VISÃO PERENE
Ao conterrâneo Omar Furtado
Visão do Brejo. O temporal arranca
pela raiz uma fruteira antiga.
Vem a neblina que amanhece branca.
Os passarinhos medem-se em cantiga.
Resplende o sol, a chuvarada estanca.
Um sapo sai da gruta em que se abriga.
Ressoa em casa uma risada franca,
que me revela visitante amiga.
Corre um regato à sombra da mangueira.
No patamar da igreja escuto a banda.
Recordo a procissão da Padroeira.
Abraço e beijo a mãe, querida e branda.
Na festa, uma sanfona de primeira.
E um cheiro forte de mulher tresanda.
OBRA DE ARTE
Ao produzir poemas não me basto,
sozinho nunca estou quando versejo.
Os sons da lira servem-me de pasto,
para eu mudar em rimas um lampejo.
No desempenho deste ofício casto,
arrebatado para além me vejo.
De qualquer outra ocupação me afasto,
na realização de meu desejo.
Um ser oculto, rigoroso e brando
no estilo próprio, me domina a mente,
que versifica sob igual comando.
A inspiração, que todo artista sente,
súbito vem, e não se sabe quando,
nem se algum dia surge novamente.
DISSABOR
Culpado sou também – confesso agora –
do imenso dissabor que me castiga,
desta saudade que em meu peito chora,
depois mudada em sons de uma cantiga.
Cego supunha amar-te à moda antiga,
de dentro vinha o que eu mostrava fora.
Em minha solidão a dor me obriga
a revelar-te o mal que me apavora.
De nossa ligação, jamais eu via
os laços frouxos do começo ao fim,
dissimulados pela fantasia.
O rompimento nos provou assim
os exageros da paixão tardia
que felizmente se afastou de mim.
Extraídos da obra Gorgeios. São Luis: Arco Íris Gráfica e Editora, 2001. 376 p.
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