BELMIRO BRAGA
Belmiro Ferreira Braga (Belmiro Braga, então Vargem Grande, 7 de janeiro de 1872 — 31 de março de 1937) foi um poeta brasileiro. Membro da Academia Mineira de Letras. Em sua homenagem, seu local de nascimento recebeu seu nome após ser elevado à categoria de município, passando a ser chamado Belmiro Braga.
De
Belmiro Braga
TARDE FLORIDA
Juiz de Fora: Officinas Graphicas Luz, 1923. s.p.
RETROSPECTO
Cincoenta annos já fiz, e não fiz nada
neste meus longos cincoenta annos, feitos
de pesares, de angustias, de despeitos,
a boca sorridente e a alma enlutada.
A estrada do Dever foi minha estrada,
da Virtude segui os sãos preceitos,
e nem honras, nem glorias, nem proveitos
encontro ao fim da aspérrima jornada...
Vivi sonhando com manhãs radiosas,
com bosques verdes, passaros e ninhos,
e deu-me a vida noites tormentosas,
e deu-me campos mortos e maninhos...
Cincoenta annos vivi semeando rosas,
cincoenta annos vivi colhendo espinhos...
Janeiro de 1922
A MULHER
Ella, dos 15 aos 20, nos enleia,
dos 20 aos 25, nos encanta,
dos 25 aos 30, não ha feia
e, dos 30 aos 40, não ha santa.
Dos 40 aos 50, ainda é sereia,
dos 50 aos 60, desencanta:
— Se for solteira — o proprio céo odeia,
se casada — de nada mais se espanta.
Dos 60 aos 70, não descrevo;
embora guarde n´alma um doce enlevo,
traz nos olhos da magua o espesso véo...
Seja avó, seja tia ou seja sogra,
toda velhinha meus carinhos logra
por lembrar minha Mãe que está no céo...
DE PARNY
Amar... Aos olhos da gente,
a propria escarpa é florida:
— De sonhos tece-se a vida,
que a vida é um sonho innocente...
Depois de amar... Quem resiste
á magua dos nossos olhos,
vendo em tudo urzes e abrolhos?...
Se a propria alegria é triste...
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De
Belmiro Braga
CONTAS DO MEU ROSÁRIO
Rio de Janeiro: Companhia de Seguros de Vida
“Cruzeiro do Sul”, 1918. 243 p.
[conservamos a ortografia original]
II
(A meu irmão Solano Braga).
Nesta em que vivo — triste soledade,
os olhos rasos d'agua, o peito em ancia,
recordo-me com magua e com saudade
da quadra tão feliz da minha infancia.
E entre o viver de agora e essa áurea edade,
que triste, que cruel, que atroz distancia!
E a manhã, que se foi, voltar nao ha de
impregnada de tepida fragancia...
Serras virentes que não mais transponho,
na retina fiel ainda eu vos tenho
e revejo, através de um brando sonho,
a casa onde nasci, as mansas rezes,
a varzea, a horta, o laranjal, o engenho ,
e a cruz onde eu rezava tantas vezes...
III
(A meu irmão A. Ferreira Braga).
Volto de novo ao lar paterno, e vejo
amados sitios que transpuz outr'ora
e por onde, a cantar, estrada em fóra,
ia livre de magua e de desejo.
Mudos e tristes como estão agora!
Nem urna flor a abrir, nem um adejo
alegrando o meu triste logarejo
— deserta estancia onde a Tristeza mora.
Não passa mais ninguem pelos caminhos,
ñas quietas moitas nao baloicam ninhos,
nem aves cantam pelos campos mais...
........................................................
— Dorido coracao, nao soffras tanto!
Abre os diques tristissimos do pranto
e inunda o espaço immenso com teus ais...
Belmiro Belarmino de Barros Braga – poesia satírica – poesia humorística
BELMIRO BELARMINO DE BARROS BRAGA, ou seja BELMIRO BRAGA, o admiravel trovador mineiro, nascido em Vargem Grande, dava-se, com brilhantismo invulqor, ao gôsto de fazer epigramas.
Vindo ao Rio, publicou numa revista esta
CONTRARIEDADE
- A um certo cinema fui
e me assentei junto ao Rui.
E a sua cabeça - um mundo
de tanto saber profundo _
não me deixou ver o rosto
do meu amor... Que desgôsto!
Amo ao grande Rui com ânsia,
mas naquela circunstância ...
Que nunca tal me aconteça!
Porque a verdade é verdade :
eu cheguei a ter vontade
de ver o Rui... sem cabeça ...
Num momento de decepção ocasionada por algum amigo BELMIRO dirigiu-se ao seu Terra·Nova Príncipe estas duas famosas quadras:
_ Pela estrada da vida subi morros,
desci ladeiras e, afinal, te digo:
se entre os amigos encontrei cachorros,
entre os cachorros encontrei-te, amigo!
Para insultar alguém, hoje recorro
a novos nomes feios, porque vi
que elogio a quem chame de cachorro,
depois que êste cachorro conheci,
Indo, em vilegiatura, a uma das cidades das margens do Paraibuna, BELMIRO viu-se constantemente assediado por um literatelho com fumaças de orador.
De regresso, fotografou-o:
_ Um certo orador maçante,
das margens do Paraibuna,
ao falar, de instante a instante,
vae esmurrando a tribuna,
E quem o conhece, sente,
por mais ingênuo e simplório,
que os murros são simplesmente
para acordar o auditório.
Vindas de Juiz de Fóra, onde viveu e morreu BELMIRO, as suas trovas chegavam ao Rio e lógo se espalhavam Brasil à fora.
Eis algumas:
_ Vi teus braços", que ventura!
teu cólo... as pernas... que gôsto!
Agóra, tira a pintura,
que eu quero ver o teu rosto.
_ Noite de núpcias, O Gama
encontra a espósa envolvida
num lindo roupão e exclama:
_ Posso, enfim, vêr-te vestida!
_ Mui decentes eu não acho
teus vestidos, minha prima:
são altos demais em baixo,
são baixos demais em cima!
_ A beleza não te atrái?
Só te casas por dinheiro?
Tú pensas como teu pai,
que morreu velho e... solteiro,
Página publicada em novembro de 2010; ampliada e republicada em junho de 2011 |