PAULO MELO SOUSA
Nasceu em São Luis do Maranhão em 16. Formado em Desenho Industrial e Comunicação Social, habilitação em Jornalismo, pela Universidade Federal do Maranhão. Um dos criadores, em 1985, do grupo Poeme-se, que cria também um sebo e locadora de livros. Ganhador duas vezes do Festival Maranhense de Poesia Falada, em 1985 e 1987.
Poema Descalço
se me devoro
é porque tenho fome de mim
todo silêncio
possui a palavra que merece
qualquer existência
pode ser camaleônica
um mar inexplicável
habita minhas
entranhas
há muita sede no mundo
bem poucos sabem beber
Maré de Lua
caminho todas as tribos
mas não sou de nenhuma
cada animal é dono de uma astúcia
antes de conhecer o miolo das coisas
viventes
precisa pelejar
pra ter entendimento das saídas
labirinto é bicho
esquivado
entrar é fácil
Bem antes do primevo Adão
as vísceras da pedra
são devoradas
pela fome dos séculos
(Melo Souza, Paulo. Visagem.
São Luís: Lithograf/FUNC, 2002. p.31-35)
Disputa
negras palavras florescem
nos olhos da ruína
garras afiadas disputam mundos
almas delicadas
não suportam o fascínio da morte
o coração do poeta
pediu aviso prévio
bebe o crepúsculo na esquina
jogando pôquer com o destino
Ariadne
deglutia flores
amassadas na maionese
acionava os alarmes da aurora
despertava no país do sono
brincava de cabra-cega na beira dos precipícios
palitava os dentes
à espera do apocalipse
Hermético
o cadáver da pedra se apavora
com o esqueleto da própria sombra
no músculo das palavras
cabe toda a carta celeste
o maxilar da morte anoitece
devorando omoplatas de cetim
um poeta se diverte
espancando os dentes na máquina de escrever
Está tudo bem quando eu sangro
e os outros dormem
Faço de mim meu próprio espetáculo
caminhando nu pela praça
mijando estátuas
com bigodes e paletós
gritando ao mundo a palavra orgasmo
quando a lua cínica me seduz
e me trai
pontualmente
mês após mês e até sempre e sempre
Então saio pela noite feito um lobisomem
bebendo a cântaros
oferecendo brindes à minha própria loucura
Parto
a poesia dispensa guarda-costas
ela é medula
habita a flora da linguagem
constrói sua febre
das cinzas do céu e do inferno
fênix da palavra
basta a si mesma para explicar sua gênese.
(Oráculo de Lúcifer - Livro inédito)
SOUZA, Paulo Melo. Oráculo de Lúcifer. Poesia. São Luis, MA: SIOGE, 1994. 144 p. 14x23 cm. Capa: Iramir Araújo. ISBN 85-7207-08-1-8
ATESTADO
ando só
comigo
muito mal acompanhado
sou
para sempre
meu inimigo público número um
VIAGEM
De Sirius a Belatrix
sete segundos bastam
formigas adoram navegar
em mapas celestes
SOUSA, Paulo Melo. Vespeiro. Poesia. São Luis: FUNC, 2010. 60 p “Premiado no concurso literário e artístico ´Cidade de São Luis´ 2009 – Prêmio Sousândrade“ Col. A.M. (EA)
tresnoitado
l
noite demorosa
relógio carcomido que foi do meu avô
crucificado na parede caiada
tic tacteando as luas que me restam
o poeta mascando sua intragável solidão
no irrisório chão da cozinha
do teto escorre uma luz mortiça
sobre a mesa tetraplégica
escapulindo das orelhas do prato
zumbe
a escandalosa conversa dos talheres
apenas um rascunho de alma
assombra os deslimites da alquebrada casa
o poeta debulha seu karma
engolindo a contragosto
a triste cartilagem
de um indigesto silêncio
além dos quânticos buracos de minhoca
a criatura navega
em busca de novos pastores
testemunha
mais um neófito anti-universo
desembrulhar seu mapa
conspirando desconformidades
o desfile das novas gerações
não trouxe o ânimo da fé
é hora de assoprar
um outro cosmos
livre do martírio do barro
Página preparada por Zenilton de Jesus Gayoso Miranda, publicada em out. 2008. ampliada e republicada em março de 2012
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