CÉ
CÉLIO CÉSAR PADUANI
LIO CÉSAR PADUANI
Natural de Divinópolis, bacharelou-se em Direito pela Universidade Federal de Minas Gerais em 1965, fez mestrado em Ciências Penais e doutorado em Filosofia do Direito. Publicou muito na imprensa literária e depois editou o livro “O Estranho Canto do Pássaro”. Toda sua obra foi compilada no volume “Antologia Poética”, em 2002, obtendo a classificação Hours Concours em concurso nacional da Academia Mineira de Letras. Desembargador do Estado de Minas Gerais. É membro da União Brasileira de Escritores de São Paulo.
“No início dos anos 60, mantinha correspondência com Célio para discutir as vanguardas de poesia daqueles tempos. E fui a Belo Horizonte, a convite dele, participar de uma exposição de poemas visuais, e levei trabalhos dos poegoespacialistas e de neoconcretos (entre eles o Ferreira Gullar, com seus não-objetos). Tempos depois eu fui para a Venezuela e perdi contato com o poeta mineiro.. Agora o redescubro em livros. E faço aqui o primeiro registro, como forma de reaproximação com o poeta e o amigo.” ANTONIO MIRANDA, 10/06/2006.
ROSABELHA
Este poema concreto de Célio César Paduani não está datado. No entanto, ele já fazia experiência do tipo no final da década de 50, quando ainda era estudante de Direito na UFMG, e até promoveu uma mostra de poesia de vanguarda por lá, de que participamos Da Nirham Eros (pseudônimo de Antonio Miranda à época), e Ferreira Gullar com um poema objeto. Ele continuou escrevendo poesia nos anos seguintes, mas de cunho literário. A.M.
Mario Chamie, na Revista de Cultura VOZES (N. 1, 1977, ano 71) escreveu sobre este poema concreto o seguinte comentário: "O espacejamento gráfico, obedecendo a padrões caros na época, serve de cenário espacial e tipográfico para uma decomposição centrada no termo "rosabela" que, através de ruído, transforma-se, na última linha, em "rosabelha". Talvez seja pouco para um poema se firmar antologicamente."
Além da Rosa
A flor queima no jardim
a cor que dizem bela,
o corpo que me enlaça
tem seios e nervuras.
Não posso ir
além da rosa que ausculto,
a matéria que pesa sobre mim
tem guizos de eternidade.
Entretanto,
nada sofro por mim:
— se nas ruas e praças
o suor de corpos
iguala-nos à sombra
- de precárias formas.
Chuva
Como chove na noite escura!
nos lares ermos nenhuma luz floresce.
Parece paz, mas é a chuva
que cai,
recolhendo mistérios e medos.
Entre a música que alguém toca
ao piano, em um céu distante,
e a chuva que morre nas calçadas,
prefiro a chuva, por ser simplesmente a chuva
que cai, sem enigmas,
esfriando minha noite que abraço
— e me enternece.
O mundo e a flor
A noite é a noite, amor,
e já não posso te amar.
A praça é de guerra,
as identidades desconcentram-se
nas pessoas, nas máquinas e no mundo.
Apenas me resta te pensar,
e meu corpo prossegue inexorável
para o que possa vir a ser.
Penso-te, livre o pensamento
que não decifra a esfinge
de minha razão de exisir.
Pensar-te, porém pensar
não é o epicentro da posse.
Assim, nos exilamos a cada instante,
o relógio bate o fim das horas.
Seres e coisas
explodem bodas de mármore.
A mente implode, globaliza-se,
e descola-se,
mas ainda resistes, oh flor,
posto que exausta, ainda que felina:
— rosa púrpura de minha razão.
Inatingível poesia
Poesia que não conheço
e jamais conhecerei.
Luz que mal apalpo
Quisera amá-la como
o amor, mas o amor é mais fácil
que tua essência.
Guarda-me para depois.
Em vão: é inútil.
O incompleto acervo de sentimentos
e desrazões será recolhido algum dia.
Poeta, homem recolhido
do interior de Minas:
— o país não comporta
as emoções da técnica.
Que nos espera se a poesia
é recôndita e o mundo
insensível além da mídia.
Assim, amante transtornado,
Dante retornou aos infernos.
A chuva
A chuva
vertical e em cântaros:
— expectante cruzo a liquidez
marginal da noite.
Na quietude do olhar
apenas perscruto
a sutil aparência da queda.
Proíbo-me:
— pássaro, míssil, bomba
perseguir a imensidão do cosmos
ou plantar a bandeira de meu sonho
no pico mais alto do universo.
Posto que prefiro
a rente luz do chão,
o convívio cógnito de seres vivos
que arrastam dores e presságios
nas ruas anônimas e desertas.
Extraídos da antologia SONATA POÉTICA. Belo Horizonte: Anome Livros, 2005. |