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BERNARDO GUIMARÃES

BERNARDO GUIMARÃES

Bernardo Joaquim da Silva Guimarães (Ouro Preto, 15 de agosto de 182510 de março de 1884) foi um romancista e poeta brasileiro, conhecido por ter escrito o livro de nome A Escrava Isaura.

Formou-se na Faculdade de Direito de São Paulo, em 1847, e nesta cidade tornou-se amigo dos poetas Álvares de Azevedo (1831-1852) e Aureliano Lessa (1828-1861). Os três e outros estudantes fundaram a Sociedade Epicuréia. Foi nessa época em que Bernardo Guimarães teria introduzido no Brasil o bestialógico (ou pantagruélico), que se tratava de poesia cujos versos não tinham nenhum sentido, embora bem metrificados. A maioria dessa poesia não foi publicada porque era considerada pornográfica, e se perdeu. Para alguns críticos, o melhor do escritor seria o bestialógico. Um exemplo dessa produção (não-pornográfica) é o soneto Eu Vi dos Pólos o Gigante Alado.  (Texto da Wikipedia) 

 

                   Veja também: O ELIXIR DO PAJÉ  (poema erótico-cômico)

 

Prelúdio    

                    

         Neste alaúde, que a saudade afina,
Apraz-me às vezes descantar lembranças
         De um tempo mais ditoso;

 

 De um tempo em que entre sonhos de ventura
Minha alma repousava adormecida
         Nos braços da esperança.

Eu amo essas lembranças, como o cisne
Ama seu lago azul, ou como a pomba
         Do bosque as sombras ama.

 

Eu amo essas lembranças; deixam n'alma
Um quê de vago e triste, que mitiga
         Da vida os amargores.

 

Assim de um belo dia, que esvaiu-se,
Longo tempo nas margens do ocidente
         Repousa a luz saudosa.

 

Eu amo essas lembranças; são grinaldas
Que o prazer desfolhou, murchas relíquias
         De esplêndido festim;

Tristes flores sem viço! - mas um resto
Inda conservam do suave aroma
         Que outrora enfeitiçou-nos.

 

Quando o presente corre árido e triste,
E no céu do porvir pairam sinistras
         As nuvens da incerteza,

 

Só no passado doce abrigo achamos
E nos apraz fitar saudosos olhos
         Na senda decorrida;

 

Assim de novo um pouco se respira
Uma aura das venturas já fruídas,
         Assim revive ainda

 

O coração que angústias já murcharam,
Bem como a flor ceifada em vasos d'água
         Revive alguns instantes.

 

Eu vi dois pólos

Eu vi dos pólos o gigante alado
Sobre um montão de pálidos coriscos,
Sem fazer caso dos bulcões ariscos
Devorando em silêncio a mão do fado.

Cinco fatias de tufão gelado,
Figuravam na mesa entre os petiscos,
Envolto em crepe de fatais rabisco
Campeava o sofisma ensangüentado.

Quem és? Que assim me cercas de episódios
Lhe perguntei com voz de silogismo,
Brandindo um facho de trovões serôdios!

Eu sou, me disse, aquele anacronismo
Que a vil caterva de sulfúricos ódios,
Nas trevas sepultei de um solecismo.


Nariz perante os poetas

Cantem outros os olhos, os cabelos
E mil cousas gentis
Das belas suas: eu de minha amada
Cantar quero o nariz

Não sei que fado mísero e mesquinho
É este do nariz
Que poeta nenhum em prosa ou verso
Cantá-lo jamais quis.

Ilusão desfeita

       Acabou-se o ardor antigo,

       Tenho o peito sossegado;

       Nem para fingir-me irado

       Acho agora em mim paixão.

              (Tradução de Metastásio)

 

"Oh! acredita, nunca olhar de virgem

Coou-me n'alma tanto ardor assim;

Nunca amor me sorriu com tanta graça

Em lábios de carmim!

 

"Tu és o anjo sonhado que minha alma

Aos céus pedia; - a flor que em meus caminhos

Encontrei a sorrir pura e fragrante

Do mundo entre os espinhos.

 

"Pio romeiro, irei aos pés depor-te

Oferenda singela, porém fida;

A ti a lira e o coração do bardo!...

A ti a minha vida.

 

"Cantar-te as graças, e mandar teu nome

Unido ao meu aos séculos vindouros,

Seria para mim melhor que um trono,

Melhor que mil tesouros.

 

"Porém passar meus dias a teu lado,

Ouvir-te as falas, contemplar-te o riso,

Gozar teus mimos, fôra para esta alma

Melhor que o paraíso!"

 

------------------------

 

Assim dizia-te eu naquele dia,

- O mais doce talvez da minha vida,

Em que na meiga luz desses teus olhos

Minha alma vi perdida.

 

Foi um sonho fugaz; - breve delírio.

De novo tenho o coração vazio;

E se no peito meu a mão pousares,

Achá-lo-ás bem frio!..

 

Caíste enfim da região de encantos,

A que meus puros sonhos te elevaram;

Desfez-se o talismã; - foram-se enganos,

Que outrora me embalaram.

 

Perdeste um coração que te adorava...

Porém que importa? se por um, que esfria,

Mil outros corações após teus risos

Vão correndo à porfia.

 

Mas não receies que eu maldiga aquela

Que num momento a vida me dourara;

E que num pego de emoções bem doces

Outrora me entranhara.

 

Oh! não receies, não, que eu te maldiga;

Graças a ti, aprendo hoje por fim

A não crer tanto nos fagueiros risos

De uns lábios de rubim.

 

Proveitosa lição nos fica n'alma,

Quando a ilusão se esvai:

Deixa um fruto no ramo, em que nascera

A flor, que murcha e cai.

 

         Ouro Preto, 1855.


NOVAS POESIAS

De

NOVAS POESIAS
DE
BERNARDO GUIMARAES

Rio de Janeiro: H. Garnier, Livreiro-Editor, 1900.
216 p. (Impresso em Paris)

Conservação a ortografia original.
(Exemplar da coleção A. M.)

 

CANTIGA

Aqui d´este arvoredo
Das sombras no segredo
         Oh! vem.
Por estes corredores
O bosque outras melhores
         Não tem.

O ruivo sol da tarde
Já nas montanhas arde
         D´além.
A lua alvinitente
Nas portas do oriente
         Lá vem.

A viração fagueira
A rapida carreira
         Detem,
E dorme preguiçosa
No calix da mimosa
         Cecem.

Ninguem na sombra escura
Verá nossa ventura,
         Ninguem.
Somente os passarinhos
Occultos em seus ninhos
         Nos vêm.

Do bosque entre os verdores
Se occupão só de amores
         Tambem.
E a lua, que desponta,
Jamais segredos conta
         De alguem.

Debaixo do arvoredo,
Na gramma do vargedo
         Oh( vem,
A´ sombra d´este abrigo
Fallar a sós commigo,
         Meu bem.

SE EU DE TI ME ESQUECER

Se eu de ti me esquecer, nem mais um riso
Possão meus tristes labios desprender;
Para sempre absondone-me a esperança,
         Se eu de ti me esquecer.

Neguem-me auras o ar, neguem-me os bosques
Sombra amiga, em que possa adormecer,
Não tenhão para mim murmúrio as agoas,
         Se eu de ti me esquecer.

Em minhas mãos em aspide se mude
No mesmo instante a flôr, que eu for colher;
Em fel a fonte, a que chegar meus labios,
         Se eu de ti me esquecer.

Em meu peregrinar jamais encontre
Pobre albergue, onde possa me acolher;
De plaga em plaga, foragido vague,
         Se eu de ti me esquecer.

Qual sombra de prescito entre os viventes
Passe os miseros dias a gemer,
E em miseros dias a gemer,
E em meus martyrios me escarneça o mundo,
         Se eu de ti me esquecer.

Se eu de ti me esquecer, nem  uma lagrima
Caia sobre o sepulchro, em que eu jazer;
Por todos esquecido viva e morra,
         Se eu de ti me esquecer.

 

 

 

Página publicada em janeiro de 2009; ampliada e republicada em abril de 2010.

 



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