TERESINHA HUEB DE MENESES
Nasceu em Uberaba em fevereiro de 1939, Graduada em Letras. Pertence à Academia de Letras do Triângulo Mineiro. Obras publicadas: Tempesfera (1979, poesia) e Temas do Cotidiano (1995, crônicas) e participação em antologias.
corrosão
Uma vida não se faz no espaço:
o tempo, o tempo arranca
os atos.
O tempo
extrai a matéria bruta
da existência
para limá-la na serra do agreste.
O tempo,
o tempo extirpa as entranhas
da alma
para sulcá-las
na forma/fôrma do dia a dia.
O tempo
morde os dedos calados da procura,
ceifa as garras mordidas da espera,
suga os dentes perdidos da conquista.
Onde os pés do tempo fincados no útero da vida?
É preciso roer os pés do tempo
e deixar que ele rodopie — doido — no espaço,
perdido em si mesmo,
calado em seu próprio silêncio,
morto em sua morte mesma,
até o fim dos séculos,
na eternidade de cada segundo.
até
A crueza dos fatos
dos ratos
dos atos
a roer motivos
dúvidas e efeitos.
A dureza das lidas
das vidas
das idas
a mostrar motivos
certezas e efeitos.
A incerteza das idas
das vidas
dos fatos e atos
e até dos ratos (por que não?)
a roer certezas
motivos e efeitos.
digestão
fantasiar
de amor
os ais
do sonho.
colorir
de riso
a voz
do pesadelo.
amanhar
de verde
a cor
da indiferença.
escarnar
do corpo o pasto
da descrença.
mascarar
de paz
os dentes
da ironia.
digerir
do ser
a condição
herege.
Extraídos da obra: A POESIA EM UBERABA: DO MODERNISMO À VANGUARDA.
Antologia organizada e apresentada pelo poeta GUIDO BILHARINHo.
Uberaba: Insituto Triangulino de Cultura, 2003. 336 p. (Coleção Artecultura) |