CÉ
CÉLIO CÉSAR PADUANI
LIO CÉSAR PADUANI
Natural de Divinópolis, bacharelou-se em Direito pela Universidade Federal de Minas Gerais em 1965, fez mestrado em Ciências Penais e doutorado em Filosofia do Direito. Publicou muito na imprensa literária e depois editou o livro “O Estranho Canto do Pássaro”. Toda sua obra foi compilada no volume “Antologia Poética”, em 2002, obtendo a classificação Hours Concours em concurso nacional da Academia Mineira de Letras. Desembargador do Estado de Minas Gerais. É membro da União Brasileira de Escritores de São Paulo.
“No início dos anos 60, mantinha correspondência com Célio para discutir as vanguardas de poesia daqueles tempos. E fui a Belo Horizonte, a convite dele, participar de uma exposição de poemas visuais, e levei trabalhos dos poegoespacialistas e de neoconcretos (entre eles o Ferreira Gullar, com seus não-objetos). Tempos depois eu fui para a Venezuela e perdi contato com o poeta mineiro.. Agora o redescubro em livros. E faço aqui o primeiro registro, como forma de reaproximação com o poeta e o amigo.” ANTONIO MIRANDA, 10/06/2006.
Além da Rosa
A flor queima no jardim
a cor que dizem bela,
o corpo que me enlaça
tem seios e nervuras.
Não posso ir
além da rosa que ausculto,
a matéria que pesa sobre mim
tem guizos de eternidade.
Entretanto,
nada sofro por mim:
— se nas ruas e praças
o suor de corpos
iguala-nos à sombra
- de precárias formas.
Chuva
Como chove na noite escura!
nos lares ermos nenhuma luz floresce.
Parece paz, mas é a chuva
que cai,
recolhendo mistérios e medos.
Entre a música que alguém toca
ao piano, em um céu distante,
e a chuva que morre nas calçadas,
prefiro a chuva, por ser simplesmente a chuva
que cai, sem enigmas,
esfriando minha noite que abraço
— e me enternece.
O mundo e a flor
A noite é a noite, amor,
e já não posso te amar.
A praça é de guerra,
as identidades desconcentram-se
nas pessoas, nas máquinas e no mundo.
Apenas me resta te pensar,
e meu corpo prossegue inexorável
para o que possa vir a ser.
Penso-te, livre o pensamento
que não decifra a esfinge
de minha razão de exisir.
Pensar-te, porém pensar
não é o epicentro da posse.
Assim, nos exilamos a cada instante,
o relógio bate o fim das horas.
Seres e coisas
explodem bodas de mármore.
A mente implode, globaliza-se,
e descola-se,
mas ainda resistes, oh flor,
posto que exausta, ainda que felina:
— rosa púrpura de minha razão.
Inatingível poesia
Poesia que não conheço
e jamais conhecerei.
Luz que mal apalpo
Quisera amá-la como
o amor, mas o amor é mais fácil
que tua essência.
Guarda-me para depois.
Em vão: é inútil.
O incompleto acervo de sentimentos
e desrazões será recolhido algum dia.
Poeta, homem recolhido
do interior de Minas:
— o país não comporta
as emoções da técnica.
Que nos espera se a poesia
é recôndita e o mundo
insensível além da mídia.
Assim, amante transtornado,
Dante retornou aos infernos.
A chuva
A chuva
vertical e em cântaros:
— expectante cruzo a liquidez
marginal da noite.
Na quietude do olhar
apenas perscruto
a sutil aparência da queda.
Proíbo-me:
— pássaro, míssil, bomba
perseguir a imensidão do cosmos
ou plantar a bandeira de meu sonho
no pico mais alto do universo.
Posto que prefiro
a rente luz do chão,
o convívio cógnito de seres vivos
que arrastam dores e presságios
nas ruas anônimas e desertas.
Extraídos da antologia SONATA POÉTICA. Belo Horizonte: Anome Livros, 2005. |