FRANCISCO Soares ALVIM Neto nasceu em Araxá, em Minas Gerais. Diplomata. Seu primeiro livro — Sol dos cegos (ed. do autor) — é de 1968, seguindo-se Passatempo (Rio Frenesi, 1974) e O Corpo fora (São Paulo? Duas Cidades, 1988). Viveu um período em Brasília onde participou de movimentos de poesia marginal, tendo sido o organizador da célebre antologia Águas Emendadas (1977). Os poemas a seguir foram extraídos de Elefante (São Paulo? Companhia das Letras, 2000), poemas da época em que o poeta vivia em Roterdã, na Holanda.
“Francisco Alvim é mais oswaldiano do que o próprio Oswald de Andrade. Coloquial, radical, desconcertante... Humor e nonsense...” Antonio Miranda
Na calçada o rito
se dispõe concreto:
respiro ou aspiro
o hálito discreto
que exalam os mortos
inconfessos
Permanentemente
sobre as avenidas
um grito inaudível —
indício seguro
do terrível equívoco
Porém como ouvi-lo?
Nada nos restringe
nem sequer o grito
tudo se dissolve
nas lindes do rito
(Soletrar os signos
que contém o rito
para destruí-lo
ou reproduzi-lo?)
PAISAGEM
O telefone arqueja sobre a mesa
giram os cataventos na colina
surgem nucas do fundo de gavetas
recobrem-se de relva as piscinas
Minha gravata pelo céu adeja
ao embalo desta brisa vespertina
Diluiu-se no ar a única defesa
interposta entre o canteiro e a usina
Ainda está gravado no lajedo
(rastro de serpente) a queda do irmão
ou um outro gasto travesti do medo
E sobre o casario um astro míope
parece contemplar a sucessão
infinita de enganos que amor move
UM HOMEM
De regresso ao mundo e a meu corpo
As estradas já não anoitecem à sombra de meus gestos
nem meu rastro lhes imprime qualquer destino
Sou a água em cuja pele os astros se detêm
A pedra que conforma o bojo das montanhas
O vôo dos ares
De FRANCISCO ALVIM / ZUCA SARDANA
POEMAS
Introducción y traducción de
Abelardo Sánchez León
Lima: Centro de Estudios Brasileños, 1978
Luz
Em cima da cômoda
uma lata, dois jarros, alguns objetos
entre eles três antigas estampas
Na mesa duas toalhas dobradas
uma verde, outra azul
um lençol também dobrado livros chaveiro
Sob o braço esquerdo
um caderno de capa preta
Em frente uma cama
cuja cabeceira abriu-se numa grande fenda
Na parede alguns quadros
Um relógio, um copo
De Passatempo (1974)
Quase aposentado
Da janela de meu trabalho
vejo três palmeiras
Entre elas e eu uma rua estreita
uma lâmina de vidro
um parapeito baixo sobre o qual se amontoam fichas
catálogos
embrulhos
As palmeiras talvez tenham a minha idade
Posso dizer-lhes
(como se a mim algum dia houvesse dito)
— Somos moços
vamos ver o que a vida ainda nos reserva
A tarde é uma velha doente, ressentida com o mundo
em cujas veias o sangue tornou-se espesso e difícil
De FRANCISCO ALVIM / ZUCA SARDANA
POEMAS
Introducción y traducción de
Abelardo Sánchez León
Lima: Centro de Estudios Brasileños, 1978
Paisaje
El teléfono arquea sobre la mesa
giran las veletas en la colina
surgen nucas del fondo de las gavetas
se recubren de hierba las albercas
Mi corbata revolotea por el cielo
al compás de esta brisa vespertina
Se diluyó en el aire la única defensa
interpuesta entre la huerta y la usina
Todavía está grabada en las lajas
(rastro de serpiente) la caída del hermano
o un otro gastado disfraz del miedo
Y sobre el caserío un astro miope
parece contemplar la sucesión
infinita de engaños que el amor mueve
De Sol dos cegos
Luz
Encima de la cómoda
una lata, dos jarros, algunos objetos
entre ellos tres antiguas estampas.
En la mesa dos toallas dobladas
una verde, otra azul
también una sábana doblada libras un
llavero
Bajo el brazo izquierdo
un cuaderno de tapa negra
Al frente una cama
cuya cabecera se abrió en una grieta inmensa
En la pared algunos cuadros
Un reloj, un vaso
De Passatempo (1974)
ASSALTARAM A GRAMÁTICA
Jovens e vivazes, provocadores e inovadores... Alice Ruiz... todos jovenzinhos..., Chacal e Chico Alvim, Cristina César, Paulo Leminski, Wally Salomão... e outros mais, num video imperdível, memorável, enviado por Edson Cruz, do Sambaquis, que recebeu do Giuseppe Zani, via Ricardo Aleixo, que... agora passamos adiante. Vejam e repassem....
COMENTÁRIO SOBRE A SUSPENSÃO DO VÍDEO:
Aqui está um bom exemplo da confusão referente à Lei do Direito Autoral no Brasil... Recebemos este vídeo pela Internet, de um dos personagens do vídeo, pedindo a difusão...
Foi o que fizemos. A produtora entrou com um pedido para o reconhecimento de seus direitos autorais. O vídeo não foi publicado em nosso Portal, apenas fizemos um link, a pedido de um dos poetas. A fonte onde está depositado deve ter suspenso a disponibilização do video até que se resolva a questão. Sem entrar no mérito do recurso da produtora, fica sempre aquela pergunta: em alguma instância os poetas participantes do vídeo vão receber por sua imagem? Mas a questão é outra: quando o Brasil vai adotar o FAIR USE, quando a divulgação for sem fins lucrativos, por interesse estritamente cultural? Fica aqui o link cego para representar o dano à cultura. Sem com isso querer contestar o pleito da produtora, cuja decisão cabe à justiça, nos estreitos, estreitíssimos, espaços da lei vigente, que estava em processo final de discussão para ser reformada e que atualmente está de molho... Uma lei só é boa quando for justa para todos.
Página ampliada e republicada em janeiro de 2009; ampliada e republicada em fevereiro de 2011.