FÉLIX AIRES
(1904-1979)
Felício Alves nasceu em Buriti Bravo, M aranhão, Brasil. Poeta, prosador, médico veterinário, membro da Academia Maranhense de Letras.
Obra: Antologia de Sonetos Piauienses (1972), Apanágio (Poesia,1936), Buriti Bravo (Poesia, 1931), Cromos (1953), O mais Lindos Sonetos Piauienses (crítica, teoria e história literárias, 1940), O Maranhão na Poesia Popular (1977 ), O Natal na Poesia Brasileira (1957), O Piauí na Poesia Popular (1975), Os Menores Versos da Língua (crítica, teoria e história literárias, 1962), Ouro Bravo (Poesia, 1960), Pequenas Palestras (1936), Poemas aos Imortais (1937 ), Relâmpagos (Poesia, 1960).
IMPREVISTO
O viajante, ao passar., joga e esquece, na mata,
a ponta do cigarro, inconsciente do mal;
e nas folhas do chão a fagulha desata
o fogo que não veio ali proposital.
Irrompe a labareda, alarmante arrebata
ramos, troncos, rechãs a investida infernal!
Rubra serpente enorme em fúria desbarata
a fragrância, o viçor do reino vegetal!
Queima-se o campo, a roda, a um sopro, de improviso!
E longe, o causador de todo o prejuízo
vai muito alheio ao dano, olhos não volve atrás.
- Também há quem nos jogue o olhar flamante e quente
que o coração nos leva a uma paixão ardente
e a dona desse olhar nem sabe o mal que faz!
SONETO ARTIFICIAL
Do alto do meu sonho inadiável, do cimo da
impressãp que conduz em prol de novo estilo,
às vezes vejo a Musa - uma Vênus de Milo,
outras vezes, porém, uma pobre quasímoda!
A lira - o coração - a jóia que esmerilo,
tímida, pronuncio aqui no verso - tímida;
metaplasmo ajuda a isto, alcança o arrimo da
antítese que vem para servir de asilo.
Hei de também vencer! O caminho mais reto dos
trabalhos vou a seguir, vendo que se desaba do
esforço que porfio, a rigidez dos métodos.
E fico, noite e dia, alerta, neste afã:
- segunda, terça, quarta, e quinta, e sexta, e sábado,
domingo... E vencerei? - Vencerás, amanhã!
PORTO DE SÃO LUIS
De momento a momento, amuado, o mar esmurra,
bruto, esbaqueia, esbate, esbraveja, esbarronda!
Os mais fortes murais o seu chicote surra
e atrevido intromete, estruge, atroa, estronda!
Enche, transborda e vaza, encharca, estoira, esturra,
inquieto, a retesar seus pulsos de onda em onda!
Hércules que protesta e incrivelmente empurra
enormes vagalhões, sem ter quem lhe responda!
Gigante intempestivo, intrépido, arruaceiro,
que de rosto fechado ameaça o mundo inteiro,
espragueja a cuspir os portos das cidades!
- Mar que amedronta a terra em doudos temporais
o ódio, pior que tu, de arremessos fatais,
incha, resmunga e explode em negras tempestades!
(In Vagalume, jan./fev., 1994)
TROVAS
Longe, a gaivota voando,
é um til perdido nos ares...
E eu viajo, me recordando
da bênção dos teus olhares!
Por tua beleza tanta
se enflora meu pensamento,
e a boca da noite canta
as melodias do vento.
Da mais pura filigrana,
com esse encanto de lenda,
tu és uma trova humana
vestida de seda e renda.
Quando ela chega, seu riso
é um lírio abrindo a corola
e então nascem de improviso
flores ao pé da viola.
Que lindo o mar! Nestas rotas
vejo as velas nos folguedo!
Alva toalha de gaivotas
sobre a mesa dos rochedos!
Da caboclinha bonita
armam-se os seios seguros,
que são dois frutos maduros
dentro de um ramo de chita!
In Clóvis Ramos/Minha Terra Tem Palmeiras (Trovadores Maranhenses) Janeiro, 1970)
Página preparada por ZENILTON DE JESUS GAYOSO MIRANDA,
publicada em junho de 2008.
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