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RODRIGO GUIMARÃES
Nasceu em Belo Horizonte. É psicólogo, poeta e ensaísta, doutorado (em 2005) em Literatura Comparada pela UFMG. Publicou os livros Ação e Vida (ORG. 1996); Aids: olhares plurais (org. 1997),. Com a obra Vestindo águas (que faz parte do livro Celacanto ) recebeu menção honrosa no concurso Redescoberta da Literatura Brasileira (Revista Cult / Lemos Editorial, 2001) e no website dessa revista.
e-mail:rodrigo.guima@terra.com.br
De
OBJETO ALGUM
Rio de Janeiro: &LETRAS, 2008.
Prêmio Governo de Minas Gerais de Literatura
sem título
e o que se vê
centraliza todo
o espaço,
persiste,
sem moldura
ou título,
cravado em seu
axioma de ferro,
seu habitat supremo,
desqualificando tudo
com exata indiferença,
como um
prego na parede
detalhe
acontece que
ao perder o chão
passou a
observar os
pés e talvez
de tal modo
acercar-se da
minúcia
excedente
que melhor
se reconhece
no que cumpre
desaparecer
irretocável
assim injeta ritmo no vagar
que se anuncia em descuidado verso:
“só não há uma coisa, é o esquecer”
e passou a morrer duas vezes:
ao habitar o costume que o repete;
e ao firmar os olhos na filha
que morria
devagar
a espera
peça a peça
desmontava os objetos.
mas algo ficou
entre o esquecimento
a decisão da espera.
o corpo na se movia
nem praticava o olhar.
sim,
era preciso defender-se.
mas de quê,
se o que restou
nem existia?
Ampliada e republicada em setembro de 2008.
À MARGEM DA CICUTA
(fragmento)
......
pertence a rosa à roseira ou ao olhar?
descampos de pouso
de um heija-flor
em pleno ar
pertence o pássaro ao céu ou ao vôo?
o vento alíneo
freme repuxos
na pele do mar
pertence a partida ao porto ou à despedida?
partido
o vazio do vaso
vê-se vertido
pertence a cabra à montanha ou às alturas?
alpinista do ser
rumina girassóis
para berrar auroras
......
e assim vou
vou meio que indo
findo, ainda vou
vou no meio do quando
ando, vou e ando
no quando, no meio
e quando ando
no desando
vôo, alargo o quando
esse indo largo
de quando em quando
de ando e indo
e mesmo que indo
no vôo quando
fico voando
......
mãos trêmulas
lentes grossas
acaso
a ponta da linha
acerta
o vazio da agulha
mãos trêmulas
lentes grossas
a
c
a
s
o
o fim da linha
o vazio da agulha
o
.......
VESTINDO ÁGUAS
(fragmentos)
.....
arabescos tácteis
dedos que parecem respirar entre lábios
grandes, entumecidos, spatiphylus
o ir e vir...
bico de beija-flor
significar e desmanchar em ondas
cli vagens
sa toris
pequenas
mortes
a respiração ofegante pára
DESFILE DE FACAS
(fragmentos)
.....
lâmina
toda corte
no profundo rasgo
abre o dentro:
voz de olho-d´água
adentrando no sorvedouro
“o dentro”
- carvão de face limpa –
luz-só
quase à beira de si-sombra
.....
Extraídos de Celacanto Poesia. Belo Horizonte: Autêntica, 2003.
Obra vencedora do I Prêmio Nacional Vereda Literária.
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