao olho, melhor se presta (e sem sustos) a despertar o surto da linguagem. Na maioria das vezes em que Rodrigo captura o que o mundo oferece como “coisas vistas uma só vez/nítidas (...) possibilidades de luz”, o ato de ver — tão ingrato de ser recuperado pelo ato de escrever — serve como alavanca para uma empresa de resplandecimento das nuances “naturais” das coisas. À guisa de René Char e Francis Jammes, sua varredura visual privilegia o “amor à terra” com imagens recorrentes de paisagens compostas por ondas, chuvas, brisas, montanhas, dunas e faróis (cf. “Oração à Brisa”, “Pedra, Labor de Espumas”, “O Que Passou” e “MU”-quatro ótimos momentos do livro). Ao fim, visibilia apenas constata que todo poema “é uma ilha ainda por ser escrita” e que toda tentativa do poeta é “como um minuto de silêncio” que o poema reverbera na “pura distância” que o separa do que o atiça.

Jorge Lúcio de Campos, Folha de São Paulo, Caderno Mais!, 16/11/1997

ϖ

Nota-se no estilo de Rodrigo certa influência da Language poetry norte-americana: este apego obsessivo à imagem, mas com uso da metáfora de forma substantiva, quase intransitiva; a utilização de recursos sonoros na decupagem dos versos.

Reynaldo Damazio, Sobre visibilia, revista CULT,  6, 1998.

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Para quem esperava do polêmico poeta londrinense os vôos da “vanguarda” mais desabrida [...] Rodrigo Garcia Lopes impõe-se, desde a mirada/miragem de um estranhamento quase desgarrado, um rol de recusas: ao pós-moderno quase sempre mais pós-modernoso do que “pós” [...]. Para além da superfície chapada das coisas, receito-vos visibilia; para além da retângulo-quadradice da linguagem acadêmico-monográfica que mediocriza qualquer literatura, receito-vos visibilia; para além do crochê miúdo com que o sanatório das letras tupiniquins se cospe e se agulha, receito-vos visibilia. É uma ilha de delicadeza no tédio infinito e na violência explícita com que a “violência” cultural do país de Fernando Henrique Cardoso “hormogeiniza” e anestesia. Época nem um pouco apropriada para audácias de fundo.

Wilson Bueno, Folha de Londrina, 25/10/1998

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Chama a atenção ainda outra tendência, a preocupação com um redimensionamento temporal do poema, que se têm definido na poesia brasileira sobretudo a partir de meados dos anos 80. [...] Lembrem-se, nessa linha, tematizações explícitas recentes dessa preocupação mais acentuada com o tempo lírico. Como a reflexão sobre o caráter de “still moment” da imagem poética, empreendida por Rodrigo Garcia Lopes em “Como Uma Paisagem”.

Flora Sussekind, em “A Série”, A Voz e a Série (SetteLetras, 1998)

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Ele faz uma poesia desabrida, de visões amplas e com uma linguagem solta e que tem relação com a geração beat e com a cultura norte-americana. Há eloqüência sem exageros.

Italo Moriconi, Caderno G, Gazeta do Povo, 16/5/2001

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Rodrigo Garcia Lopes incorporou num repertório de afinidades eletivas a dicção beat, explorando a coloquialidade, a narração e os versos longos, vestígios da poesia oriental, como Bashô e Li T´ai Po, e certas linhas poéticas contemporâneas, do rap das ruas de Nova York à lírica séria de Laura Riding e John Ashbery. Esse diálogo aberto e crítico com outras culturas e a apropriação transformada (miscigenada) de formas nada tem de epigonal ou ingênuo. Trata-se aqui de compartilhar (ou intercambiar) o imaginário, a vivência, as cores e os sons de outras latitudes geográficas ou temporais, numa era onde já não há mais fronteiras. Para uma maior compreensão desse processo, seria  preciso uma análise em profundidade, muito além de certas teses redutoras do multiculturalismo e da teoria dos gêneros, tão em voga hoje em dia, em alguns círculos.

Claudio Daniel, em Na Virada do Século: Poesia de Invenção no Brasil, 2002

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If invoking European intellectual tradition in current contexts of Brazilian lyric is as honest and necessary as ever, the relative interest in American referents and pertinent functions in discourse, as argued throughout here, more often appear more natural.  The lead piece of the intention-laden Polivox (2001) by Rodrigo Garcia Lopes is an extended (116 lines) and multivalent composition.  There are epigraphs from German, French, and USAmerican authors about linguistic dispersions and disruption of systemic continuity.  The poem itself "c:/polivox.doc" (10-15) draws on a surfeit of registers, IT- information technology, including products and Internet, the first word is "On-line." - arts, advertising, news, and proverbial wisdom, paraphrasing or actually quoting from a variety of sources, from mythology and philosophy (e.g. Wittgenstein) to literature and underground film.  Multiplicity is affirmed in a self-defining phrase:  A dança do duende entre a floresta dos signos.  This is symptomatic of turn-of-the-millennium lyric attuned to transtemporal, planetary planes of discourse of lyric or subject to absorption by lyric.  It can be seen as a literary version of the socioanthropological variety of expressive Latin American popular culture posited as "multitemporal heterogeneity" (García Canclini 3).  Visual culture (film and beyond) directs a commodified, mystified society, and, in conclusion:  "Não há como escapar."  How not to admit the implications of massive media presence and the imbrication of languages and nations?  There is no suggestion of celebration here, nor of confrontation; but rather questioning, pondering.  The international frame of reference, finally, is structured by a certain USAmerican prominence- especially mediated culture:  Pound, "Sonho Americano," Madame Yahoo, Dell, matinês americanas- that means, in the long run, transamerican awareness.

Charles Perrone, em revista Chasqui (EUA), 2004

 

Polivox é um experimento investigativo da linguagem, assumindo a vida como a mais agressiva das artes. Ocorre a freqüente mudança de tom, desenvolvendo códigos, estilos e escolas — dos haicais, passando pela poesia medieval e desaguando no barroco. O poema se assemelha a um bazar de idéias, um objeto inconcluso, instável. A página tem as oscilações de um gráfico cardíaco. Os hipertextos captam os ruídos em tempo real. A linguagem é sempre interrompida, cindida por demandas externas e distrações. Qualquer tema pode ser aproveitado pela poesia — essa é a tese, o desafio proposto. "Cada memória esgota-se ao mesmo tempo em que ocorre." Lopes se enraíza na percepção, instaurando um épico da fala contemporânea.

Fabrício Carpinejar, jornal Rascunho, junho de 2003

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Nômada traz versos de forte plasticidade que discutem temas da época contemporânea, marcada pela incerteza, transitoriedade e turbulência. Figura presente em antologias como "Esses Poetas", "Os Cem Melhores Poemas Brasileiros do Século" e "Na Virada do Século", Rodrigo Garcia Lopes explora o poema como improvisos de jazz, formando textos espontâneos que misturam os sentidos e procuram reproduzir a autenticidade da vivência. Acredita viver "em estado permanente de linguagem". É um escritor das viagens, do deserto, das estradas baldias e das incertezas. Disposto em cinco seções, o livro realiza um diálogo com os principais movimentos literários e vanguardas como a poesia beat e a language poetry.

Fabrício Carpinejar, jornal Rascunho, 2004.

Polivox, degusto aos poucos. Perturbador. Tenho entrado principalmente nos tijolos de textos, as prosas de narrativas supuradas. Artista culto, sem exibicionismo.

João Gilberto Noll, em carta ao autor, 2001

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Talvez o que esteja em crise seja a própria busca do lirismo. Rodrigo enfrenta essa crise com determinação e talento. Se há tropeços, isso se deve à persistência do poeta, que não fugiu do terreno minado. Não é fácil dominar várias vozes, afiná-las todas. Mas esquivar-se da empreitada é permitir que a poesia seja apenas – citando um dos bons poemas de Polivox — sexo, mentiras e, o que é pior, videoteipe.

Nelson de Oliveira, em “O Novo Lirismo Contemporâneo” (O Globo, 19/08/ 2002)

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Rodrigo Garcia Lopes sugere a possibilidade do impulso que presidiu ao nascimento da lírica moderna. Resgate de uma poética das sensações não somente hedonistas, em que se constitui a subjetividade como percurso ao longo do qual se esboçam também um lugar e um tempo coletivos. Resgate do sentido utópico de percorrer os caminhos da natureza e re-encontrar a liberdade para além dos clichês eufóricos da linguagem midiática, mas também dos clichês niilistas da literatura pós-moderna. Resgate do valor político e estético da beleza, pois “ela é tudo que nos resta”, serve de rastro a seguir “para saber o que ainda presta”, pois “o agora agoniza”, mas “o futuro nos completa”.

Célia Pedrosa, em Poesia e Contemporaneidade (2001)

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Parabéns por sua poesia, que li com grande interesse. “Jogos Patrióticos” é irresistível e a tradução de Chris Daniels parece especialmente boa, mas o poema “c:polivox.doc” também é belo. Eu estou feliz de verdade por ver que você está se dando tão bem.

Marjorie Perloff, crítica literária norte-americana, em carta ao autor, 2001

 

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Deu no jornal: "Um suicida detonou nesta segunda-feira um veículo cheio de explosivos, morteiros e mísseis perto da entrada de uma base americana na cidade de Mossul, ao norte do Iraque. O ataque matou três pessoas e deixou outras cinco feridas, informou a militar americana Ângela M. Bowman". Como superar a indignação com essas notícias que chegam do Oriente Médio?
Respondo: com a poesia. Com a poesia de Rodrigo Garcia Lopes, o poeta paranaense que chega agora às livrarias com um novo livro — Nômada (Editora Lamparina, 2004) - onde a temática da guerra, mais especificamente da Guerra do Iraque, é uma constante. Sem panfletarismos datados, a obra é um petardo na poesia de quem aceita passivamente a despreocupação com a linguagem. De quem se conforma com velhas formas e rimas cansadas.

Linaldo Guedes, em Correio das Artes, 30/7/2004

 

Linguagem, espaço, movimento: um fio de luz que se desloca e filtra, na poeira dos dias, fagulhas de cidades, centelhas de deserto, dores alcalinas, na amplitude de um mosaico em que nada parece faltar ou sobrar. Justo, límpido, depurado, o texto de Nômada é indício claro da maturidade poética de seu autor, Rodrigo Garcia Lopes, um dos mais criativos, sensíveis e expressivos nomes do atual panorama literário brasileiro, que já há dez anos (desde a estréia, com Solarium), vem construindo uma obra marcada pelo trinômio inventividade / rigor / leveza, merecendo especial leitura e atenção. Deslocamento de vozes, trânsito de sentidos: eis a chave para a melhor compreensão deste novo livro de Garcia Lopes. Em constante transmigração, a palavra poética de Nômada move-se em uma "galeria de enigmas" e penetra na "história simultânea das coisas" (...).

Beatriz Amaral, em revista Zunái, número 15, maio de 208.

 

Polivox reinventa o mundo, o seu mundo, pelas linguagens. Esteta de instrumentos afiados, Rodrigo Garcia Lopes, distende o tecido-vida, na transitoriedade imposta pelos signos/símbolos da época em que vivemos. Uma premissa, a maior: ser acima de tudo contemporâneo. O poeta não abre mão do seu tempo e a realidade que vive e conhece.

Jairo Batista Pereira, em Zunái, 2001.

 

Empreendida com talento, sensibilidade e rigor pelo poeta Rodrigo Garcia Lopes, a tradução mantém o ritmo original do autor, utiliza com precisão os recursos poéticos de sua oficina literária e, graças à escolha das palavras mais certeiras, adota a linguagem direta e vernacular - que foi a busca do poeta norte-americano, ao longo de sua vida. Oscilando, no ofício da tradução, entre aproximar o leitor do autor (buscando manter-se fiel ao propósito e ao plano do poeta), ou trazer o autor para próximo do leitor (na busca de tornar sua temática e dicção mais contemporâneas, por assim dizer), ainda assim o resultado obtido por Garcia Lopes é de qualidade bastante superior. Por fim destaque-se o ensaio (em mais de um sentido heurístico) sobre a vida, a arte e o ofício de Walt Whitman, assinado por Garcia Lopes, para que a recém-lançada edição de Folhas de Relva já seja considerada um clássico.

Rodolfo Witzig Guttilla, sobre a tradução de Folhas de Relva, em O Estado de São Paulo, 5/2/2006.

 

A presente edição brasileira encara com seriedade os problemas de tradução que sua poesia oferece e a refaz num português tão atraente quanto é a apresentação gráfica deste volume, que — reordenando os poemas como a poeta desejara que os publicassem — inclui também seus manuscritos com as respectivas notas e correções. Num país como o nosso, no qual a poesia estrangeira é traduzida aos tapas ou aos trancos e barrancos, isso, sem dúvida, não é pouco.

Nelson Ascher, sobre a tradução de Ariel, de Sylvia Plath, em Bravo!, novembro de 2007

 

Nômada, de Rodrigo Garcia Lopes, é um livro que procura a unidade através da heterogeneidade, um livro em que (como o título indica) os poemas devem ser visto como "mônadas", como células encerradas em si mesmas, mas que se comunicam entre si, provocando um nomadismo de formas e sentidos. A diversidade de vozes é uma das características marcantes desse poeta que, não por acaso, havia lançado anteriormente dois trabalhos intitulados "Polivox" (um livro de poemas, publicado pela editora Azougue, e um CD em que Garcia Lopes mostra sua faceta de compositor e intérprete). No caso de Nômada, encontramos novamente essa pluralidade: poemas de um lirismo visionário, de inspiração ora surrealista, ora "beatnik"; poemas lineares em que as súbitas torções e as imagens urbanas lembram modulações jazzísticas; poemas em prosa de feição orientalista; palavras em suspensão, em montagens claramente influenciadas pela visualidade concretista.

Manuel da Costa Pinto, sobre Nômada, Folha de São Paulo, 31/7/2004

 

Embora tenha se tornado o poeta mais influenciado por Paulo Leminski da atualidade, Rodrigo conserva em sua poesia um ritmo habitado pelos beats dos anos 60 e pela Language poetry norte-americana, sem abdicar de seu próprio estilo – sendo um dos primeiros poetas brasileiros a estabelecer um contato mais evidente com a cultura norte-americana, o que trouxe um acréscimo à tradição. Solarium, por exemplo, reúne poemas curtos, incisivos, ao estilo de Leminski - entre os quais “Peônias negras” (com sua coleção de haicais) – e outros mais longos, na linha de John Ashbery e de beats como Lawrence Ferlinghetti e Allen Ginsberg. Há, ao mesmo tempo, uma espécie de equilíbrio entre cummings e Bashô, num poema como “Outro outono”, com os versos “céu de nuvem nenhuma / lambe a manhã / derruba folhas / uma por uma”.

André Dick, revista IHU-On Line, Universidade Unisinos, 2009

É pelo menos raro encontrar na poesia brasileira atual una exploração da relação homem-mundo-linguagem como a praticada por Rodrigo Garcia Lopes (1965). Sua linguagem se estabelece no mundo como matéria autoconsciente que não se limita a dizer-se: se dá chance de ir mais além desse saber de si mesmo. Pendular, oscilante entre a notação rápida que capta o instante — o tempo: una obsessão em Garcia Lopes — e o desdobramento reflexivo que alonga a duração e a faz transbordar, sua linguagem parte de um núcleo de irradiação geralmente dado na fala  e conquista márgen que situam o poema em um espaço inédito, imprevisível.

Eduardo Milán, em orelha de Visibilia, 2005

 Outro traço dessa escrita  são seus desvios do verso para a prosa. Por conceber a poesia como um exercício de liberdade no plano da linguagem, o poeta explora os deslocamentos, contrações e expansões dos poemas na página, chegando mesmo a tangenciar, em certos momentos, uma espécie de “grau zero do gênero”, através do qual o texto, recusando os limites de um formato textual, faz-se precisamente da ausência deles. Tudo isso, sem prescindir do rigor e tampouco se furtar ao improviso (no sentido jazzístico) no manejo das palavras. Por essas e outras potencialidades é que Nômada consegue eternizar “o fugaz no grão da linguagem”, confirmando seu autor como um dos poetas mais instigantes/intrigantes do presente.

Maria Esther Maciel,  em orelha de Nômada, 2004

 O leitor que gosta de aprisionar em uma rotulagem a poética de um autor encontrará uma tarefa difícil ao ler Nômada (Editora Lamparina/2004) de Rodrigo Garcia Lopes. Diria que impossível. É que a poesia dele é multifacetada e de uma versatilidade inaudita. Será uma missão impossível colocar o autor nesta ou noutra escola literária. Talvez o melhor a dizer é que o poeta em questão é pós-moderno: no sentido que sua escrita se apropria de diversas máscaras para vestir o poema com a melhor roupagem poética possível. Para cada peça que forma um conjunto harmonioso há um pouco de cada estilo literário. Tudo dentro da modernidade e do verso livre. Do pós-concretismo ao surrealismo.

Rodrigo de Souza Leão, em “Delirismo e Outros Ismos”, revista Zunái, 2004.

Garcia Lopes soube mostrar na quase totalidade dos versos sua tarimba de tradutor, saindo-se bem das armadilhas e tonalidades que Câmara Cascudo dizia intraduzíveis. Sirva a edição comemorativa como incentivo aos nossos editores e tradutores para nos trazerem finalmente um Whitman "complete and unabridged" [completo e sem cortes].

Ivo Barroso, sobre a tradução de Folhas de Relva, de Walt Whitman,, em Folha de S.Paulo,  4/12/2005

 

A qualidade do trabalho de transposição (no livro mencionada como "transcriação") merece ser destacada, tendo em vista a riqueza vocabular, os efeitos guturais, sonoros, dessa poesia que, segundo a própria autora, ganhava intensidade ao ser lida em voz alta.

Ivo Barroso, sobre a tradução de Ariel, de Sylvia Plath, Folha de São Paulo, 20/10/2007

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Página publicada em janeiro de 2009; ampliada e republicada em novembro de 2009

 

 

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