Briga
Eu vou agüentar
Eu sou mais forte porque
sei que ele é mais fraco
Aí ele entrou no banheiro
tomou banho
e saiu de novo pra rua
Não se meta na minha vida
enquanto você falar pra eu não fazer
eu faço
Quanto mais você fala
mais eu faço
Saio daqui todo dia
às onze da noite
Não vou bater nele
se eu der um tapa
ele cai
Não é justo a gente viver
eternamente se sacrificando
tem uns três anos que estou nessa
dois empregos
já operei do coração
Devia ser um exemplo um estímulo
Já vi que não sou
sou a derrota
Um dos dois tem que ficar
Quem vai cuidar dos meninos?
Se ele ficar doente
eu fico boa
Deus vai me ajudar
vai me dar coragem
O povo já fala
o homem da casa sou eu
Não deixa ele saber
Ele vai virar bi
Eu não falei nada
As mãos de Deus
Morreu na explosão
Me deixou sozinha
Chovia fazia sol
a gente sempre em casa
As pessoas comentavam
Que vida mais gostosinha
a de vocês
Dei sim, dei tudo
só para ele
Hoje, por grana,
pra todos)
Não roubo, não mato
mesmo assim me pergunto
se não faço algo de
errado
Irani, manda Gilson embora
Eu mando
Mas êle não vai
Descartável
Vontade de me jogar fora
Argumento
Mas se todos fazem
Ventura
A Fernando Reis
Corro. No deserto
líquidos longes e pertos
Palavra do pó, limalha
ranhura do olhar cego
O sol com brilho de lua
apaga-se em desmemoria
Pedra sedenta o poente
da luz que tudo sente
Rasga o ar sua túnica
de seda e romã - este sangue
Aventura humana e dura:
a nenhuma aventura
De
O SOL DOS CEGOS
Rio de Janeiro: 1968
O RITO
Na calçada o rito
se dispõe concreto:
respiro ou aspiro
o hálito discreto
que exalam os mortos
inconfessos
Permanentemente
sobre as avenidas
um grito inaudível —
indício seguro
do terrível equívoco
Porém como ouvi-lo?
Nada nos restringe
nem sequer o grito
tudo se dissolve
nas lindes do rito
(Soletrar os signos
que contém o rito
para destruí-lo
ou reproduzi-lo?)
PAISAGEM
O telefone arqueja sobre a mesa
giram os cataventos na colina
surgem nucas do fundo de gavetas
recobrem-se de relva as piscinas
Minha gravata pelo céu adeja
ao embalo desta brisa vespertina
Diluiu-se no ar a única defesa
interposta entre o canteiro e a usina
Ainda está gravado no lajedo
(rastro de serpente) a queda do irmão
ou um outro gasto travesti do medo
E sobre o casario um astro míope
parece contemplar a sucessão
infinita de enganos que amor move
UM HOMEM
De regresso ao mundo e a meu corpo
As estradas já não anoitecem à sombra de meus gestos
nem meu rastro lhes imprime qualquer destino
Sou a água em cuja pele os astros se detêm
A pedra que conforma o bojo das montanhas
O vôo dos ares
De
FRANCISCO ALVIM / ZUCA SARDANA
POEMAS
Introducción y traducción de
Abelardo Sánchez León
Lima: Centro de Estudios Brasileños, 1978
Luz
Em cima da cômoda
uma lata, dois jarros, alguns objetos
entre eles três antigas estampas
Na mesa duas toalhas dobradas
uma verde, outra azul
um lençol também dobrado livros chaveiro
Sob o braço esquerdo
um caderno de capa preta
Em frente uma cama
cuja cabeceira abriu-se numa grande fenda
Na parede alguns quadros
Um relógio, um copo
De Passatempo (1974)
Quase aposentado
Da janela de meu trabalho
vejo três palmeiras
Entre elas e eu uma rua estreita
uma lâmina de vidro
um parapeito baixo sobre o qual se amontoam fichas
catálogos
embrulhos
As palmeiras talvez tenham a minha idade
Posso dizer-lhes
(como se a mim algum dia houvesse dito)
— Somos moços
vamos ver o que a vida ainda nos reserva
A tarde é uma velha doente, ressentida com o mundo
em cujas veias o sangue tornou-se espesso e difícil
de cujas folhagens escorre uma brisa macilenta
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TEXTS IN ENGLISH
Translation> Antonio Sergio Bessa
From ELEPHANT
Originally published in
bombmagazine.com
Fonte: /www.vila.com.br
Open
for Cacaso
Sometimes the gaze follows
the network of light
without any curiosity
any illusion
It goes on in search of time
and time, as always,
emptied of everything
is not far
is here, now
The gaze with no memory
without destiny
arrested
in the air of air
in the light of light—
site?
Poem
for Carlos Drummond de Andrade
There are many shadows in the world
They blow in the clouds
and in the air they
glitter solitary like topazes—
drops of dimmed light
The stars blow wind
Shadows are the wind of stars
At the bottom of waters trapped
in ponds and dams
there is a wind of waters—
shadows
In the sea
they refract submersed
transient
amidst forests of algae—
shadows of emerged shadows
They are made—the shadows—of dark
air
They remember all and nil
The flight of shadows
spins around a sonorous
column, the poem—
light from inside
Out
No Plot
Still
In the platform above
Between the legs
on the floor
the groceries in a plastic bag
Far from verse, almost prose
No guts
for the always venturesome—
while they last—
flights of passion
Far so far
from humor from irony
from the polymorph voices
sibylline
tattered in the tongue’s
ear
Where ground is ground
legs, legs
things, things
and the word, none
There, only the refraction
of an idea
of a thought exhausted
of movement
Between two roads
two harbors
(two lagoons)
two illnesses
Sublime virtues of chance
why not take me
from inside
and protect me from the cold outside
from the incessant, unbearable flight of plot?
from choosing?
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TEXTOS EN ESPAÑOL
Fonte: http://aguerradasimaginacoes.blogspot.com
De
FRANCISCO ALVIM / ZUCA SARDANA
POEMAS
Introducción y traducción de
Abelardo Sánchez León
Lima: Centro de Estudios Brasileños, 1978
Paisaje
El teléfono arquea sobre la mesa
giran las veletas en la colina
surgen nucas del fondo de las gavetas
se recubren de hierba las albercas
Mi corbata revolotea por el cielo
al compás de esta brisa vespertina
Se diluyó en el aire la única defensa
interpuesta entre la huerta y la usina
Todavía está grabada en las lajas
(rastro de serpiente) la caída del hermano
o un otro gastado disfraz del miedo
Y sobre el caserío un astro miope
parece contemplar la sucesión
infinita de engaños que el amor mueve
De Sol dos cegos
Luz
Encima de la cómoda
una lata, dos jarros, algunos objetos
entre ellos tres antiguas estampas.
En la mesa dos toallas dobladas
una verde, otra azul
también una sábana doblada libras un
llavero
Bajo el brazo izquierdo
un cuaderno de tapa negra
Al frente una cama
cuya cabecera se abrió en una grieta inmensa
En la pared algunos cuadros
Un reloj, un vaso
De Passatempo (1974)
Página ampliada e republicada em janeiro de 2009
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