Fonte: www.guesaerrante.com.br
LAGO BURNETT
(1929-1995)
José Carlos Lago Burnett é natural da cidade de São Luis do Maranhão, onde atuou intensamente na imprensa e em veículos de cultura com Bandeira Tribuzi e Ferreira Gullar. Considerado um dos expoentes da Geração de 45, passou a exercer atividade jornalística no Rio de Janeiro, principalmente no Jornal do Brasil.
Obra poética: Estrela do céu perdido (1949), 50 poemas (1959).
O COPO D´ÁGUA
O copo d´água. Insípido
entre o pássaro e a lâmpada.
Lúcido e líquido.
Listras de sol passeiam-lhe a superfície
sem excessos matinais de azul-desperto.
Luz flutuante, o mundo transparente,
o copo dágua resiste.
Sólida contextura, as
firmes paredes de vidro unânimes, eternas,
equilibram o milagre.
O copo dágua. insípido
na antenoite sonora. Simples,
lúcido e líquido.
(Os Elementos do Mito / l953)
A ÚLTIMA CANÇÃO DA ILHA
Trarei sempre verde
gaivotas e sal:
a lembrança não perde
a ilha inicial
Nem descuido as brisas
o mar de imundícies
(minhas pesquisas
bóiam às superfícies)
A obsessão do cerco
por ínvias águas
é o em que me perco
entre — agora — mágoas
Autêntico Atlântico
aleou-me todo
quanto de romântico
mergulhou-me em lodo
Oh! velas belas
ao ritmo transeunte
vosso, belas velas
que eu me unte
Trago-me à retina
de mastros e quilhas
cheia a sina
de todas as ilhas
Código pressago
de pássaro marítimo
na alma trago
canto e ritmo
Que é quanto me sobre
por ter-me feliz
ao sol que encobre
minha São Luís
Onde era só
com hábil engenho
quanto virou pó
tudo que não tenho
Idéias descalças
desfiando saias
longas como valsas
pelas praias
A primeira estância
ao céu abstrato
coisas como infância
ritmando com mato
Outros poucos casos
como águas insípidas
Nos olhos rasos
saudades liquidas
(Os Elementos do Mito / l953)
|