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POESIA MINEIRA
Colaboração de WILMAR SILVA

ANELITO DE OLIVEIRA

ANELITO DE OLIVEIRA

Nasceu em Bocaiuva, Minas Gerais, em 1970. Poeta, crítico literário, ex-editor do Suplemento Literário de Minas Gerais (1999-2003), é doutor em letras pela USP e professor na Universidade Estadual de Montes Claros (MG). Editor de revistas e livros, notadamente com o selo Orobó.

“Assim como o jazz não é o que se toca, mas como se toca, aqui a obra não é o que se diz, mas como se diz. Não é a toa que Três Festa leva o subtítulo de A Love Song As Monk, uma acertada alusão a um dos maiores revolucionários da história do jazz, um pianista singular, o norte-americano Thelonious Monk. Temos, desta forma, uma espécie de visada intersemiótica, onde, sem dúvida, os signos da poesia enquanto composição verbal se misturam aos signos da música enquanto composição rítmica. Um jazz para ser lido.” Antônio Wagner Rocha.

Veja também: POESIA VISUAL

 

De
Três Festas. A Love Song as Monk.
Belo Horizonte: Anome, 2004

(excertos)

Dificuldade de falar
Do que acontece.
De falar do que se apresenta
Como tal.
Do que é, do que está sendo
Agora. Tão falante,
Tão explícito,
Tão real.
Impossibilidade de ver o que se mostra
Tanto.

   *

Não.
Não há outro lá fora
A quem possa
                            [a quem possa
                               porque
                               devo]
Referir-me.
Não há lá fora.
Não há um a ouvir.
Mas, se saio,
Sinto-me
Dentro do
Que saio:
Retido
Móbile.

   *

E não chego até a festa.

Permaneço entre os fios
De um tecido infinito.
Nem calor nem calafrio,
Nada me sabe nem resta.

Contido, tal como grito
Dentro do rio, floresta.

   *

Não durmo no que me circunda.
Tenho-te. Ter-te é não me esquecer.
Não me esqueço. És a lembrança de mim. Terrível
                                                        acusação.
Não me suporto enredado  em mim mesmo em meio a
                                            tuas correntes luzidias.
Caminho como uma não-sombra: a própria coisa.
O que se passa?
Estou fechado neste mundo onde você me abraça.
Sou este mundo.
Estou
Insuportavelmente
Só. Como o que se arrasta: em torno, tentando existir,
Tudo me retorna
A ti.
 

Crente de que não posso, estando
Compenetrado no poço da vida,
Surdo, trêmulo, cego, vibrante,
Penso, nesse instante em que,
Sem dúvida, não se pode pensar,
Penso, a ouvi-la, que não devo
Ir a outro lugar senão ao que ali
Mesmo cheguei, que estava a
Caminho daquele começo, e não,
Como poderia parecer, fim de
Um dia, uma noite, uma alegria

Mesmo estando crente, penso.

 

Página publicada em dezembro de 2008


 

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