Poema
Ergo as paredes desse poema
claro, transparente
como a nudez do dia.
Desenho, linha a linha,
a luz dessas palavras,
instante imaculado,
fecunda lâmina.
Nesse verbo me deito.
Nele me preparo para a morte.
Nesse vinho adormeço.
Nele me cicatrizo por inteiro.
Faço desses versos
a minha pele,
as minhas pernas.
Teço com esse sopro
as minhas vértebras,
o meu âmago.
Nas sílabas desse poema,
sustento a gravidade do mundo,
ergo o dia como uma coluna
de pássaros e árvores de âmbar.
Nas letras desse abismo,
escrevo esse silêncio vertical,
perfeito como o céu de maio.
Ergo as paredes desse texto,
como quem erige o próprio túmulo,
a mesma velha antiga eternidade.
III
Rilke e a Baitadora andalusa
No meio da noite, nos braços da embriaguez,
contemplas essa bailadora de ardentes
constelações, de mil gestos como pássaros
apunhalados pelo sol, pela vertigem do vinho.
Esfinge de desertos sedentos de luz,
pergaminho de rubis em vivo magma,
somente tal dádiva pode incendiar-te
na plenitude do teu ser; somente essa terrível
beleza sabe queimar as tuas feridas,
o teu ser anterior ao nascimento,
contemporâneo da eterna morte.
Rútilo em absoluto movimento,
esse rochedo evola-se em cristalina dança,
em vertiginoso frémito: asa de uma suave
música a incinerar-te na agudeza do êxtase,
na beleza dos desastres. O rosto da bailadora
arde o teu olhar em viva labareda, em círculos
de um fogo concêntrico, infinito vórtice
em incêndios múltiplos. Dessa chama ressuscitas,
nela te inscreves, fazes de tua carne o bailado
das flamas, o frémito das centelhas.
Desse sol insurges, a ele consagras tua frágil
humanidade, essa invencível muralha, serena
cordilheira. Dessa queimadura fazes a tua sede,
as brasas de latejante existência.
Longamente fitas o estertor dessa face,
desse sorriso a pulsar os relâmpagos...
Também teu rosto toma-se fogo,
cântico, fuga de violinos em fúria,
sopro de sementes em louvor.
Tão intimamente abraças esse vício,
tão completamente respiras a alquimia
dessa febre, que de tuas entranhas
faz-se a fome de um Deus selvagem.