CRÔNICA DE NOMEAÇÃO DA DEFENSORIA LÍRICA DA CIDADE
por graça e gosto de el-rei
e espada de bom capitão
por instrução do prior-frei
segredos do coração
e por tudo que oro e sei
moinhos de ventos e brasão
consagro em pública praça
do herói a rebelião
e nomeio fiel protetor
das pedras do nosso chão
a luís Augusto cassas
defensor perpétuo e lírico
de São luís do Maranhão
em nome do sol e mar
dou a ele força e poder
de lapidar e guardar
a vida que há de florescer
expeça-se alvará
salvas de mudo canhão
província de muito amar
firmo: “cais da sagração”
Extraído de Em Nome do Filho (Advento de Aquário). Rio de Janeiro: Imago, 2003.
MAR DEPRIMIDO
mar de São Luis, constrangido,
que banhas as costas do Atlântico
e as costas e seios das pacíficas,
quem te roubou o azul do paraíso:
os vendedores de cloro das piscinas
ou o céu desbotado do olhar das meninas?
mar de São Luis, humilhado,
saqueado por metralhas e conquistadores
em navios que vazam óleo desde o início,
quem roubou o azul do teu sorriso:
os poetas que te deixaram abandonado
ou os petroleiros que te sujaram o vestido?
mar de São Luís, sucateado,
sobra de outros mares, poluído.
o cinzento de tuas águas
é tua bandeira de mágoas?
é o teu vestido e anágua?
choras por Antonio: o de Cleópatra?
choras por outro: o de Ana Amélia.
mar de São Luís, enrubescido,
derramas lágrimas de crocodilo,
deságuas sujas águas em praias e portos.
enches os tonéis, os lenços, os esgotos.
mar de São Luis, emaranhado
em maranhas de mar amargurados,
quem seqüestrou o teu azul-coral
deixou-te em troca o excesso de sal.
entanto, o verde que antevejo nessa manhã,
só o vislumbro detrás de óculos rayban.
a não ser que eu ponha cloro,
nas lágrimas que, em ti, choro.
Os Arautos do Dia
edital de tombamento
(escrito em papel embrulho)
Ficam declarados tombados
pra todos os efeitos e dados
os herói anônimos e martirizados:
os paralelepípedos sob o asfalto
& a cobertura de cobalto
o sorvete de ameixa do hotel central
& as sessões coloridas no cine-rival
as sabiás de cócoras
& os bem-te-vis de galochas
a coroa de rei dos homens
& a galinhagem de ana jansen
a caldeirada do germano
& os endereços dos pés-de-pano
os vendedores de pirulito
& os jogadores de palito
os anjinhos despirocados
& os poetas emprenhados pelos ouvidos
os quebra-queixos à mingua
& o teu beijo de língua
o doce de bacuri com cravinho
& o pôr-do-sol do portinho
as meninas da rua 28
& as virgens mortas sem coito
(a esses 20 tiros de canhão
e 30 missas em intenção)
e mais ainda: a saudade etérea
do amor de g. dias & ana amélia
O pintor de cartazes do cine-éden
faça repintar e imprimir e correr
a nova aurora que vai nascer
FEIRA DO JOÃO PAULO
Grécia jamaicana:
tua bandeira republicana
é um cacho de banana
Extraídos da obra Ópera barroca (guia erótico-poético & serpentário-lírico da cidade de São Luís do Maranhão). Rio de Janeiro: Imago, 1998.
De
Luis Augusto Cassas
A PAIXÃO segundo ALCÂNTARA
São Paulo> Roswitha Kemppf Editores, 1985
MANIFESTO DOS CUPINS
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Já roemos vossa esperança
livros tradições museus
memória lembranças retratos
pés de-cama caibros ratos
amanhã roeremos
vossos ossos
AUTO DO RETRATO
Este corpo não é meu.
Visto-o como emprestado,
a algum nobre antepassado,
que dentro em mim se escondeu.
Esta alma não é minha.
Habita apenas o eterno
inútil espaço de um terno,
que com o corpo caminha.
Não é minha a cicatriz
que desenharam nos ombros.
Nem esses olhos de escombros.
Tampouco o queixo e o nariz.
De mim, apenas, o gesto,
o olhar, o passo, a ironia,
a fútil genealogia
de tudo que sobra e é resto.
De
Luis Augusto Cassas
A PAIXÃO SEGUNDO ALCÂNTARA
e novos poemas
Rio de Janeiro: Imago, 2006. 104 p.
ISBN 85-312-0991-9
BANDA DE ASA
pomba do divino
asas do eterno
confessai aos sinos
barreira do inferno
dai coração novo
a todas as criaturas
livrai-as do fogo
noite mais escura
pousai sobre os mísseis
absolvei-lhe os destroços
tornai-os úteis fósseis
museu paleonlógico
CASSAS, Luis Augusto. Rosebud. Poemas. São Paulo: Massao Ohno Editor, 1990;103 p. Ilus. da capa Edgar Rocha. Diagramação e produção: Shirley Stefanowski. formato 21x21 cm. autografado. Col. A.M. (EA)
TRATAMENTO DE CHOQUE
Os verdadeiros loucos vestem uniformes brancos
e dirigem os hospitais psiquiátricos
amarrados em camisas-de-força.
À noite, uivam como coiotes desterrados
e tentam o suicídio com seringas hipodérmicas
conversando com Stalin, Hitler e Mata Hari.
Mas eu advogo que estão lúcidos
pelo olhar furioso que destilam.
Segundo um relatório assinado
pêlos poetas Artaud, Ginsberg e Salomon,
nunca terão alta.
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