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LUCINDA NOGUEIRA PERSONA
Paranaense de Arapongas, vive em Cuiabá, Mato Grosso, Brasil. Na poesia estreou com Por imenso gosto (Massao Ohno, 1995) — Prêmio Especial do Concurso Cecília Meireles (1997) da União Brasileira de Escritres – UBE. Pela 7Letras, publicou Ser cotidiano em 1998 e Sopa escaldante em 2001 – Prêmio Cecília Meireles (2002) da UBE e Leito Ao Acaso, de 2004. É autora de livros infanto-juvenis, contos e crônicas. Professora da Universidade Federal de Mato Grosso e Universidade de Cuiabá
UM HOMEM TRISTE
Em local desprotegido caiu a noite.
Nuvens dilaceradas flutuavam distantes como lenços perdidos.
Um homem triste olhando o teto de estrelas pensou: sou pequeno terrivelmente pequeno e mais ainda diminuiu em altura.
Depois, por certo tempo, ele chorou. Não a quantidade necessária para cada amargura soterrada porém o suficiente para alívio momentâneo.
Quando voltou a olhar o céu frangalhos de nuvens estrelas pensava um pouco melhor: eu sinto outra coisa maior maior do que qualquer constelação o que eu sinto é enorme e se estende em todas as direções (mas o que é eu não sei).
(De Sopa Escaldante)
QUARTO 412
As vezes em outros lugares não sou a mesma.
Ibis Hotel, quarto 412. É muito tarde estou cansada mas não quero perder os objetos tal como se apresentam. Um espelho entorpecido recolhe as imagens que irão desaparecer no escuro.
Outras vezes são os lugares que não querem me perder Não tenho certeza de nada quantas pessoas já dormiram neste quarto? quantas já se amaram nestes lençóis enrugados? quantas vezes as mesmas palavras foram ditas? quantas palavras já morreram entre estas quatro paredes (revoltas e perigosas)?
(De Sopa Escaldante)
MATO GROSSO EM LABAREDAS
Ontem, no telenotícias do meio-dia, vi cangurus desnorteados num incêndio na Austrália. De imediato, sobre o leito de cozidos remontaram outras imagens dos incêndios deflagrados na paisagem regional. Vi Mato Grosso em labaredas as labaredas como cordas estrangulando gargantas que se uniam na música da carne em combustão. Vi emas atônitas despenhando ao longo das chamas e serpentes abrasadoras subindo pela agitada coluna de fogo. Muito mais tarde (penoso contar) vi ninhos e lagartos ao rescaldo.
(De Leito de Acaso)
COISAS QUE MORTAS PENSAMOS
Episodicamente a vida aparece. Isto não quer dizer que nos intervalos ela não exista. O que há de notável (ou mais do que isto) é que a vida se manifesta nas coisas que mortas pensamos: no seio do amarelo e algum conflito no luto das sementes que retornarão aos ramos. Não sei quantas vezes ainda buscarei a realidade na realidade oferecida por um mamão cortado ao meio.
O que também não sucede aos demais transeuntes quando atravessam cozinhas?
Página publicada em abril de 2009
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