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Sobre Antonio Miranda
 
 


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

MURILLO ARAÚJO

MURILLO ARAÚJO


O Poeta Murillo Araujo [ também aparece grafado, equivocamente, como Murilo Araujo ] nasceu na cidade de Serro, Minas Gerais, Brasil, em 26 de outubro de 1894. Ele é um dos expoentes do Modernismo. Estreou em 1917, com o livro Carrilhões -cinco anos antes da Semana de Arte Moderna, evento do qual participou-. Seguiram-se a este livro A galera (escrito em 1915, mas publicado anos depois), Árias de muito longe (1921), A cidade de ouro (1927), A iluminação da vida (1927), A estrela azul (1940) -esta obra foi traduzida pelo poeta uruguaio Gaston Figueira para o espanhol com o nome La Estrela Azul e publicada em Nova York (EUA)-, As sete cores do céu (1941), A escadaria acesa (1941), O palhacinho quebrado, A luz perdida (1952) e O candelabro eterno (1955). A obra em prosa limita-se a quatro livros: A arte do poeta (1944), Ontem, ao luar (1951), uma biografia do compositor Catulo da Paixão Cearense, Aconteceu em nossa terra (pequenos casos de grandes homens) e Quadrantes do Modernismo Brasileiro (1958). Murillo Araujo também traduziu o livro O inspetor geral, do escritor russo Nikolai Gogol (Sorotchintsi, 1809 – Moscou, 1852).

Em 1960, a Editora Pongetti lançou, em três volumes, toda a sua obra poética, com o título Poemas Completos de Murillo Araujo.

Ele foi integrante do grupo Festa —que contou com a participação de Cecília Meireles, José Cândido de Andrade Muricy, Adonias Filho e Tasso da Silveira. O poeta foi um dos artistas do modernismo mais influenciado pelo Simbolismo. O grupo, que editava a revista de mesmo nome, integrava que a Corrente Espiritualista do Modernismo. O poeta era também famoso freqüentador dos sabadoyles, organizados pelo bibliófilo Plínio Doyle.

Dentre os poetas que o influenciaram estão Walt Whitman -poeta norte-americano (West Hills, 1819 - Camden, 1892)-, Antônio Nobre -poeta português (Porto, 1867 - Foz do Douro, 1900), considerado a maior figura do simbolismo em Portugal- e Émile Verhaeren -poeta belga de expressão francesa (Sint-Amands, 1855 - Rouen, 1916). Autor de contos, peças de teatro e crítica literária, além de poesia, evoluiu do naturalismo para o misticismo. Em 1971, ele recebeu o prêmio Machado de Assis da Academia Brasileira de Letras, pelo conjunto de sua obra.

Pesquisa de Artur Araujo, seu sobrinho-neto em : http://www.geocities.com/Athens/Agora/9443/Murilo.htm


TEXTO EN ITALIANO

 

VISÃO

 

Tenho à noite a visão de que a estrelas de ouro

vão descendo ao meu sonho e vêm dançando em coro.

 

Sinto-as numa nevrose...

numa fascinação... numa alucinação!

– quer agonie ou goze —

eu as sinto nevoentas,

lânguidas e luarentas,

uma por uma dando o pálido clarão!

 

Uma diz: “chamo-me Apoteose!”

Outra diz: “chamo-me Afeição!”

Outra é, levíssima, a Confiança,

Outra — a Lembrança

Outra — a Ambição...

 

E assim tenho a visão de que as estrelas de ouro

Vêm, dançando, ao meu sonho e vão descendo em coro.

 

Mas choro de aflição...

pois falta estrela que procuro em choro,

falta a q1ue foi na terra um vulto louro,

falta a que está nos céus, e acha desdouro

descer e iluminar-me o coração!...

 

         Carrilhões, 1917

 

Comentário: Trata-se de um poema pertencente ao primeiro livro de Murillo Araújo, dentro das normas estéticas do Simbolismo, pois a famosa “Semana de Arte Moderna” ainda estava a cinco anos de distância no tempo. A visão de um mundo extraterreno, mundo de essências puras, indefinido e vago, transparece nos versos. A musicalidade — e o crítico Agripino Grieco já observou que “seus versos ainda não são versos e já são música” — (in O Jornal de 23-3-24) — traduz-se no jogo aliterado e coliterado de consoantes e no jogo vocálico de assonâncias, revelando a fluidez de um ritmo plástico, como neste exemplo: “Louras, lúcidas, longas, lindas, leves, lentas”.  Leodegário A. de Azevedo Filho

 

 

INFÂNCIA

 

À noite (e lá por fora ia a tormenta...)

Eu pedia a Mamãe: —Conta uma história!

E ouvia... Cabecinha sonolenta,

Via os reinos de fada — via a Glória.

 

(Havia a ventania e a merencória

Chuvarada, nas telhas, barulhenta).

— “Era uma vez...” É incenso na memória

aquela voz embaladora e lenta!

 

Hoje (que diferente é cada idade!)

Mamãe foi ver as fadas...  foi talvez

morar no Reino da Felicidade!

 

Hoje sou homem, sou, vejam você.

Aì! Vindo a noite e vindo a tempestade

Só da Saudade escuto: — Era uma Vez!

 

                  Carrilhões, 1917

 

 

                   HUMORESCO SILVESTRE

 

                   O vento, chefe de esquadrão, comanda os pelotões do mato.

 

                   E no horto florestal — quartel das árvores —

                   os pinheiros e coqueiros

                   fazem ginástica

                   sueca.

 

                   Os castanheiros

                   com as flores de penacho

                   jogam peteca.

 

                   Sussurram pífanos e rufos na charanga dos bambus.

                   E as bananeiras

                   batendo as raquetas das palmas

                   batem pelota com a péla da lua.

 

                   Mas de repente

                   silêncio...

 

                   Pesa o repouso lunar.

 

                   Um grilinho clarina.

                   E o vento chefe-de-esquadrão ordenas aos ramos “descansar.”

 

                                      A Iluminação da Vida, 1927

 

Comentário: “O regionalismo é uma nota marcante do sentimento de brasilidade revelado no poesia de Murillo Araújo. A cosmovisão do poeta está impregnado das reminiscências infantis na terra mineira. Aliás, o poeta passou a sua infância na Zona da Mata, em Minas Gerais. E deste amor regional surge uma característica nova em sua poesia, que é a do humor pictórico, por ele indicada através de neologismo humoresco. O vocábulo se formou de humor mais o sufixo –esco, da palavra pinturesco. Leodegário A. de Azevedo Filho

 

Poemas e textos extraído da obra POETAS DO MODERNISMO, vol. 4, edição comemorativa dos 50 anos da Semana de Arte Moderna. Publicação do Instituto Nacional do Livro, em 1972.

 

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CANÇÃO DA LUA QUE LAVA

Lua, que lavas teus linhos,
sempre a lavar
numa lixívia de nuvens,
branca, branquinha de espuma,
e escorres tudo lá no alto
para seca;

lua que lavas teus linhos
pelo valados maninhos,
na serra onde vai nevar;

oh lua alagando o mundo
nesta espuma de cegar!

lua que lavas teus linhos
e que os enxáguas
e os pões em qualquer lugar —
nos terraços lageados,
nos velhos muros calados,
nos laranjais do pomar
ou nos campos orvalhados
onde estão a gotejar —

vem, lua, e lava minha alma!

Oh lava minha alma em lágrimas,
para que Deus, sol das almas,
venha a enxugar

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Murillo Araujo

De
Murillo Araujo
Poemas completos de... 
Com uma introdução de Jorge Amado.
 Rio de Janeiro: Pongetti, 1960    3 v.  
 --- v. 1   Inclui os livros: Carrilhões - seguidos d´A Galera; Árias de muito longe; A cidade de ouro; A iluminação da vida. 
--- v. 2  Inclui livros: As sete côres do céu; A estrêla azul; A escadaria acêsa.    
--- v. 3  Inclui os livros: O palhacinho quebrado; A luz perdida; O candelabro eterno.

 

Exemplares que pertenceram à biblioteca do poeta e crítico literário Oswaldino Ribeiro Marques que tinha o costume de fazer anotações nas páginas dos livros ressaltando aspectos das obras, anotando as páginas com os poemas de sua preferência. Por exemplo, no volume 1 ele registra a lápis:  " O melhor é a Iluminação da Vida, referindo-se ao último dos 4 livros do primeiro volume.

Sem referir-se a textos específicos, anota: "pré-rafaelistas - tom romântico, intensificado por indefinido anelo e a piedade, arroubo e tristeza. Poesia nostálgica, penetrada de ressoante música e introspecção abismal."

E até encontra um erro de português em verso do poema "NESTE MINUTO a vida..."  (p. 223 ): " A água ainda está tinta de luz / porque a pouquinho é que o sol se lavou.", quando deveria dizer "há pouquinho"... Erro de revisão ou do original...

E coloca uma exclamação relativa ao poema seguinte, como a expressar admiração: (conservamos a ortografia original),  p. 77, do livro Carrilhões, ("publicados pela primeira vez em 1917" segundo informação do autor).

 

IDEALISMO

Antigos — que (de murta e louro à fronte)
cantaste Baco, em ledos parreirais,
louvando as uvas, como Anacreonte.
e o vinho e o mel e o beijo materiais —

passastes! ... E passaram vossas trovas
e a vossa musa hidrópica — a Taverna!
Nós, os novos, cantamos odes novas
ao suco novo de uma Vinha Eterna!

As vossas vinhas — foi-vos fácil tê-las..
mas ai! aquelas a que temos jús...!
Se é tão longe a parreira das estrêlas,
quando seremos bêbados... de Luz?!

Um dia, um dia erguidos no horizonte,
transfigurados pela Morte (as quando?)
nós chegaremos (louro e murta à fronte)
aos céus, ao nosso parreiral — cantando!

 

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Oswaldino Ribeiro Marques comenta alguns versos do livro"O Palhacinho Quebrado"  em que "O autor incide, aqui num êrro: do ponto de vista da Boneca, Solita tem que ser "artificial". Ela, Boneca, é que é "natural"", referindo aos seguintes versos (p. 33), v. 2):


"O artista ama a ilusão, que é sempre artificial;
não pode pois gostar de um ser que é natural
e inda menos de um ser que o tortura e oprime..."


Oswaldino Marques coloca uns círculos arredor de algumas palavras dos versos de de um poems de "História de um menino doente" (p. 65, ver imagem abaixo...)
 

Murillo Araujo

Oswaldino não registrou nenhum comentário... Certamente que estranhou o texto, que dá lugar a certa ambiguidade... "Comeria comigo ao jantar e ao almôço? como um irmão menor ou como um bom amigo.." (!) A exclamação é do crítico...

Em compensação, ele sublinha e assinala versos que o entusiasmaram no poema "Pela excelsa música" (do livro A Luz Perdida, "publicada pela primeira vez em 1952" e que aparece no vol. 3, p. 159), assinalados em azul os versos destacados pelo crítico Oswaldino: [conservando a ortografia da época]



PELA EXCELSA MÚSICA

Bendito, seja meu Senhor, teu estro
na música do mundo!

Bendito sejas, Maestro!

Bendito sejas por teus ritmos soberbos,
ritmos de profundíssimo esplendor.
(Bem sei que o ritmo é o sentido alto e recôndito da Vida,
Senhor.)

Bendito seja o acorde inumerável
com colcheias de estrêlas
no andante milenar;
o scherzo da água e da espuma,
notas com ponto, em trêmulo
na pauta clara do mar;
o aéreo, o quase abstrato pizzicato
da borboleta em saltos pela moita. —
ou o longo adágio
com o plenilúnio, semibreve de ouro
marcando o longo cantochão da noite!


Bendita seja, meu Senhor, tua harmonia.

Bendito seja êsse transporte
com que enches de clarões e melodia
todo o meu coração até a morte!

 

No vol. 2, Oswaldino não assinala e quase não sublinha versos. No entanto, com sua letrinha miúda, anota na folha de rosto as páginas em que estão os seus poemas favoritos e tece comentários brevíssimos:  p. 35 - ! ["História da gôta d´água"]; p. 38 - !! ["Primeira estampa"]; p. 46 - !! ["O Reino acabado"]; p. 53 ! [Estampa da manhã ingênua"]; p. 54 - belo ["Estampa das garotinhas da praia"]; p. 67 - típico de ingenuidade, da poesia cartoon de M.A.]; 76 - idem. [na p. 76 aparece o final de um poema que vem da página 75 ("Toada do poeta em recreio"); talvez Oswaldino se refira ao poeta da p. 77 que está em seguida: "Toada do meu Carnaval"]; 82 - bom ["Canto da pátria jovem"]; p. 115 - ! ["As meninas rosas"*]; p. 132 - !["Para brincar dormindo"]; p. 144- ! ["Capitão de longo curso"]

 

* Nota: Talvez devêssemos copiar todos os versos que Oswaldino assinalou, sublinhou e, em alguns casos, colocou um ponto de exclamação ao lado, para dar ideia do que o crítico mais apreciou nos volumes dos "Poemas Completos". Não sabemos ainda se ele usou essas anotações em alguma resenha crítica, o que é bem provável, embora muitos dos livros de sua biblioteca (que obtivemos em sebos pela cidade de Brasília, depois de sua morte) estão repletos de anotações, o que prova que ele efetivamente os lia e analisava...  No caso do poema "As meninas rosas" vale a pena revelar os versos que ele assinalou:  "Ah, não podem... / Seguem procissões nos ares / como formaturas brancas de escolares."  //  "e brincar sòzinhas / nos jardins, na rua,/ sem a mestra gorda que as vigia — / a lua!".  

 

Por último, vale a pena copiar a dedicatória de Murillo Araujo que aparece no primeiro volume para se ter uma idéia da amizade e intimidade entre eles:  " A Oswaldino Marques — um dos mais altos valores de sua geração — ao Poeta e a Amigo — como simples homenagem cordial do      Murillo Araujo    Ipanema, 17 de agosto de 1960      R. Barão de Jaguaribe. 56"

 (A.M.)


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TEXTO EN ITALIANO

 

CANZONE DELLA LUNA LAVANDAIA

Trad. Anton Angelo Chiocchio

O luna che fai il bucato,
luna, luna lavandaia
in una schiuma di nuvole
candida come liscivia
e stendi i panni là in cima
a candeggiare...

O luna che fai il bucatO
pei fòssi incolti, pei monti
su cuí sta per nevicare...

Luna che schizzi sul mondo
saponata da accecare...

O luna che fai il bucato
e lo risciacqui,
lo sciorini dappertutto,
su terrazzi lastricati,
vecchi muri intonacati,
aranceti, campi intrisi
di riagada, a gocciolare...

O luna che fai il bucato
sin sulle spiagge del mare...

Luna, lava la mia anima!

Vueni, lavala di lagrime,
perchè Dio, sole dell´anime,
poi la venga ad asciugare.

 

 

Extraído de ANTON ANGELO CHIOCCHIO – CINQUE NOTTURNI BRASILIANI (Cinco noturnos brasileiros).  Rio de Janeiro: Edições GRD, 1964.
Exemplar da coleção de Marly de Oliveira, doada pela família à Biblioteca Nacional de Brasília.

 

Página publica em dezembro de 2007; ampliada em maio de 2009; ampliada e republicada em junho de 2010

 


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