RAIMUNDO GADELHA
Editor. Formado em Publicidade e em Jornalismo pela Universidade Federal do Pará, com especialização na Universidade de Sophia, em Tóquio, Japão, onde viveu durante três anos, depois de ter estudado em Nova York. Poeta e fotógrafo, sua obra percorre o romance e a poesia, geralmente associada à Fotografia. Trabalhou durante três anos como editor da Aliança Cultural Brasil-Japão e, em 1994, fundou a Escrituras Editora que já tem em seu catálogo mais de 400 títulos. Fonte: http://www2.bienaldolivro.ce.gov.br/
“De certa forma, ele faz um contraponto tardio a certas vozes do nosso modernismo, e se nega a fugir para o recanto bucólico que, a alguns, nos parece tão ausente. (...) Poesia de afeição pela Vida, de aceitação da vida, do amor e do ser humano: a realidade trabalhada e refeita pela sensibilidade e pelos sonhos do artista.” RENATA PALLOTTINI
De
Raimundo Gadelha
PARA NÃO ESQUECERES
DOS SERES QUE SOMOS
São Paulo: Escrituras, 1998.
ISBN 85-86303-36-4
Inclui CD
ESCONDE-SE
Esconde-se onde?
De tudo isso, pouco se sabe.
Escultura
Mutilados os braços,
os pés tentarão, passo a passo,
imprimir uma emoção
Decepadas as pernas,
o caminho não terá sido em vão
Cortada a cabeça,
por instantes ainda pulsará o coração
e enterrado o coração e todo o resto
restará ainda e para sempre
a marca cósmica e imperecível
de tudo o que se tentou ser
E numa fração de segundo
o Ser simplesmente será
Puro
Rápido
Eterno.
Exercício
Vasto horizonte
Desvão do tempo
Linha sumindo sob a linha do mar
Ansioso anzol
E se o peixe não vem,
quem é prisioneiro de quem?
Dualidade
Sou o jardim de um castelo antigo
Verde, estiro-me todo iluminado
por uma lua que enriquece a paisagem
E não estou sozinho neste tempo,
pois sou também um cão negro como a noite
Verde-jardim, faço parte e contemplo a paisagem
Negro-cão, louco e liberto, corro em qualquer direção,
muitas vezes pisando e destruindo
as flores do meu próprio jardim
No escuro verde, meu pêlo preto quase desaparece,
mas meu sorriso danado nem a noite escurece
Verde-jardim, sou minha paz interior,
sem ter pressa, sem medir distância
Negro-cão, sou desespero e tanta, tanta ânsia...
Verde-jardim
Negro-cão
Eu, equilibrando-me nas próprias contradições
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De
Raimundo Gadelha
VIDA ÚTIL DO TEMPO
São Paulo: Escrituras, 2004.
11p. ilus. capa de pano
ISBN 85-7531-126-3
Pleno sentido
Densa, a neblina espalha-se lá fora
Da janela já não se enxerga a montanha
Mas. mesmo de olhos cerrados,
não se distancia a sensação de sua presença
Suave, o vento vem daqueles lados
e, cúmplice, sopra em toda a sala
a certeza de que a montanha, absoluta, continua lá
Sobre as teclas do velho piano,
pó denunciando uma longa espera de graves e agudos
Na estante, livros repletos de intocadas emoções
No canto, uma foto já Quase amarelada
provoca branda solitude, suportável dor
O brilho dos olhos, o delicado sorriso...
A mulher da fotografia é nitidez e ausência
A montanha que não se vê,
sem nenhum esforço é possível sentir
Ela está aqui. presente como o respirável ar
Agora, uma chuva intensa
faz elevar-se o cheiro da terra
Do telhado, pingos emprestam ao piano graves e agudos
O vento penetra ainda mais forte,
revirando jornais com antigas notícias impressas...
Na fotografia, a leve impressão de solidário sorriso.
Página publicada em dezembro de 2009; ampliada e republicada em nov. 2010 |