POESIA MINEIRA
Corrdenação de WILMAR SILVA
LUIZ RUFFATO
Nasci em Cataguases (MG), em fevereiro de 1961, filho de um pipoqueiro e de uma lavadeira. Sou formado em Comunicação pela Universidade Federal de Juiz de Fora (MG). Já fui, nesta ordem, pipoqueiro, caixeiro de botequim, balconista de armarinho, operário têxtil, torneiro-mecânico, jornalista, sócio de assessoria de imprensa, gerente de lanchonete, vendedor de livros autônomo e novamente jornalista, profissão que exerço atualmente em São Paulo, onde moro há dez anos. Publiquei dois livros de contos, "Histórias de Remorsos e Rancores" (1998) e "(os sobreviventes)" (2000), ambos pela Boitempo Editorial, de São Paulo. Tenho um livro de poemas inédito, "As Máscaras Singulares".
MAIO
o despertador marca
o minuto perdido
por entre os dedos
na mão fechada.
o despertador marca
o movimento contínuo
da passagem das nuvens
da morte inadmissível
das rosas e do sol
que se multiplica
geometricamente entre as
folhas dos pinheiros
o despertador marca
principalmente o caminho
da solidão percorrida
nas conversas modorrentas
após o almoço em família
frente à televisão
o caminho da solidão
percorrido pela fumaça
do cigarro que se
evola incondicionalmente
em direção às nuvens
o despertador marca
o minuto contido
e o peito opresso
na varanda
no quarto no quintal
o despertador marca
os limites da solidão
atravessada na garganta
doída na raiz do dente
enfiada — dedo —no ânus
a solidão implacável
que desce como um guerreiro
medieval em minha direção
neste domingo de maio
em minha casa
O RIO APASCENTA A NOITE
(segunda versão)
à noite o rio
se torna de vidro.
como uma serpente
digere a escuridão
e não mais se move
e o barulho que se ouve
é apenas o eco do bater
de suas águas
nas pedras
o dia inteiro
e o som não consegue se desvencilhar
da barreira formada pelas árvores e touceiras de capim
de suas margens
mas mesmo tendo certeza de sua paralisia vitral
ouvimos o som monótono
e ao mesmo tempo fluídico
que se labirinta pelos nossos ouvidos
e nos faz parte dele.
a noite torna-se morta
passo
a
passo
a cidade se esvai pelos poros
das janelas e portas das casas ribeirinhas
a noite agoniza
perde sangue
assassinada pelo punhal da lua amarelo-
laranja que se descortina por detrás das
nuvens
deixando-nos apenas antevê-las
adivinhá-la
encapuçada.
neste
rio lanço
a pedra fundamental
de minha sepultura.
 |
Extraídos de POESIA EM MOVIMENTO – ANTOLOGIA, org. de JORGE SANGLARD. Juiz de Fora, MG: EDUFJF, 2002. 224p.
De
Luiz Ruffato
AS MÁSCARAS SINGULARES
São Paulo: Boitempo Editorial, 2002
ISBN 85-755i-016-2
II
Habitam as sombras a cidade que habita
um corpo que nela habita num momento, esse.
A cidade retornar é diverso de nela
permanecer, mesmo que em pensamento.
Volver: nas ruas subsumir a própria face
espelhada. Estar no porão da cidade todo
tempo: ela mesma reconhecer-se, objetos
olvidados na memória reordenar. Os olhos
de Medusa enfrentar e torná-la pétrea.
V
Onde quer que estejas, em teu país
ou em outro, és estrangeiro: ninguém
tua língua compreende. Só, o deserto
de estranhas veredas percorres.
Conservas, no entanto, dos primeiros anos
o albor, quando tua cidade, madrasta e mãe,
teus sonhos na noite fresca velava.
A grande mão que afagou-te esmaga o peito agora.
Ah! Somos apenas o que somos. Apenas.
|