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Sobre Antonio Miranda
 
 


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

BRÁULIO TAVARES


BRÁULIO TAVARES


 

nasceu em Campina Grande - PB, em 1950, e mora no Rio de Janeiro desde 1982. Publicou "Balada do Andarilho RamÓn e outros textos" (Pirata, 1980), "Sai do meio que lá vem o filósofo" (Edição do autor, 1982), "O homem artificial" (Sette Letras, 1999) e "Os Martelos de Trupizupe" (Engenho e Arte, 2004). Publicou folhetos de cordel, prosa de ficção e volumes de ensaios. Tem uma coluna diária no Jomal da Paraiba cujos textos estão sendo preservados no seu blog Mundo Fantasmo

(http://mundofantasmo.blogspot.com).     

 

 

"A poesia de Bráulio Tavares funda raízes numa mescla criativa de fontes em que dialogam a tradição do cancioneiro popular, nos ritmos despachados, líricos e melódicos do repente e do cordel, a pulsação desencontrada e irreverente da dicção contracultural e os arrepios formais da erudição e da vanguarda". Hildeberto Barbosa Filho, critico e poeta paraibano.

 

 

A coisa

 

Eu quero inventar uma coisa, uma coisa viva, uma coisa

que se desprenda de mim e se mova pelo resto do mundo

com pernas que ela terá de crescer de si própria;    

e que seja ela uma máquina viva, uma máquina 

capaz de decidir e de duvidar, capaz de se enganar e de mentir.

Uma coisa que não existe. Uma coisa pela primeira vez.

Uma máquina bastarda feita de dobradiças e enzimas

e metonímias e quarks e transistores e estames

e plasma e fotogramas e roupas e sopa primordial...     

Quero apenas que seja uma coisa minha, uma coisa

que eu inventei numa madrugada enquanto vocês dormiam

e quando a vi recuei, e quando a soube pronta duvidei,

e vi a eletricidade do relâmpago abrindo seus olhos

e martelei seu joelho temendo-a, e mandando-a falar,

e gritei: "Levanta-te e anda!"- e a coisa era uma galáxia

tremeluzindo no centro da folha branca, me olhando

com meus olhos de homem, me sorrindo

com tantas bocas de mulher, me envolvendo

com sua sintaxe de coisa nova que força o mundo a mover-se,

fincando uma cunha no Real e se instalando naquela fenda,

como um setor a mais invadido um círculo já completo.

Eu quero que essa coisa existisse, assim como     

eu quis que eu seja. Quero vê-la brotar desarrumando.

Coisa criada, cobra criante, serpente criança,

criatura sentiente, existinte, sente, pensante,

cercada pela linha brusca do seu até-aqui

Essa coisa me conhecerá e não me reconhecerá    

como seu Criador. Essa coisa terá poder de me destruir,    

e de me recompor, e me mandar pedir-lhe a bênção.

Então pedirei. Sairei pelo mundo. Com minhas próprias pernas.

Finalmente leve e livre, tendo parido algo maior do que eu mesmo,

e disposto a me abraçar ao mundo, como quem desce do ônibus
na rodoviária da cidade onde nasceu. Mas o mundo!
O que é esse mundo onde eu ando agora? Olha a cor das casas,
o rosto do povo, o som da fala, a manchete dos jornais, o cheiro
do vento... que mundo é esse para onde retornarei depois de livre?
Fico parado, o coração pulando, e só daqui a pouco perceberei,
com uma surpresa antiga — que aquilo não é mais meu mundo:
e o mundo da coisa, é o mundo da minha Coisa.

 

 

Extraído de ANTOLOGIA SONORA – Poesia Paraibana Contemporânea. João Pessoa: Edições O Sebo Cultural, 2009. Produção executiva de Heriberto Coelho de Almeida. Contendo 9 CD com gravações de poemas nas vozes dos autores, e 31 encartes em caixa de madeira. ISBN 978-278-995423

Página publicada em outubro de 2009, a partir do material cedido pelo Editor.

 

 

 

 

 

 

TAVARES, Braulio. O Homem artificial.  Poemas.  Rio de Janeiro: Sette Letras, 1999.   67 p  ISBN 85-7388-059-7 

 

 

“Sem dúvida, Braulio Tavares é um dos meus poetas favoritos!!!”
ANTONIO MIRANDA

 

Comecei aprendendo Drummond
traduzi os poemas de Ezra Pound
as canções de Bob Dylan, o underground,
a escrita automática de Breton;
Maiakóvski foi quem me deu o tom
João Cabral me ensinou o ponteado
com Rimbaud aprendi ser afinado
pra cantar o oceano com Neruda;
treme o sol, treme a terra, o vento muda
quando eu canto martelo agalopado.

 

NA HORA DO LOBO

Quando um homem consome a madrugada
rabiscando umas folhas de papel
e ele sabe que a vida é tonelada
oscilando na ponta de um cordel;

ele sabe que o fim de toda estrada
não desagua no inferno nem no céu,
e ele pensa na feira, na empregada,
água e luz, condomínio e aluguel;

quando um homem fatiga a voz cansada
com palavras da Torre de Babel
e ele entende que a coisa mais amada
se transmuda na coisa mais cruel;

quando a taça em que bebe está quebrada,
tanto vidro a boiar em tanto fel
e no peito uma dor desatinada
essa dor que é tão nítida e fiel;

quando um homem de boca tão calada
sente a mente girar num carrossel,
ele escreve através da madrugada
com cuidados de abelha que faz mel:
sua vida, talvez, foi destinada
a salvar estas folhas de papel.

 

TRAVESSIA

O lar

do passarinho

é

o ar

não

é

o ninho.


 

 

 
 
 
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