A NOITE DAS PARCAS
Somos mais impuros
que campos sórdidos
de batalhas.
Piores que tormentas
devastadoras
em tardes frias.
Nosso interior:
Um pélago de melancolias
revestido por um lívido corpo
repleto de máculas e falhas.
Somos mais sinistros
que um bando de corvos
e noturnas gralhas.
Amores?... Em nós
no restaram nem migalhas;
e assim, encenando falsas alegrias,
entoando réquiens, sem mortalhas,
semeando insânias em travessias
e passeando no fio das navalhas,
nada temos a oferecer
nas nossas noites e dias.
Estamos mais perdidos que os
seixos-rolados-do-despenhadeiro
que afundam no leito do rio...
Mais desolados que os infaustos
derrotados da guerra, em desvario...
Mais infirmes que os deserdados da sorte,
em imanes embaraços...
Nossos combalidos passos,
vera-efígie dos nossos insones
e languescentes corações,
há muito que percorrem
as curvas e contracurvas
das mesmíssimas sendas vãs...
... E nas antemanhãs,
já não temos os fulgores das auroras;
já não vemos novos dias, novas horas;
já esquecemos a pureza das menarcas...
Por tudo isso
é que já está próxima
a noite das soturnas Parcas.
A derradeira note,
na qual sucumbirá
nossa alma triste
e, com ela, tudo que em nós existe:
nossa dialética matéria,
nossos corpos clandestinos!
Nessa noite cálida, sem sereno
- sem o tristíssimo repicar dos velhos sinos –
nesse fragmento inexato do destino
secará, enfim, nossa fonte de veneno.
Posto que, da morte seremos inquilinos!
GALOPES ALIMEIRADOS
(Tributos ao Cantador Zé Limeira)
TRIBUTO I
- Quando a Copa do Mundo
Aconteceu em Matão
Jogavam na seleção
D. João e D. Pedro II
Quem disse foi Zé Raimundo
- Um vendedor de banana –
Que tava em Copacabana
E lá ficou assistindo
Se achar que estou mentindo
Telefone pro Viana.
- Quando o Águia F. Clube
Foi campeão mundial
Nosso zagueiro-central
Viajou pra Hollywood
E com o seu irmão Abud
Foi pra casa de uma mana
Naquela mesma semana
Pro Ájax foi vendido
Se achar que estou mentindo
Telefone pro Viana.
- Sábado de carnaval
Dia de São Benedito
Deixe o dito por não dito
Faça como Genival
Que é poeta de Pombal
Nos arredores de Gana
Se a mente não me engana
A inflação está subindo
Se achar que estou mentindo
Telefone pro Viana.
- Lá na Praia do Passado
Que ficava em Goiás
Tinha gado até demais
Voando pra todo lado
Vi um cantador letrado
E um cortador de grama
Cantando e rasgando grana
E um político aplaudindo
Se achar que estou mentindo
Telefone pro Viana.
5. Zé Protético de Oeiras
Que era irmão de Tiradentes
Começou fazer repentes
Lá na Praça do Ferreira
Mas numa segunda-feira
Pisou numa caninana
Fugiu com uma cigana
Cantarolando e sorrindo
Se achar que estou mentindo
Telefone pro Viana.
- Numa festa de São João
o pai de Chico Badoque
começou a cantar rock
dançando na contramão
e naquela confusão
chegou o Cabo Quintana
chupando um rolo de cana
dizendo: - Que dia lindo!
Se achar que estou mentindo
Telefone pro Viana.
- Água dura em pedra mole
Tanto fura até que bate
E o cachorro quando late
Ta querendo ravióli
As dobradiças do fole
Da velha Sebastiana
Que mora em Apucarana
Estão quase se partindo
Se achar que estou mentindo
Telefone pro Viana.
TRIBUTO II
- Um dia fui visitar
O templo dum faraó
Que fica em Caicó
Por trás da Serra do Mar
Depois aluguei um bar
Com Virgulino Ferreira
Cantando “Mulher Rendeira”
E “O que é que a baiana tem”
Querendo, faço também
Igualzinho a Zé Limeira!
2. Napoleão Bonaparte
Com um irmão e um pai
Na Guerra do Paraguai
Lutaram, fizeram parte
Armados de bacamarte
Atrás de uma trincheira
Expulsaram da fronteira
Bin Laden e Frankestein
Querendo, faço também
Igualzinho a Zé Limeira!
- Com Apolo e Anacreonte
E o gigante Teseu
Desarmei Prometeu
Depois saltei lá do monte
No meio do horizonte
Subi para atmosfera
E numa nuvem ligeira
Desembarquei no além...
Querendo, faço também
Igualzinho a Zé Limeira!
- Com Diógenes e Platão
Fui discípulo de Anágoras
Tracei junto com Pitágoras
Mil teses de intuição
C´o Velho Chico Pereira
E vi que a cigana arteira
Só fala o que lhe convém
Querendo, faço também
Igualzinho a Zé Limeira!
- Na hora que “Che” Guevara
E Nabucodonossor
Chamaram Jacques Cousteau
No deserto de Saara
Estava na Guanabara
O Cantador Oliveira
Com o Manoel Bandeira
E Albert Einstein
Querendo, faço também
Igualzinho a Zé Limeira!
- Juan Ponce de Leon
Vasco da Gama e Cabral
Viajaram pro Nepal
Com Vincente Pinzón
E mais velozes que o som
Numa jangada de esteira
Chegaram à Foz Figueira
E foram pra Santarém
Querendo, faço também
Igualzinho a Zé Limeira!
- Estudei na Paulicéia
O Evangelho de João
E a peregrinação
Do polvo da Galiléia
Acompanhei a estréia
Da igreja cristã primeira
Depois li a obra inteira
De Chuang-Tzu, pai do zen
Querendo, faço também
Igualzinho a Zé Limeira!
- Vi quando o Papa Leão
Abençoou Irineu
Vi quando o povo judeu
Cumpriu a sua missão
Eu vi a acre expressão
D´agonia derradeira
Daquele Pastor do Bem
Querendo, faço também
Igualzinho a Zé Limeira!
( Galope-cordel em homenagem a Zé Limeira, o maior mito da cantoria
popular brasileira).
SABEDORIA POPULAR 1
No meu sertão aprendi que
“Age” é o indivíduo desajeitado;
“Aluir” é o mesmo que erguer
e “corrutela” significa povoado.
“Entrar no chão de costas” é morrer;
“Areado” é quem está desorientado;
“Briga-de-jegue” é um ordinário cabaré
e “arranca-toc” é o sujeito abrutalhado.
“Doença do ar ” é paralisia;
Doença do mundo”, qualquer uma sexual,
e “doença do sol” é pneumonia.
“Esgoelar-se” é gritar furiosamente;
“Estrupiço” é uma pessoa anormal
e “pinga-fogo” significa valente.
( expressões populares comuns no Nordeste).
A SAGA DO VIGÁRIO E A SINA DO SICÁRIO
Em 1884,
Mês de março e dia 24,
Numa casa modesta lá do Crato,
Nasceu Cícero Romão Batista.
Filho do senhor Joaquim Romão
E da senhora Joaquina Batista,
Desde cedo mostrou-se altruísta
E logo fez a primeira comunhão.
Órfão de pais aos 18 anos,
Continuou obstinado nos seus planos
E em Fortaleza, no Diocesano,
Foi um esplendoroso Seminarista.
Aos 26 anos foi ordenado
E depois mudou-se pra Juazeiro,
Onde o Padre revelou-se milagreiro,
Tornando-se por todos venerado.
Aclamado como o “ Santo do Sertão ”,
Em razão dos seus dotes incontestes,
Combateu também a Coluna Prestes ,
Auxiliado pelo amigo Lampião .
Que, à época, cumpria sua sina
(após a perda injusta de seus pais),
Revoltado com a justiça e os ideais
E ostentando uma vida clandestina.
E para essa esdrúxula missão,
Talvez por ironia do destino,
O outrora perseguido Virgulino
Recebeu a patente de capitão.
Assim bandoleiro anarquista,
Que era símbolo de atrocidades,
No quatriênio de Arthur Bernardes
Foi nomeado com um “Legalista”.
E o “Rei do Cangaço ”, qual menino,
Sempre respeitou seu “ Padim Ciço ”;
Com ele firmando o compromisso
De honrar sempre o povo Alencarino.
A exemplo de Lampião, outros milhares
De rudes sertanejos execrados
Tornaram-se do Padre afilhados
E o louvaram por todos os lugares.
Mas... já velho, sem ver e sem ouvir,
Falto de lucidez e muito fraco,
No ano 1934
Expirou o “ Santo do Cariri ”.
Quatro anos mais tarde, o paladino
Tombou, trucidado, com seu bando.
E o cangaço ferido, sem comando,
Também agonizou, em desatino...
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