Sina do sertão
O artista multimídia goiano Marcos Quinan recria a alma do interior brasileiro em prosa, versos, canções e telas
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Angélica Torres
Especial para o Correio :Pensar
pensar@correioweb.com.br
Divulgação
Água murmurando saudades debaixo da ponte do Rio do Braço. Tropeiro na estrada ligando fatos, personagens. O padre, o dono da venda, o fazendeiro, a dona da pensão, demônios variados do imaginário popular. A ética da gente simples, suas "malezas", sua religiosidade. Esse universo, temperado com a linguagem oral do interior de Goiás do início do século passado e trabalhado com originalidade e vigor, é uma amostra da receita dos contos do livro de estréia do escritor goiano Marcos Quinan, Sertão do São Marcos, lançado em 2000.
Quinan somou suas memórias de infância e adolescência às informações de pesquisa histórica e de linguagem oral da região e escreveu os contos de um fôlego só. Criou uma Macondo muito particular sua, ao tramar personagens e histórias com liberdade de estrutura narrativa, que resultam num quase romance. Pôs o tropeiro Baldino como eixo de comunicação entre os habitantes, personagens ora inventados, ora resgatados e recriados, que vão aos poucos povoando aquele sertão, depois chamado Distrito Arraial de N.Sª. da Conceição, Distrito de Vai Vem, Município de Entre Rios, até chegar a Ipameri, onde o escritor aporta, no livro, pela via do poeta.
Os vários contos atentados por demônios são um particular na literatura de Quinan, assim como a galeria de nomes curiosos que dá aos personagens. E mais: o alumbramento que causa a fala do caipira; a melodia que emana de palavras, contextualizadas ou não, como "sabença", "parecença", "avulia" (avalia) e a graça de expressões como "pôs reparo", "pôs querença", "fizemo de um tudo". O matuto fala e pensa poesia em sua simplicidade, no ermo de seu despojamento, e o escritor requinta aquele universo com humanismo e humor.
Caipira pós-moderno, Quinan tem na pele uma colcha de retalhos do chão vivido em 54 anos de estrada - os primeiros 18 anos em Ipameri; 11 em Goiânia, um em Porto Alegre, outro no Rio e 23 anos em Belém do Pará. Sensibilidade, intuição, criatividade e muita pesquisa de linguagem, história e fatos pitorescos da vida do homem simples revelam-no mais que um sertanista. "Sou um autodidata que escolheu aprender o Brasil", confessa.
Desse seu aprendizado surgiu no ano passado uma ficção amazônica enfeixada nas aventuras de Sabá do Talho, um herói paraense desmemoriado da Guerra de Canudos. Narrado numa mescla de Português-Nheengatu, Sertão d´Água saiu no ano passado, quando mais um livro de contos do autor já estava a caminho de perfazer sua trilogia sertaneja. Sertão do Reino, que será lançado em agosto em Brasília, vem trazer o dia-a-dia dos negros forros e escravos, índios, caboclos e mestiços que fizeram a Cabanagem, única revolução popular nacional que levou o povo a assumir o poder, na então província do Grão-Pará, entre 1935-40.
"Personagem, tenho coração goiano, mãos amazônicas e a alma bem brasileira. Não descarto as influências de tudo o que freqüentou a minha vida, desde a escola, em Ipameri, quando o professor Zuzu aparecia com os novos autores para as aulas de português", diz Quinan, citando uma lista que vai de Guimarães Rosa a Bernardo Élis, de João Cabral a Cora Coralina, de Nelson Rodrigues a Plínio Marcos, entre mais uma dúzia de referências.
Músico, dramaturgo etc.
Alfabetizado pela santeira Neusa Garcia, sua irmã, Marcos Quinan entrou na escola a partir da 5ª série do ensino fundamental (à época, admissão). Seu espaço nas artes já estava traçado desde então. Transitou pelo teatro, como ator, diretor e dramaturgo, chegando a trabalhar com Ziembinski e Paschoal Carlos Magno. Enveredou pelas artes plásticas pintando telas que ilustram seus produtos e que decoram mais de 300 ambientes Brasil afora. Produtor cultural, criou a gravadora Outros Brasis, destinada a produzir artistas alternativos do país todo e que deu suporte a inúmeros músicos da Amazônia, além de também revelar o compositor Marcos Quinan.
"Fiz 50 anos e decidi mostrar minhas coisas", conta ele, que estreou em 1998 com o CD instrumental Canção dos Povos da Noite, sofisticado e simples, a um só tempo, nas seqüências melódicas e nos arranjos que evocam música de câmara e o folclore nacional. Poeta que conserva naturalmente sua delicadeza rural, Quinan recria e dignifica a música sertaneja nas suas baladas, seus maracatus-baiões e toadas gravadas noutra experiência, o CD Dentro da Palavra (2001).
Com interpretações de Flávio Venturini, Jane Duboc e Nilson Chaves, entre outros, as canções conjugam o menino e o poeta em seu universo sonoro-pictórico, como no meta-maracatu-baião Cuida da Palavra, em que canta: "Substantivos na copa das árvores/ quem foi que achou?/ Artigos nos troncos descendo no rio/ quem foi que jogou?/ Pronome que é nome dos deuses nas matas/ quem foi que encontrou?/ Adjetivos são húmus na terra/ quem foi que pisou?..."
Rio do Braço, seu terceiro CD, sai em breve, mesclando instrumental e canções, com sotaque bem goiano, anuncia.
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Trecho
"Rudiei Arrependidos evitano conferição. O sol no arto da tarde num deixava firmá as vista e no arrodeio me vi perdido. A mulada no desassussego de caminho novo, agitada, andava no ponto do disparo. I´eu num avuliava nada não, o senso ficava só no pensá em Mundica, filha mais nova de seu Tertuliano e dona Idalina, primor de donzela, fosse nas prenda ou nas anca farta, era toda buniteza vazada nos zói noturno, mostrano só iscundição."
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Sertão do São Marcos - Letraviva, R$ 22,00.
Sertão d´Água - ProjeCto Editorial, R$ 22,00.
Canção dos Povos da Noite - Produção de Eudes Fraga, 20 faixas. Independente.
Dentro da Palavra - Produção de Eudes Fraga, 17 faixas. Independente.
E-mail: quinan7@hotmail.com