RONALDO CUNHA LIMA
Ronaldo José da Cunha Lima nasceu em Guarabira, Paraiba, Brasil,18 de março de 1936, poeta e político.
Filiado ao PSDB, é atualmente deputado federal pelo estado da Paraíba.
Estudioso da obra do poeta Augusto dos Anjos, Ronaldo participou com brilhantismo, do programa de televisão, Show sem Limite, respondendo sobre a vida e a obra do grande poeta paraibano.
Membro da Academia Campinense de Letras, Membro do Conselho Federal da OAB. Ronaldo Cunha Lima ingressou na Academia de Letras em 11 de março de 1994, saudado pelo acadêmico Amaury Vasconcelos.
Em 2004, Ronaldo foi indicado para ocupar uma cadeira na Academia Paraibana de Letras (ABL).
Ronaldo, lançou, entre outros livros: 50 canções de amor e um poema de espera, 1955; Livro dos tercetos - Em defesa da língua portuguesa (discurso no Senado Federal, 1998) ; 3 seis, 5 setes, 4 oitos e 3 noves - grito das águas (discurso no Senado Federal, 1999); A seu serviço II, 1999; A seu serviço III, 2000
Roteiro sentimental – fragmentos humanos e urbanos de Campina Grande, 2001.
Breves e leves poemas, 2005
“… a despeito da diversificação métrica e temática, há uma permanência rítmica e lírica. Os intimistas denotam uma fixação amorosa. São, aqui e ali, pedaços de uma mesma história, real ou fictícia. Recheados de metáforas, os tercetos guardam sonoridade – sonoridade que Ivan Junqueira chamou de “quase pianística”, a lembrar, segundo ele “The Five Finger Exercices”, de T. S. Eliot. Finalmente, os tercetos justificam o título do livro. São breves e leves e permitem uma leitura agradável pela acessibilidade da linguagem e a mágica capacidade de síntese.” ANTONIO CARLOS SECCHIN
NATUREZA MORTA
A fama do pintor, já não importa.
A natureza não existe morta:
o quadro é que parece não ter vida.
O MAR
O mar corteja a praia e, uma a uma,
as ondas pousam perolas de espuma
sobre seu ventre branco, umedecido.
A CARTA
Aquela carta, fiz bem em escondê-la.
Sinto , as vezes, vontade de retê-la
mas tenho medo de querer rasgá-la.
INDUÇÃO
A dúvida, afinal, esclarecida:
ela jamais se foi da minha vida.
Minha vida, sem ela, e que se foi.
DESPENHADEIRO
Porque eu te amei o quanto pude,
em dimensões de abismo e de altitude
o nosso amor se fez despenhadeiro.
MODORRA
Ancorado na barra de mar morto,
do navio um marujo espia o porto,
como quem se perdeu do horizonte.
AUSÊNCIA
Renasces, recompões e me retornas
paisagens mortas e lembranças mornas
mas tu mesma não vens para vivê-las.
O QUE RESTOU DE NÓS
Além do adeus, da lágrima velada,
do nosso amor se não restou mais nada,
fica, entretanto, o que restou de nós.
ALHEAMENTO
A vida não me alheie no absorto
enquanto eu não me encontre, vivo ou morto,
e, estando vivo, enquanto eu não me esqueça.
SONHOS
Se nas horas dos dias de crescer
eu sonhava com o que queria ser,
hoje sonho em ter sido o que não fui.
O JUIZ
Aplicando o direito a qualquer custo,
o juiz não se apega ao que é justo,
decide o que é legal e o que não e.
POUCO A POUCO
Assisto triste, aflito, quase louco,
o nosso amor morrendo pouco a pouco
e meu querer sem poder fazer mais nada.
CLT
Não são distâncias tão sérias.
Ela só entrou de férias
e eu gozo licença-prêmio.
OFENSA/ELOGIO
Ao me chamar de incrível,
resta a dúvida terrível:
foi ofensa ou elogio?
CERZIMENTOS
Ponto a ponto, fio a fio,
enfrentei o desafio
de cerzir tempos puídos.
ESPELHO
O espelho e o meu castigo.
Nele eu pareço comigo,
não com o que penso que sou.
A ESTRADA
Parecia aquela estrada
Ser uma língua estirada
para engolir a distância.
CICLÔNICO
Minha vida, caso a caso,
foi mais fruto do acaso,
do que da minha vontade.
À MINHA PROCURA
Perdido na noite escura,
Saí á minha procura,
sem ter noticias de mim.
(Abraçando Arnaldo Cipriano)
TRAVESSIA
Ondas navegadas
marulham, cansadas,
nas encostas do cais.
Extraídos de: LIMA, Ronaldo Cunha. BREVES E LEVES; tercetos e outros poemas. Rio de Janeiro: José Olympio Editora, 2004. 287p |